ODE.

Já vou tocando, ó Licio,

De Lustros dez o fatigado termo;

E já meu corpo enfermo

Se avisinha da morte ao duro officio:

Que cedo o meu destino me promette

Calcar as sombras do medonho Lethe!

Eu descerei contente

A ver os Manes dos Avós amados;

Que bem aventurados,

Se outro mundo tratarão, se outra gente!

Não virão elles, como eu triste vejo,

O velho mando peiorar sem pejo.

Passárão da innocencia

Pela candida estrada os pés levando;

Inda a fera violencia

Não corrompia da Justiça o mando;

Praticava-se a próvida igualdade

Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

A pura fé do Amigo,

Renovava de Orestes a memoria:

Commum era o perigo,

Reciproca tambem a pena, a gloria:

Que traições, e que enganos tem disposto

Em nossos dias hum fingido rosto!

Tudo se vê mudado

Nesta idade fatal em que de ferro

O Idolo adorado

Torpemente protege o crime, o erro:

Como de susto, e de vergonha cheia

Se retira de nós a bella Astrea!

Ah! E quem de teus laços

Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?

Rotos em mil pedaços

Os teus grilhões a pendurar já chego;

Não mais os teus encantos me deleitem,

Estes miseros restos se aproveitem.

Que differentes climas

Já me finjo habitar! Os brandos ares,

Que tu Zefiro, animas

Que prazeres me inspirão! Dos pezares,

Das magoas, do desgosto, e do tormento

Aqui não sôa o tragico lamento.

Sôlto do mortal manto

Cuido que o centro dos Elysios piso!

Oh quanto he bella, quanto

A margem deste Lago! Em fresco riso

Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,

Aqui saudão a perpetua Aurora.

Adoravel sciencia,

Que encheste as noites, e esgotaste os dias,

Da humana intelligencia,

Agora sei quam longe te desvias!

Este o seio da luz, aonde tudo

Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

O número, a distancia

Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:

Noto a eterna constancia

Do Planeta da Luz; observo o giro

Da Terra, que regula a varia face

Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

Certa, e firme a carreira

Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,

Da esfera derradeira

Contemplo a força, que os mais Orbes move;

A harmonia me encanta acorde, e rara,

Que de Samos o Sabio já notára.

Aqui se patentêa

Dos errados systemas o conceito;

E longe a minha idéa

De vacilar, já firma o mais perfeito.

Quem senão tu, ó Genio, sobre humano

Libertar me podéra deste engano!

De Massinissa o Paço

De Carthago ao Heróe tal scena pinta:

Ao soberbo ameaço

Da Fortuna, elle vê clara, e distincta,

Qual o meu Genio me retrata agora,

A bella Patria, onde o descanço mora.

He este, ó Licio, he este

Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno,

Aonde em paz celeste

Não respira da inveja o atroz veneno:

E aonde livres da infeliz mudança

Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

Que doce companhia

Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse

O momento que hum dia

Tão gostosa união nos lavra, e tece!

Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas,

Que enchem de gloria as immortais Moradas.

Em praticas suaves

Alli as breves horas gastaremos;

Nem já nos serão graves

Na lembrança os trabalhos que aqui temos;

Nem da pezada humanidade nossa

Pena haverá, que atormentar-nos possa.

Mas tu, que dos humanos

Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte;

Tu, que a meta dos annos

Firmas, descendo de teu mando a morte,

Dilata os dias do meu Licio, em quanto,

Douto me instrue, e me entertem seu canto.

Marilia de Dirceo · 第 111 / 113 题