LYRA IV.

Amor por acaso

A hum pouso chegava,

Aonde accolhida

A Morte se achava.

Risonhos, e alegres

Os braços se dérão,

E as armas unidas

N'um sitio pozerão.

De emprezas tamanhas

Cansados já vinhão,

E em larga conversa

A noite entretinhão.

Hum conta que ha pouco

A seta aguçada

Em huma belleza

Deixára empregada.

Diz outro que as flexas

Cravára no peito

De hum grande, que teve

O Mundo sujeito.

Em quanto das forças

Cada hum persumia,

Seus membros já laços

O somno rendia.

Dormindo tranquillos

A noite passárão,

E inda antes da Aurora

Com ancia acordárão.

_He tempo que o leito

Deixemos, ó Morte_;

Amor, já erguido

Fallou desta sorte.

_He tempo_, em resposta

A morte repete,

_Que á nossa fadiga

Dormir não compete_.

_As armas colhamos,

Voltemos ao giro:

Cada hum a seu gosto

Empregue o seu tiro_.

Vão inda c'os olhos

Em somno turbados,

Ao sitio em que os ferros

Estão pendurados.

Amor para as setas

Da morte se enclina:

De amor logo a Morte

C'o as flexas atina.

Oh golpes tyrannos!

Oh mãos homicidas!

São tiros da Morte

De Amor as feridas.

De hum sonho, que pinto,

Marilia conhece,

Se amor, ou se morte

Este alma padece.

Marilia de Dirceo · 第 88 / 113 题