LYRA XII.

Ah, Marilia, que tormento

Não tens de sentir saudosa!

Não podem ver os teus olhos

A campina deleitosa,

Nem a tua mesma Aldêa,

Que tyrannos não proponhão

Á inda inquieta idéa

Huma imagem de afflição.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando levares, Marilia,

Teu ledo rebanho ao prado

Tu dirás: aqui trazia

Dirceo tambem o seu gado.

Verás os sitios ditosos

Onde, Marilia, te dava,

Doces beijos amorosos

Nos dedos da branca mão.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando á janella sahires

Sem quereres, descuidada,

Tu verás, Marilia, a minha

E minha pobre morada.

Tu dirás então comtigo:

Alli Dirceo esperava

Para me levar comsigo:

E alli soffreo a prisão.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando vires igualmente

Do caro Glauceste a choça,

Onde alegre se juntavão

Os pouco da escolha nossa,

Pondo os olhos na varanda

Tu dirás, de mágoa chêa:

Todo o congresso alli anda,

Só o meu Amado não.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando passar pela rua

O meu companheiro honrado,

Sem que me vejas com elle

Caminhar emparelhado,

Tu dirás: não foi tyranna

Sómente comigo a sorte;

Tambem cortou deshumana

A mais fiel união.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

N'uma masmorra mettido

Eu não vejo imagens destas,

Imagens, que são por certo

A quem adora funestas.

Mas se existem separadas

Dos inchados rôxos olhos,

Estão, que he mais, retratadas

No fundo do coração.

Tambem mando aos surdos Deoses

Tristes suspiros em vão.

Marilia de Dirceo · 第 56 / 113 题