LYRA VIII.

Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,

A quem o nome derão de Fortuna,

Pega-me pelo braço,

E com voz importuna

Me diz que mova o passo;

Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,

Quanto o destino manda,

Que ella obre sobre a terra.

Que coizas portentosas nelle encontro!

Eu vejo a pobre fundação de Roma,

Vejo-a queimar Carthago;

Vejo que as gentes doma;

E vejo o seu estrago.

Lá florece o poder do Assyrio Povo:

Aqui os Medos crescem

E os perde hum braço novo.

Então me diz a Deosa: _E que pertendes?

Todas estas Medalhas vêr agora?

Ah! não, não sejas louco!

Espaço de annos fôra

Para isto ainda pouco.

Deixo estranhos successos; vem comigo,

Verás quanto inda deve

Acontecer comtigo_.

Levou-me aonde estava a minha historia,

Que toda me explicou com medo, e arte.

_Tirei-te libras de oiro_

Me diz, _e quero dar-te

Todo aquelle thesoiro.

Não suspira por bens hum peito nobre_:

Sevéro lhe respondo.

_Vivo affeito a ser pobre_.

Aqui me enruga a Deosa irada a testa;

E fica sem fallar hum breve espaço.

_Alegra, alegra o rosto_,

Prosegue, _alli te faço

Restituir o posto_.

Respondo com ar de mofa, e tom sereno.

_Conheço-te, Fortuna,

Posso morrer pequeno_.

_Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.

Então me banho todo de alegria

_Cuidei_, me torna a cega,

_Que essa alma não queria

Nem esta mesma entrega.

He esse o bem_, respondo, _que me move;

Mas este bem he santo,

Vem só da mão de Jove_.

Queria mais fallar; eu insoffrido

Desta maneira rompo os seus accentos:

_Basta, Fortuna, basta;

Estes breves momentos

Lá noutras coizas gasta;

Da minha sorte nada mais contemplo_.

E chamando Marilia

Suspiro, e deixo o Templo.

Marilia de Dirceo · 第 52 / 113 题