Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o
pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o
filho estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel,
dormindo, temia que houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o,
chamando-o, despertava-o.
--Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida, é
a sombra em que a alma repousa.
O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos--o
primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o
procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.
--É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando
elle assim fica, meu coração pára retransido.
--É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão do
pesadello.
O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os
peccadores fazem-na espavoridos.
Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que
não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da
terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.
Não desenterras a semente por não a veres á flor do solo, deixas que
ella venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça.
O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O
sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida
com a repercução indistincta das vozes e dos ruidos.
Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem.
Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir.
É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore.
O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana
sobre a treva--não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve
ser tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir.
Conserva-te immovel e calada, não perturbes a vida mysteriosa. Demais,
Elle é o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por
um raio de sol. Deixa-o dormir.
Bem sei que o egoismo das mãis chega a insurgir-se contra as leis de
Deus; não te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade
entrando na Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento.
--Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mãos, commovida.
--São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos
sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mão direita!
São palavras que digo. Deixa-o dormir.
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