O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando.
Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir
de humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero,
mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro.
Docemente baliam placidos rebanhos.
As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas,
bocejavam lançando por entre as barbas um halito brumoso.
Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela
abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas.
Burricos trotavam com alcofas e ceirões de frutas.
Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante
chapinhar e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob
a acenosa ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de
mergulho, aos gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou
pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados.
Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno,
pombos cercavam-nos em revoada arrulhante.
Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul.
Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a
azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso.
Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que
avançava, sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto.
Olhava anciosa os longes dos horizontes.
Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de
hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára.
Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já
transbordava em lagrimas.
Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice:
--Sentes-te fatigada?
--Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse.
--E porque choras?
--Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me,
constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me
horror. As anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande
medo, como se fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que
apparece além, tão alto, tão negro, sob o vôo dos corvos?
José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria.
--O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr
do sol.
--Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol
brilha.
Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa.
José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem,
escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe:
--Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os
corvos rondam-no, deve haver mortos ali.
--É um monte, disse a mulher.
--Um monte! repetiu Maria surprehendida.
--O Golgotha. O outro é o Goreb.
--O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido,
deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A
velha animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José
assentou-se-lhe ao lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os
cabellos humidos de orvalho, perguntou-lhe:
--Que tens? Ella não poude responder. Levantou-se e, resignadamente, de
olhos baixos, contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em
direcção á cidade branca e atorreada, ao sol.
* * * * *