A tentação

Numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio; tubas

clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas

penhas, que o luar vestia d'alvo, viram altos pylonos de basalto,

sarapintados de hyerogliphos, ante os quaes esphynges monstruosas,

deitadas sobre stelas negras, laivadas de sanguineo, com os bicos dos

rijos peitos incrustados de rubis, cravavam no ceu os olhos mysteriosos.

Mal chegaram á entrada portentosa logo uma luzente guarda de

cataphractos, com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas

rastejantes, hasteando lanças que alumiavam, formaram duas extensas alas

ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma

serena pulverisação de aromas.

Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirifica, toda em

marmores e pórphydos, com enormes templos, palacios que eram cidadellas,

jardins de redolentes áleas, rios beirados de arvores, com as rampas em

alcatifa de flores, rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava, em

tremulina, o luar.

Barcos de prôas curvas, transbordando brocados, cruzavam-se com musicos

sob doceis de seda.

Nos bosques que os cysnes percorriam, alvos como vivos marmores,

mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva

ou balouçavam-se em redouças.

Os zimborios dourados, os frontões dos templos tauxiados de ouro, as

escadarias largas, de zebrados degraus de cypolino, subindo a pateos de

mosaico, esplendiam.

Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa

variedade de trajos multicores.

Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos

de saios rubros, com franjas de prata, adagas á cinta, emplumados

turbantes á cabeça.

Plaustros rodavam com crepitações levantando uma nevoa loura.

Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de

onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua

bifida, enroscava-se, em lentas espiras, ficando, ás vezes, pendente, a

oscillar como uma grossa liana.

José olhava pasmado e Maria encolhia-se timida, contemplando,

deslumbrada, a cidade fulgente.

Não era a triste Sichem nem a sombria Jerichó. Que cidade seria aquella

tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?

Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as

portas do templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e

vagaroso, solemne, poz-se a descer a fulgida escaleira.

Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico glorioso.

O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.

Ceruleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves,

armas lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no

atrium, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir

argentino de armillas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois

cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos, surgiu no

limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria extatica.

A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu

olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como

se o emmoldurassem chammas.

--Vem! O meu amor esperava-te ancioso. És a eleita de minh'alma.

Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão

fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos

são açucenaes extensos.

Eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas. Vem!

A terra em que pisas nunca recolheu cadaveres. Entraste no reino da

ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braços que alumiavam como

caudas d'astros.

Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que

ribombava e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos,

cruzaram as lanças formando uma abobada de scintillações.

José olhava, mudo e receioso, acolhendo ao peito a timida donzella. Um

gallo cantou em alguma herdade proxima.

Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os

seres que a animavam subverteram-se.

Os ares ficaram nublados de fumo, estryges chirriaram.

De novo reappareceram os campos rasos, ermos, estereis, calados, ao luar

livido.

Maria, com o coração sobresaltado, murmurou:

--Que lindo sonho, meu senhor.

--Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarcha. Vamos! Os

lirios trescalam, os gallos cantam; é a madrugada que vem.

Puzeram-se a caminho.

E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme,

monstruosa, com dois cornos que coruscavam.

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Mysterio do Natal · 第 15 / 39 题