A nuvem

Sob a irradiação do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de

rescaldo.

Triste, flagellada Samária pagan!

Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver

desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a fé, de onde

manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as

fontes, entre rochas humidas.

Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram

e um sol mais árdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas.

Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar á inclemencia e

os leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas

fundas.

Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.

Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde

viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos.

De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua

salobra.

Ás vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas

formavam-lhe em torno um bosque ameno.

Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo

que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes

como aleijões. Não se ouvia cantar um passaro--só o gypaeto atravessava

o espaço fulgurante ou grandes aguias hostis, pousadas no cabeço das

penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.

Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos,

o sol abrazava-lhe a cabeça.

Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um

colmado, a grata ramagem duma arvore.

Ó terras férteis da Galiléa! valles alfombrados e frescos de tanta

belleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiléa!

Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como

nos incendidos dias estivaes.

Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do

crepusculo; mas a pressa que levavam não lhes permittia demora.

José, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porém,

começava a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.

--Chega-te á sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella obedeceu.

Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as lagrimas,

calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o

esposo soffresse com o seu soffrimento.

O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando

uma nuvem cresceu acima do monte Ebal.

Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande

vento.

Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as

saraivadas de verão.

A terra entenebrecia á passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao

caminho trilhado pelo casal.

O ruido augmentava tornando-se como o escachôo das catadupas.

Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto.

Subito Maria sorriu:

--São pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues que,

muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre

elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas.

José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as

aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que

elle, em extase, adorava-a.

Então proseguiram á sombra do immenso pallio azul e fóra da nuvem viva a

terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol.

* * * * *

Mysterio do Natal · 第 13 / 39 题