UMA CARTA

(A CARLOS MAYER)

_Meu caro Mayer_:

N'aquelles tempos, segundo a formula do Evangelho, o romantismo estava

nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de

Shakspeare.

Lembras-te do teu quarto da rua do Forno (creio eu) no ultimo andar,

quasi nas confidencias humoristicas das estrellas? O busto de

Shakspeare, que era o nosso calvario da arte, estava alli, ao pé d'uma

medalha do Dante, e da _Innocencia_ de Greuze! Lembra-me tambem uma

gravura do _Juizo Final_ e dois esboços hollandezes. Sobre a estante,

por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de Mirabeau e d'alguns

volumes da Encyclopedia--n'um quadro, a figura de Napoleão, sobre uns

rochedos emphaticos, via os prantos do mar e o vôo das gaivotas. Tinhas

tambem uma collecção de mineraes, e duas caveiras polidas e lavadas,

que riam serenamente. O meu quarto, no Salvador, era mais austero.

Na parede, havia pintada a carvão uma grande cruz. Em redor, estavam

escriptos versiculos da Biblia e disticos da _Imitação_. Mas, como eu

andasse n'esse tempo constipado, P., um pagão, fez raspar toda aquella

decoração ascetica, dizendo que o mysticismo, prohibindo o sol, o

calor, os banhos tepidos, as flanellas, todos os cuidados corporaes, me

era nocivo, e que o atheismo era para mim uma necessidade hygienica.

T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes com pelle humana: um

outro achou ostentosa a pelle humana, e disse, beatificamente, que,

como mais modesta e mais duradoira, lhe parecia preferivel a pelle

_cathedratica_. Outro instou para que se forrasse o quarto com as

folhas dos compendios; eu oppuz-me asperamente a isso, dando as mesmas

dolorosas razões que daria um preso, se lhe quizessem forrar as paredes

da enxovia com um tecido feito dos seus proprios remorsos! Tirou-se á

sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes com pelle humana.

Dispersamo-nos, lentos e tristes, para ir assassinar gente!

Reunia-se alli um concilio formidavel.

O mais implacavel era A. Que ideias e que camisas!

Foi elle que, um dia, na aula de direito canonico, prophetisou, com

gestos tragicos, a destruição de Babylonia! Vinha tambem S., todo

armado: entrava ordinariamente pela janella, galhardamente, como

Almaviva, estendia sobre os timidos a grande sombra protectora dos seus

bigodes, e pela noite alta saía á caça dos lobos. Perseguia debalde

um bando de lobos errantes, que, segundo elle, deviam ter acampado

na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha tambem M., de sinistras

ironias: um dia, no Bussaco, encontra um homem de suissas apostolicas,

corre para elle, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem

esmaga um insecto.--O que faz?!--bradava o homem.--Estou a catal-o;

o senhor, entre esta floresta, faz-me o effeito d'uma pulga entre as

barbas de Moysés!

E continuou a esmagal-o.

No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do

romantismo coimbrão.

Alli, muitas vezes, sentado sobre a _Mechanica celeste_ de Laplace, tu

me mostraste, mysteriosamente, um systema solar que tinhas creado e que

tinhas fechado dentro d'um frasco. Os universos, eram globulos d'agua.

Um dia um cão entornou aquelle firmamento!

Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e

do rio. Liamos: eu declamava _Hamlet_, tu tocavas na tua rebeca a

morbida _Lucia_! Muitas vezes, entre um concilio revolucionario, tu

lias em pé sobre a mesa, dramaticamente, os _Iambes_ de Barbier--os

_Iambes_, de que o classico A. dizia gravemente terem um defeito: serem

sublimes! Celebravamos cerimonias d'um culto desconhecido diante do

busto de Shakspeare. Davamos grandes batalhas! Combates crueis! Ainda

a seriedade estremece! Eram dois bandos. De um lado os pagãos, os

classicos, os positivistas; do outro os barbaros, os romanticos, os

mysticos.

As balas eram nomes: arremessavamos, de bando a bando,

sanguinolentamente, os nomes dos grotescos de cada seita. Um romantico

feria um classico, gritando-lhe com gesto terrivel: _Domingos dos

Reis-Quita!_ O classico cambaleava, mas respondia vingativo: _Gilbert

da Pixérécourt!_ Deves-te lembrar que uma vez um classico traiçoeiro

atirou desapiedadamente ao peito de um adversario romantico este nome

mortal: _Visconde d'Arlincourt!_ O romantico levou dolorosamente a mão

ao coração, e caíu inanimado.

Quando o levantamos não era um cadaver, mas era um convertido. Desertou

para as fileiras classicas, por não querer pertencer a um bando que

tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de Damocles: o

Visconde d'Arlincourt! Lembras-te de certo que nós fômos os Samsões

dos Philisteus classicos: não os derrotamos com a mesma queixada, mas

apunhalamol-os, um a um, com nomes de classicos portuguezes. Um dia

debandaram, atordoados, em quanto que nós do topo da escada gritavamos

sem quartel: _Sá de Miranda! Garção! Semedo! Quita! Sepulveda!_

Já cançados, sem armas, atiravamos-lhes estes nomes como pedras.

Lembras-te dos ensaios dos _Amigos Intimos_? Havia uma palavra que

eu não conseguia pronunciar bem: era--_solidariedade_. Na noite da

representação, tomei o partido de a cantar, separando as syllabas

como notas de musica. Era na _casa dos adereços_ do theatro, que nós

discutiamos com T. a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina,

arredando bastidores, proclamavamos o _Moysés_ e o _Pensieroso_ com

grave detrimento da Venus de Milo--a grande Aphrodite. Depois das

representações, havia ceias semelhantes ás bodas de Gamacho! Uma noite

saimos todos, de mantos, com corôas de loiro, symbolisando a geração

dos Petrarcas, e cantando um côro lacrimoso.

Tinha havido na rua de... uma reunião, e as familias, ao saír,

dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquella multidão de

phantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, offerecido a Deus

em nome dos discipulos de Petrarca!

Aquella epocha foi uma pequena _Restauração_, tanta era a vida, a seiva

espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adoravamos o theatro. O

theatro era a paixão, a lucta, a dôr, o coração arrancado, e gemendo,

sangrando, rolando sobre uma scena resplandecente. O nosso theatro--era

Shakspeare e Hugo, o os comicos hespanhoes, sombrios e magnificos, do

seculo XVI.

Admittiamos tambem a satyra no theatro, mas a satyra sanguinolenta,

Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo riso

gaulez, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de Tacito--para

pintar a cara macia do egoismo humano.

Tinhamos um hemicyclo de poetas. Collocados sob um ponto de vista

exclusivo, só era admittido á nossa communhão o que derivasse da força,

do rugido da natureza, da palpitação selvagem da vida e da paixão.

Tinhamos, ao mesmo tempo, occultamente, um idealismo doentio e

dissolvente. O nosso grande compositor era Beethoven; e todavia eu,

desgraçado de mim! adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te, amigo,

de teres n'esse tempo condescendido com Novalis e Luiz Tieck.

Para nós (e com grandes pancadas contrictas sobre o peito o digo)

Portugal não tinha direito de cidade na região da arte e da alma.

Aceitavamol-o como paiz d'acção. Um dos maiores poetas de Portugal,

para nós, era Vasco da Gama! Tinhamos um systema de nações-almas e

nações-braços. Assim, para nós, a maior epopeia portugueza era a

exploração do mar. As suas rimas eram conquistas. As scenas dos seus

dramas escorriam de sangue junto ás muralhas de Diu.

Litterariamente, Portugal, na nossa opinião, era simplesmente o

pretexto para o _Bosquejo Historico_ do snr. padre Figueiredo. Do

passado, apenas acreditavamos em João de Barros e Camões. Garrett

tinha-se separado de nós, tomando pelo atalho que leva a Deus, e

legando á geração presente a pouca alma que ella ainda tem.

Os contemporaneos, ai! não os conheciamos. Hoje eu, e creio que tu,

conhecemos bem os nobres espiritos que se obstinam em pensar no meio

d'este deserto d'almas, uns junto da historia, outros junto do verso,

alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o romance.

Mas, n'aquella epocha d'espontaneidade, só viamos o que era

verdadeiramente e incontestavelmente sol!

Discutiamos largamente a natureza, e eu lembro-me de te ouvir

fallar, deante daquella luz que cáe desfeita em tristeza no _Penedo

da Saudade_, ácerca da formação das nebuloses, e, partindo d'ahi,

descrever o homem e Deus, até á procissão da vespera.

Havia entre nós todas as theorias e todas as seitas: havia republicanos

barbaros, e republicanos poeticos; havia mysticos que praticavam as

eclogas de Virgilio; havia materialistas sentimentaes e melancolicos

que proclamavam a materia com uma meiga languidez nos olhos, e fallavam

da força vital, quasi de joelhos, com as mãos amorosamente postas;

havia pagãos que lamentavam as suas penas de amor, castamente, sob

a nevoa luminosa dos astros. Tudo havia, e tambem a serena amizade

incorruptivel, o fecundo amor do dever, e a ingenuidade risonha de tudo

o que desperta.

Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magnifica, e na vida

real eram todos contemplativos, melancolicos e timidos. E tu sabes qual

era o grande espirito, hoje longe de nós, que explicava Proudhon com a

serena familiaridade dos sabios, e nas aulas, dizia, com voz timida,

referindo-se aos jurisconsultos antigos: «... O snr. Pegas... S. S.ᵃ

o digno Paiva e Pona... O nobre cavalheiro Cujacio..., etc.» Tremia

diante d'aquelles commentadores, como diante de idolos mysteriosos; e

imaginava abrandal-os, dando-lhes venerações.

Tal era aquelle concilio. A força severa do espirito precisa d'estas

precursoras explosões de vida. Hoje pouco resta d'esses camaradas.

Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o braço,

reunem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de

Henrique IV.

Todos se perderam. Uns estão bem longe, para além do mar. Outros

soffrem os tedios da vida official. Outros vivem nas castas serenidades

do lar. Outros apodrecem debaixo da herva, e o que nós amavamos

n'elles--a alma--dissipou-se, e o que viamos--o corpo--anda em redor de

nós, nas metempsichoses, no ar, nas plantas, e nas pedras; mas nós não

comprehendemos ainda o seu silencio, como elles já não percebem o nosso

ruido!

Ora quem, n'esse tempo, me tivesse fallado dos seculos classicos de

Augusto e de Pericles, fazia-me uma injuria pessoal; e hoje em presença

d'esta doença desoladora dos espiritos, d'estas chagas luminosas e

incuraveis que as almas teem, eu estou quasi prompto a ir declarar, com

a vela na mão, como os antigos convertidos, que o pensamento tem tido

apenas tres epochas: Pericles, Augusto e Luiz XIV. É o cyclo dos tres

tyrannos! E, embora se lastime que as ideias nasçam com os escravos,

eu acho magnifico e verdadeiro que aquellas datas gloriosas sejam o

jazigo de tudo quanto a alma humana tem creado. _Confiteor._ Salve,

Aristoteles!

Mas o mal é que em volta d'aquellas epochas, que são cimos luminosos,

em baixo, crepusculos constellados, move-se uma população selvagem,

disforme e revolucionaria. Alli ha o crime, a paixão, a lucta, a dôr,

o sangue, o amor, o ciume, a morte e a duvida--todas as meias-tintas

do mal! Quem desce d'aquelles cimos, que são gloria, luz, e verdade,

onde habitam as almas nobres de Horacio, de La Harpe, de Boileau, de

Reis Quita, de Garção, de Caminha, e companhia, quem desce áquelles

fundos perversos topa com figuras gigantescas e horriveis: Shakspeare,

o humano; Dante, o sobrenatural; Rabelais, o escarnecedor; Isaias, o

propheta; Juvenal, o vingador; Eschylo, o fatal. Aquellas figuras

devastam!

E é um encontro peor que o da Floresta Mysteriosa, no começo da _Divina

Comedia_. Adeus, as serenidades idyllicas dos tempos de Pericles e de

Augusto! Adeus, as claras aguas da alegria nos olhos! Adeus, as tepidas

branduras, e os descanços arcadicos!

Aquelles poetas terriveis arrastam-nos, deslumbram-nos d'ideal,

esmagam-nos de paixão: dão-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre

a pobre alma: o amor, a melancolia, a paixão, o ciume, o mysticismo, a

ironia, o desespero, a duvida. Além d'isso não respeitam a felicidade

corporal do egoismo humano: atrevem-se a dar o terrivel espectaculo da

dôr. O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos arrancados, e o

seu coração caido na lama, pisado pelos filhos, cuspido pelos lacaios,

apupado pela populaça!

Aquelles poetas abrem na alma longes surprehendentes. Quem os lê sente

entrar em si, bruscamente, o infinito!

Soffre, como os sacerdotes antigos soffriam com a presença de Deus!

E entretanto os que se deixaram ficar na luz branca, em companhia dos

espiritos inoffensivos de Racine, de Horacio, de Virgilio, de todos os

classicos, vivem contente e socegadamente na sua fé ordinaria, na sua

virtude, na sua somnolencia hygienica!

É que esses inoffensivos fazem um ruido que embala, põem um _abat-jour_

ao ideal, trazem a paixão açaimada, e põem _caio_ na face da dôr.

Mas os que desceram ás regiões romanticas ficaram com a alma doente,

febril, anciada, nostalgica. Ahi está como se explica toda esta geração

moderna, contemplativa e doente! Porque--digamos a verdade--hoje a

vida do pensamento é um vasto hospital d'almas. E os gemidos, que sáem

dos leitos, são os dramas, os poemas, os romances modernos. Hoje,

incontestavelmente, pensar é soffrer. A enfermeira, que se chama

Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas classicos, esses,

não obrigam a pensar: são a simplicidade, a frieza, a narrativa, a

superficie, a affectação, a convenção--tudo menos a alma, com a sua

tragi-comedia de dôres e de duvidas!

Nós, meu amigo, somos uma geração desilludida por tres revoluções,

amollecida por uma invenção horrivel--a musica, tomada da duvida

religiosa, geração que vê esvaecer-se Christo, a quem tanto tempo

amou, e não vê chegar a liberdade, por quem ha bastante tempo espera.

Quaes podem ser as obras d'esta geração? Creações febris, convulsões

cerebraes, idealistas e doentias, todo um pesadello moral. Por isso

temos tido toda a serie de figuras melodramaticas, desde Fausto até Mr.

de Camors.

Qual vale mais: esta doença magnifica, ou a saude vulgar e inutil, que

se goza no clima tepido que vae desde Racine até Scribe? Eu prefiro

corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre se chama

Julietta e a ultima Margarida!

Os outros, os saudaveis, os doutrinarios da arte, os petrificadores da

paixão, os sacerdotes da tradição e do _magister dixit_, não pertencem

á arte pura: pertencem aos archivos. São documentos historicos. São

momentos sociaes vistos atravez da arte. Racine explica Luiz XIV.

E como na historia livre e pura se não póde conceber Luiz XIV, na

arte pura e livre não se póde admittir Racine. Toda a nossa Arcadia

explica os reinos de D. João V, de D. José I e de D. Maria I. Por

essa litteratura se pódem conhecer todos os sentimentos monarchicos

do tempo, o espirito cortezão, a influencia clerical, a sujeição

d'ante-camara, as subtilezas moraes, a serenidade emphatica, a

magestade theatral, toda essa somma de falsos sentimentos e de falsos

costumes que era o antigo regimen. E aquella litteratura falsa,

ridicula, sendo excellente como documento, é grotesca como arte.

Na arte só têm importancia os que criam almas, e não os que reproduzem

costumes.

A arte é a historia da alma. Queremos vêr o homem--não o homem

dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas

instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, collocado

na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a

representação dos caracteres taes quaes elles seriam, abandonados á sua

vontade intelligente e livre, sem as peias sociaes. Ahi está o que dá a

Shakspeare a supremacia na arte. Foi o maior creador d'almas. Revelou

a natureza espontanea: soltou as paixões em liberdade e mostrou a sua

livre acção. É ahi que se póde estudar o homem. É o que faz tambem a

grandeza de certos typos capitaes de Balzac, o _Barão Hulot_, _Goriot_,

_Graudet_. Realisam o seu destino, longe da associação humana, sob a

livre logica das paixões.

No emtanto, ás vezes, os que reflectem o seu tempo--criam: e é quando

não só revelam o caracter d'um momento, um estado convencional e

passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma d'um povo. É o que faz

a grandeza de João de Barros. Historiador, revelou o genio de Portugal,

o espirito aventureiro misturado de exaltação religiosa, o heroismo

supersticioso. Camões, o filho da Renascença e das imitações latinas,

não tem o espirito epico de João de Barros, que ás vezes, n'uma pagina,

constroe toda a antiga alma heroica da patria.

Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua phase rhetorica; e os

poetas modernos de França, Mallarmé, Dierx, Sully-Prudhomme, Catulle

Mendés, Heredia, Ricard, L'Isle-Adam, etc., fabricam maldições ao

mundo e á materia, com a mesma sabia reflexão e estudo com que os

poetas de 1810 fabricavam madrigaes. Uma certa escola, saída de Charles

Baudelaire, affecta amores pelo mal: como os histriões medrosos põem

vermelhão na face, para encobrir a pallidez, elles tingem a alma de

perversidade negra para encobrir o desfallecimento.

Ha pouco fallei de _Mr. de Camors_. Ainda um livro nostalgico. Ainda

Manfredo e D. Juan sob uma fórma remoçada e theatral.

Mr. de Camors é um mystico. Tem todos os desfallecimentos d'alma, todos

os desmaios do desejo dos heroes poeticos de 1830.

Traz só de mais um apparato: o materialismo. Mascara-se de

impassibilidade: mas quando? Justamente quando, pela posição politica,

pelo resplandecimento financeiro, pela força dos habitos e das

ligações, elle tem uma vida compassada e material--em que a alma

adormece. E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas,

quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão,

ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo, a

pobre alma, chorando afflicta, torturando-se, e pedindo com as mãos

postas ás estrellas um refugio sereno!

Aqui, em Portugal, tambem ha uma grande doença. Fallaria n'isso agora,

se não estivesse fatigado de escrever.

Mas a peor das doenças é a doença que affecta ares languidos; que

compõe, ao morrer, a voluptuosidade do olhar; que, quando já sente o

frio da morte, suspira correctamente: Adeus!

O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir, contra

os meus habitos impassivelmente silenciosos, a fallar vagamente em

litteratura? Nada, senão que, n'um dia de tristeza e de frio, eu

quiz fazer uma romaria saudosa áquelles tempos distantes era que

nós viviamos n'uma noite de ideias e de desejos, allumiados pelos

astros--Shakspeare, Dante, Rabelais, S. João, Gœthe e Cervantes, e

tendo sempre na alma aquella ternura luminosa que vinha d'uma aurora

serena, clara, immensa, purificadora e consoladora--Jesus Christo!

Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis. · 第 52 / 87 题