O coveiro canta:
O preto que vem d'Angola
Traz a bordo fava rica.
Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquelle homem: vestiste-o com os teus
cabellos, alimentaste-o com o teu halito, coroaste-o com o teu olhar,
divinisaste-o com o teu desejo: elle era formoso, e são, e forte, e
apaixonado: mas se passares por ao pé d'elle agora, oh pobre mulher
chorosa, põe bem a mão no nariz!
* * * * *
Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, resona, soluça e cachimba. E
se algumas lagrimas em ti cairem, vae-as enxugar depressa ao sol!
Fica-te em paz! Os que teem alma não querem a luz dos teus olhos; pódes
consumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar,
sempre erguido para lá, ninguem terá ciumes do ceu!
Os que teem coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes
emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas
para elle, ninguem terá ciumes de Deus!
Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua
resplandecente, a linha magnifica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh
clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce
Lisboa, coroada de ceu, resigna-te--a não ter alma!