Ha duzentos annos, uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco
na Hollanda humida e ubere, e, sob o equinoxio e os grandes ventos,
miseraveis, austeros, levando uma Biblia, partiram para as bandas da
America.
Duzentos annos depois, estes homens que tinham ido, solitarios, n'um
barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra epica pelo
Mediterraneo, pelo Pacifico, pelo mar das Indias, pelo Atlantico, pelos
mares do Norte.
Aquella colonia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados,
rotos, que dormiam ás humidades do ar n'uma capa esfarrapada, é hoje a
America do Norte--os Estados-Unidos.
America do Norte significa trabalho, fé, heroismo, industria, capital,
força e materia.
Ultimamente via eu o _Miautonomah_, sinistro e negro caçador de
esquadras: é toda a imagem da America--frio, sereno, contente,
material, e cheio de fogos, de estrondos, de machinismos, de forças e
de fulminações.
É o que amedronta n'aquelle navio:--a frieza na força.
Elle representa a consciencia soberba da força e da industria, e os
grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos
elementos: elle tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o
Mediterraneo, os grandes desvairamentos da agua, os ventos immensos,
os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente
apparecidos, os nevoeiros perfidos, os magnetismos, as electricidades,
toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se
preparam:--cordagens, velames, mastreações, complicações e resistencias
de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que
transforma as hostilidades em auxilios; elle, o _Miautonomah_,
contenta-se com uma taboa rasa.
Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um
formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o
arsenal reluzente das abordagens; a elle basta-lhe uma muralha de ferro.
O vento é temido: nas vastas solidões azues, elle é o lobo sinistro
que anda rodando e uivando, á caça dos navios; elle acalenta o mar,
massa inerte e salgada: elle faz com a agua estranhas nupcias ferozes;
extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens,
persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares
do Norte, quando elle sopra, as estrellas têm maior tremor: mas o
grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violencia, com a
força, e defende-se com o esvaecimento.
O _Miautonomah_ é assim: ataca serenamente, com violencias enormes, com
fulminações tragicas, e defende-se com a impassibilidade e quasi com o
esvaecimento.
Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas
flammejantes, entre os terriveis fulgores do fogo, e os phantasmas do
fumo, e as effervescencias da agua--elle passa, solta a sua fulminação
enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio,
impassivel, mudo, tenebroso, coberto de ferro.
Elle não receia o mar: os outros navios erguem amuradas immensas para
conter o encrespamento da onda: forram-n'as de cobre, erriçam-n'as
de pregaria. O _Miautonomah_ não: elle julga a demencia do mar um
prejuizo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da agua:
satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericordia dá-lhe
hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a
triturar, a roer--dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro
enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado,
mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas,
agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:--Lá anda o mar a
varrer e a lavar o tombadilho.--E com effeito, o velho oceano dos
diluvios faz, humildemente, o serviço dos ultimos grumetes.
Em cima, na superficie da agua, ha o vento, as espumas, os nevoeiros,
as chuvas, as trombas; elle, aborrecido, afasta-se d'este bando
miseravel e vae investigar o fundo das aguas, as vegetações
phantasticas, a região dos coraes, as cavernas enceladicas as purezas
infinitas da transparencia, todo esse mundo submarino de que os velhos
mareantes fallavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de
ferro, enorme, elle brutalisa aquellas virgindades do mar: em baixo, a
tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e
desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio
com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem,
cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a
Biblia--serenos.
Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a
amontoação confusa de calabres e de lonas--o tombadilho aberto é cheio
de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das
conchas, das espumas, das aves do mar.
Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitarios,
com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da
materia. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos
aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flammejantes que
dão a vida aos machinismos--vermelhas como corações sobrenaturaes: o
ar é descido por machinas de respiração, pulmões terriveis: e um vento
geral, fecundo, benefico, escorre constantemente por todo o negro
bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores
pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo,
aquelle navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas.
Ora sobre aquelle negro navio, sobre os machinismos frios, aquellas
forças pavorosas, aquellas fogueiras terriveis, no convez, entre as
negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo,
esvoaçando na sua gaiola--canta um canario.
Tal é o _Miautonomah_, navio de guerra da America do Norte.
Nós entrevemos a America como uma officina sombria, sonora e
resplandecente, perdida ao longe nos mares.
Entrevemol-a assim: movimentos immensos de capital; adoração exclusiva
e unica do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de
meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico;
atmosphera pesada de positivismos estereis; uma febre quasi dolorosa
do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças:
extremo despreso pelos territorios; preoccupação exclusiva do util
e do economico; doutrinas de uma philosophia e uma moral egoista e
mercantil: todo o pensamento repassado d'essa influencia: uma fria
liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação
terrivel da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas,
colonisações, exportações collossaes, forças extremas; accumulação
immensa de industrias, esquadras terriveis, uma estranha derramação de
jornaes, de pamphletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e
por fim um profundo tedio pelo vasio que deixa na alma a adoração do
deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação
entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma
bella costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos,
com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as
fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa,
fecunda, eleita, desapparecendo entre as industrias, os fumos das
fabricas, as construcções, os machinismos,--como a herva d'uma campina
fertil que desapparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões.
A vida da America do Norte é quasi um paroxismo.
Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme,
superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro?
Todos os dias dizem á Europa:--Olhae para os Estados Unidos, lá está o
ideal liberal, democratico, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal
economico.
Mas a America consagra a doutrina egoista de Monroe, pela qual uma
nacionalidade se encolhe na sua geographia e na sua vitalidade, longe
das outras patrias; esquece as suas antigas tradicções democraticas
e as ideias geraes para se perder no movimento das industrias e das
mercancias; allia-se com a Russia. A raça saxonia vae desconhecendo os
grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoismos
politicos e nas preoccupações mercantis, scisma conquistas e extensões
de territorios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento
positivo e egoista, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas,
que fumegam negramente.
Uma das inferioridades da America é a falta de sciencias philosophicas,
de sciencias historicas e de sciencias sociaes.
A nação que não tem sabios, grandes criticos, analysadores,
philosophos, reconstruidores, asperos buscadores do ideal, não póde
pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral.
Emquanto a superioridade foi d'aquelles que batalhavam, que lançavam
grandes massas de cavallarias, que appareciam reluzentes entre as
metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a
superioridade foi d'aquelles que pensavam, que descobriam systemas,
civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a
geologia, a astronomia, a philosophia, o Oriente caíu, miseravel e
rasteiro.
Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas sciencias historicas.
Inferioridade! As sciencias historicas são a base fecunda das sciencias
sociaes.
É a superioridade da Europa: sob a mesma apparencia de febre industrial
ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova
humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça.
O nosso mundo europeu tambem é uma extranha amontoação de contrastes
e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas
as efflorescencias fecundas e todas as velhas podridões: politicas
superficiaes e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres
consciencias e a tyrannia dos velhos ritos: diplomacias pacificas e
transigentes, e um espirito de guerra surdo, acceso e flammejante:
territorios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e
pela philosophia dos conquistadores e dos heroes: restos de influencias
monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionario;
humanitarismo fundido com o mais aspero egoismo; um chaos horrivel
de contradicçoes, e em cima, triumphal e soberba, a industria, entre
as musicas dos metaes, as architecturas das Bolsas, reluzente,
scintillante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho
eterno--que são fortunas, imperios, festas, empresas collossaes.
Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre,
move-se em germen um novo mundo, o mundo da justiça social e economica.
Este germen é que a America não tem, creio eu.
Porque toda a America economica se explica por esta formula: feudalismo
industrial.
Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas,
de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza
amontoa-se em proveito da alta finança--com detrimento das pequenas
industrias.
Logo que na ordem economica não haja um balanço exacto de forças, de
producção, de salarios, de trabalhos, de beneficios, de impostos,
haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao
mesmo tempo uma democracia de proletarios que emmagrece, definha, e
dissipa-se nas miserias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam
estas terriveis desuniformidades.
Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o
trabalho pela repugnancia que excita, pela absorpção completa de toda
a vitalidade physica, pela aniquilação e quebrantamento da seiva
material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção--por
isso mesmo, sobreexcita o espirito, estende os ideaes, abre grandes
vasios na alma, complica as necessidades, torna insupportavel a
pobreza: nas grandes democracias industriaes onde as posições são
obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha
mil motores--a ambição, a inveja, a esperança, o desejo--o cerebro
aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o _querer
chegar_ torna-se uma verdadeira doença d'alma: exageram-se os meios: e
toda a seiva moral se altera e se deforma.
É o que vae acontecendo na America; debaixo da frieza apparente,
move-se todo um inundo terrivel de desejos, de desesperanças, de
vontades violentas, de aspirações nevralgicas.
Depois, como no meio das industrias ruidosas e absorvedoras muitas
amarguras ficam por adoçar, muitas angustias por serenar, muitas fomes
por matar, muitas ignorancias por alumiar, tudo isso se ergue terrivel
no meio da febre da vida social, e torna-a mais perigosa. Londres dá
hoje o aspecto d'esta lucta.
De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o
desejo das riquezas, aferventa o cerebro, sobreexcita a sensibilidade:
a população cresce, a concorrencia é aspera, as necessidades
descomedidas, infinitas as complicações economicas, e ahi está sempre
entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a lucta dos
interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades, e por fim
as revoluções politicas.
E todavia a liberdade da America parece tão confiada, tão assente, tão
satisfeita!
No emtanto ha muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda ha pouco
deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos,
a sua industria, o seu egoismo, o seu profundo interesse, e arma
exercitos, esquadras, dissipa milhões, e vae bater-se por uma ideia,
por uma abstracção, por um principio, pela justiça.
O Sul queria manter a escravatura; o escravo que trabalhe, que cultive,
que produza, que sue, que morra sob a força metallica, baça e sinistra
do clima e do sol. Pois bem. O Norte quer a liberdade, o amor das
raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo
direito! E dispersa os exercitos da Virginia.
Taes coisas me lembraram ha dias, ao visitar o _Miautonomah_, fundeado
no nosso Tejo.