Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas,
que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e
a sua nudez era doce e melodiosa.
Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande
Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos,
as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias;
serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.
Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e
envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da
frescura das plantas.
Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades
de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma
apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens.
E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e
avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que
vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam,
junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como
aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!
Esta historia é de ha seiscentos annos--e de hontem á noite...