XIII

Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas,

que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e

a sua nudez era doce e melodiosa.

Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande

Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos,

as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias;

serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.

Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e

envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da

frescura das plantas.

Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades

de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma

apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens.

E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e

avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que

vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam,

junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como

aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!

Esta historia é de ha seiscentos annos--e de hontem á noite...

Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis. · 第 27 / 87 题