Na residencia do abbade Marcos Rebello, em S. Gens de Calvos, havia uma
sala com alcova e janellas sobre uma horta arborisada. As pereiras,
macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de abril.
Alli, n'aquellas frigidas alturas, sopram as ventanias mordentes de
Barroso, do Gerez, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das
crystallisações glaciaes. Fazia frio. Na saleta caiada, muito
excrementicia de moscaria, com tecto de castanho esfumaçado e o
pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereaes, no
outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios,
esfarpeladas no assento; nas paredes duas lytographias--o retrato de D.
João VI com o olho velhaco e o beiço belfo, e o marquez de Pombal
sentado com o decreto da expulsão dos jesuitas, apontando
parlapatonamente para a barra onde alvejam pannos de navios que levam os
expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada de escarros seccos de
antigas catarrhaes, destacavam molduras de carvalho com dois paineis a
oleo cheios de grêtas, S. Jeronymo no deserto, com uma cara afflicta,
de tic doloroso, e Santo Antonio de Padua, n'um sadio _en bon point_, um
bom sorriso ingenuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma
bola que os agiologos diziam ser o globo terraqueo. No centro da quadra
estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de
chita vermelha, com araras, franjada de requifes de lã variegada. Ao
lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria
amarella com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com
brazas e uma cesta de vêrga cheia de carvão. Entre as duas pequenas
janellas de rotulas interiores e cachorros de pedra, trabalhava
estrondosamente um relogio de parede com os frisos do mostrador sem
vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres
brancos muito inchados e as azas abertas.
Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova que ringiu ligeiramente na
couceira desengonçada, e sahiu um sujeito de mediana estatura, hombros
largos, barba toda com raras cans, olhos brilhantes, pallido-trigueiro,
um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta annos.
Sentou-se á brazeira e preparou um cigarro, vagarosamente, que accendeu
na aresta chammejante de uma braza. Com o cigarro ao canto dos labios e
um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças,
e poz fóra a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a
mão com desagrado e fechou a janella. Vinha subindo a escada de
communicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa,
meias azues de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar,
fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou:
--Vossa magestade passou bem?
--Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.
--Estimo muito, real senhor. O snr. abbade foi chamado ás oito horas
para confessar uma fregueza que está a morrer d'uma queda, e deixou
dito que puzesse o almoço a vossa magestade, se elle não chegasse ás
nove e meia.
--Quando quizer, Senhorinha, quando quizer, visto que o abbade deu essas
ordens e quem manda aqui é elle.
Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua
magestade farejava com as narinas anhelantes, n'um forte appetite. A
creada voltou com toalha, guardanapo, loiça da India, talheres de
prata, e uma travessa coberta. Sua magestade, muito familiar, tirou de
sobre a mesa uns cadernos escriptos, cosidos com sêda escarlate, e um
grande tinteiro de chumbo com pennas de pato.
--Ora vossa magestade a incommodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso, real
senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a...
E o real senhor:
--Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer
homem.
--Credo! faz muita differença ... mesmo muita...
Ella descobriu a travessa a rir-se:
--Vossa magestade diz que gosta...
--Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a
dizer--comei-me.
E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra.
Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava
muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que
no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão
branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos
sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha
de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O
terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto,
porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a
cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre
o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede
um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do
Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos--capellão-mór
d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães.
A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia
particularmente ao abbade:--Este senhor, pelo que come, parece que tem
passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha
n'aquelle bandulho!--e dizia que lhe dava vontade de chorar,
lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade
contava que lêra no _Deus o quer_, do visconde de Arlincourt, que o
snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para
almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade
aquillo--que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a
fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos
sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que
elle rejeitara.
Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S.
magestade barrava-as de manteiga nacional,--preferia a manteiga do seu
paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé
do porco nas tripas tambem portuguezas--tudo do seu paiz. Que rei, que
patriota!--meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra,
esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça.
No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de
contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na
cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de
fumo que se espiralavam até ao tecto.
A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho:
--Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles.
--O...?
--Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde....
--Que suba.
O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito
realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva.
A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:--Ó coisa! Mal
diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles!
E a outra, benzendo-se:--Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja
você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros,
e por signal que nunca m'os pagou!
--Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o
que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem!
Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho
d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está
conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no
domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul.
--E que rico panno!
--Pois vês-ahi...
Entrava n'esta conjunctura o abbade, esfadigado, suarento--que levasse o
diabo a freguezia, que pouco tempo havia de aturar maçadas d'aquellas,
para confessar uma bebeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira
da Povoa e cahira d'um valado abaixo. E elle?--perguntava--almoçou bem?
--Ora! não ha que perguntar, senhor! Aquillo, salvo seja, é como a cal
d'uma azenha. É quanto lhe deitarem p'rá tripa. Coisa assim! Subiu
agora p'ra lá o Nunes. Ai! já me esquecia, ó snr. abbade! Olhe que na
villa já perguntaram se cá na casa estavam hospedes, porque vinham
p'ra cá muitas comida. Que não vão elles pegar a desconfiar... Esta
pergunta á moça traz agua no bico.
--E tu que respondeste, moça?
--Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de
confesso...
--Andaste bem.
Quando o padre Marcos Rebello subia á sala, pedindo licença a meio da
escada, já o rei e o visconde vinham sahindo da alcôva--um, aprumado
na attitude da magestade, o outro, na do respeito, muito composto.
--Pede licença na sua casa, dom Prior?--disse el-rei.
O dom prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano
apressou-se a erguel-o.
Nada de etiquetas, já lh'o disse duzias de vezes.
--Não posso nem devo proceder d'outra maneira, senhor!
--Póde e deve que o mando eu.
E o abbade, inclinando-se com os brados em cruz sobre a batina:
--Saberá vossa magestade que o snr. capitão-mór de Santa Martha, a
quem vossa real magestade fez barão de Bouro...
--Bem sei ... aquelle amavel cavalheiro...
--Perfeito cavalheiro--attestou o Nunes.
--Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de vossa
magestade.
El-rei leu alto:
_Amigo Dom Prior de Guimarães.--Um realista do concelho de Famalicão
chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e
velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como
portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e
tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que
o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso
entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e
senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util,
já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S.
M. F., queira transmittir-m'as_...
--Estou-me recordando--dizia o principe pausando as suas
reminiscencias--_Cerveira Lobo_ ... _tenente-coronel de dragões_... O
Cerveira, o meu amigo Cerveira...
--Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os
liberaes com a cavallaria e mais o coronel de dragões, o
Albuquerque--lembrou o Nunes, o visconde Nunes--V. magestade lembra-se?
--Perfeitamente. Dom prior, queira escrever ao barão e dizer-lhe que
espero anciosamente a carta do meu amigo Cerveira.
Emquanto o abbade ia ao seu quarto escrever, o hospede disse ao ouvido
do outro:
--Isto corre mal...
--Porque?!
--Se o homem cá vem, o meu _grande amigo_...
--Recebel-o como o teu _grande amigo_...
--Se me falla em particularidades ...
--Elle não sabe fallar em particularidades. É uma besta, muito rico, e
disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está sempre
bebedo. Nem elle cá vem, tu verás ... Eu até acho que as coisas
correm perfeitamente.--Ouviam-se os passos do abbade.--Tem dinheiro,
elle tem muito dinheiro, ouviste?
Entrou o abbade.
--Só duas palavras. E leu: _S. Magestade recebe com muito prazer a
carta do snr. tenente-coronel Cerveira Lobo_.
--Muito bem,--approvou el-rei.--Hoje á noite, com todos os resguardos
que urgem as cautelas.
--Um homem, o Caneta de Braga, o chapelleiro com uma carta--annunciou
Senhorinha--só a entrega em mão propria ao snr. abbade.
--Que entrasse.
O rei e o visconde metteram-se á alcova, simulando receios.
Era uma carta do abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a
honra de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas,
de Braga, offereciam de joelhos a S. M. F. e diziam que todos os seus
haveres estavam as ordens d'el-rei seu senhor.
E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de sêda
escarlate. E o Caneta muito pontual.
--Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo snr. abbade.
--Venha d'ahi que eu passo-lhe o recibo.
Os dois sahiram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Elles tinham
ouvido fallar em recibo. O visconde Nunes, esgaziando os olhos, foi
apalpar o embrulho, e muito baixinho:
--Arame! peza que tem diabo! é oiro! Começa a pingadeira! Vês?
O outro arregalou os olhos e deitou a lingua de fóra quanto lhe foi
possivel. Nem parecia um rei!