INTRODUCÇÃO

Entre as diversas molestias significativas da minha velhice, o amor aos

livros antigos--a mais dispendiosa--leva-me o dinheiro que me sobra da

botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de

pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me

illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cerebro em

uma caturrice academica.

Constou-me aqui ha dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo

de livros velhos entre duas pipas na adéga, e que as pipas, em vez de

malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina

_missaes_ todos os livros grandes; aos pequenos chama _cartilhas_.

Mandei perguntar á snr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os

livros. Não só m'os deixou vêr, mas até m'os deu todos--que

escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de bibliomano. Elles,

gordurosos, humidos, empoeirados, pareciam-me seductores como ao leitor

delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de

cold-cream, pulverisada de bismutho.

Havia sermonarios latinos, um _Marco Marullo_, tres rhetoricas, muitas

theologias moraes, um _Euclides_, commentarios de versões litteraes de

Tito Livio e Virgilio. Deixei tudo na benemerita podridão, tirante uma

versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro

_Entendimento literal e constrviçam portugueza de todas as obras de

Horacio, por industria de Francisco da Costa_, impresso em 1639.

Disse-me a dadivosa viuva de Villalva que os livros estavam na adéga,

havia mais de trinta annos, desde que seu cunhado, que estudava para

padre, morrêra ethico; que o seu homem--Deus lhe falle n'alma--mandára

calear o quarto onde o estudante acabára, e atirou para as lojas tudo o

que era do defunto--trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto

seccamente do extincto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão

fagueira o ventre gravido de uma gata malteza que lhe resbunava no

regaço, passando-lhe pela cara a cauda em attritos d'uma flacidez de

arminho. E eu que dedico aos bichos um affecto nostalgico, uma

sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus

saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho

com uma meiguice antiga--a das meninas da minha mocidade que piscavam.

Onde isto vai!

A snr.ª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento,

offereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se

chamava _Velhaca_--ajuntou com a satisfação de quem completa um

esclarecimento interessante. Agradeci o por vindouro filho da _Velhaca_,

fiz uma caricia no dorso crespo da mãe, que m'a recebeu familiarmente,

e sahi com os livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que

a snr.ª Joaquina, com um riso sceptico, indisciplinado, me disse serem

do tempo dos Affonsinhos.--Porque o seu sogro, accrescentou, era um asno

ás direitas que comprava a bula para poder comer carne em dia de jejum;

e, sem que eu a provocasse a vomitar heresias, disse que os padres

vendiam a bula e compravam a carne; e, ajuntando á heresia um anexim de

limpeza muito duvidosa, disse o que quer que fosse a respeito dos

peccados que entram pela bocca.

Depois informaram-me que esta viuva, bastante estragada no moral e ainda

mais no physico, andára de amores illicitos com um escrivão do juiz de

paz, o Barroso, um dos 7:500 do Mindello, que lêra o _Bom senso_ do

cura João Meslier, e a saturára de má philosophia, e tambem a

esbulhára de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza--a

Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e

contentes para os mysterios da eternidade.

Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as paginas dos dous livros,

preparado para o dissabor de encontral-os mutilados, defeituosos, com

folhas de menos, comidas pelas ratazanas collaboradoras roazes do

gallicismo na ruina da boa linguagem quinhentista. Folheei o

_Entendimento literal e constrviçam_ até paginas 154, e aqui achei um

quarto de papel almaço amarellecido, com umas linhas de lettra

esbranquiçada, mas legivel e regularmente escripta. O contheudo do

papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:

_José, teu irmão, quando eu hoje sahia da Igreja, onde fui pedir a

Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a

pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar.

Agora o que peço a Deus é que me leve tambem. Se não morrer,

endoudeço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao

pé de ti._

Martha.

Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para

interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem

n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me

logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr

dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume,

está escripto o nome do possuidor--_José Dias de Villalva_, e a carta

é dirigida a um _José_. Conclui ser o cunhado da viuva quem recebêra

a carta.

Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um

anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o

seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando

morreu.--Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria

da Fonte.

--Pois elle amou a Maria da Fonte?--perguntei com ardente curiosidade

historica, para esclarecer a minha patria com um episodio romanesco das

suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu:

--Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os

da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos

escrivães, sabe vm.^cê?--Acho que foi então ou por perto. E

ajuntou:--Elle gostava ahi muito d'uma moça, isso é verdade. Era a

Martha...

--Martha?--disse eu com a satisfação de vêr confirmada a assignatura

do bilhete.

Vm.^cê conhece-a?

--Não conheço.

--É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem

quinze quintas entre grandes e pequenas.

--Bem sei; mas nunca vi essa mulher.

--Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada

ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota,

salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma

pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico

d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho.

Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do

Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de

borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem.

Interrompi com interesse de artista:

--Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu

cunhado?

--Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu

cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que

Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses

casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu

tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos

estudos e sabe todas essas trapalhadas.--E n'um tom de noticia

festival:--Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim

que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?

--Faça-me o favor de lhe não cortar nada.

Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á

nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson,

escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem

orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora!

Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo

Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com

elle uma indagação de curiosidades sentimentaes.

Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que

tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve

mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração

mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous

annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado.

Prégou alguns annos com applauso dos entendidos e inutilidade dos

peccadores. A rhetorica é a arte de fallar bem; mas os vicios são a

arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga.

Como prégava gratuitamente, o vigario de Caldellas era chamado por

todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os

panegyricos dos santos mais ou menos hypotheticos, pediam-lhe que

prégasse da cura milagrosa d'umas maleitas ou d'um leicenço--casos que

a pobre Natureza e o periodico chamado _Esculapio_ só de per si não

poderiam explicar.

O vigario subia ao pulpito e improvisava coisas de grande engenho em

linguagem muito singela. Affirmava que Deus era tão bom, tão

previdente, que dera á condição enfermiça do homem forças vitaes,

sobrecellentes que resistiam á destruição; e que a Natureza, grande

milagre do seu Creador, só de per si era bastante para a si mesma se

restaurar. Ora, um abbade rico, bacharel em theologia, que lhe ouvira

estas idéas assaz naturalistas, perguntou-lhe, á puridade, se elle

negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos

leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois,

accrescentou:--Deus fez o supremo milagre da sciencia para centuplicar

as forças á natureza enfraquecida.--O theologo enrugou

scientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:--O snr. reitor

foi ferido da peste do seculo. Está iscado de Voltaire e de Alexandre

Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor.--O

reitor de Caldellas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o

pulpito.

Estas informações e o aspecto lhano, harmonico do padre, animaram-me a

dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns

esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que

pertencera ao seu condiscipulo José Dias de Villalva. Recorda-se?

perguntei.

--Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me

que ainda sinto n'este braço o peso enorme da sua face morta, e já lá

vão trinta e cinco annos. É preciso ter na alma dolorosas

reminiscencias para se recordar um amigo morto ha tantissimo tempo, não

lhe parece? Como sabe v. que existiu esse obscuro filho de um lavrador?

Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assignatura, gesticulou

affirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas

recordações, disse:

--Fui eu que puz esta carta entre as paginas de um livro do Dias. O meu

pobre condiscipulo, quando este papel lhe foi mandado á cama, já não

o podia lêr. Tinha cahido no torpor, na indifferença que, a meu vêr,

é a compaixão da Providencia pelos que morrem amando e não querendo

morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como elle

nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente.

Era um commento de Horacio que eu lia nos seus intervallos de modorra,

afim de dar ao meu animo uma folga que me fortalecesse para resistir ao

golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Martha

está no caso de merecer a consagração romantica que Bernardin de

Saint-Pierre usurpou ás dôres verdadeiras, para coroar d'uma eterna

aureola a sua phantastica Virginia.

--Não vou tão longe, respondi com a modestia genial dos escriptores

que immortalisam. A brazileira de Prazins não póde contar com o seu

immortalisador em mim, nem me parece bastante fecundo o assumpto. Sei

que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e

a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não ha mais do

que isto...

O cura interrompeu:--Vejo que sabe quem é Martha; mas não a conhece

bem. Virginia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem

de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permitte que se abram

intercadencias de luz no espirito para que a saudade rebrilhe na

escuridão da demencia, é incomparavelmente mais funesto que o amor

fulminante. O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias

depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novellas, á custa de lh'as

ouvir analysar com um enthusiasmo digno de melhor emprego, achei-me

envolvido na litteratura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de

fazer presente do meu santo Affonso Maria de Ligorio e da minha

Theologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me prophetisou

que minha irmã havia de morrer doudas a scismar nas patacuadas das

novellas. Ella não morreu douda; mas pensava em romancear a historia de

Martha, porque dizia ella que, tendo lido trezentos volumes de novellas,

não encontrára caso imitante.--E, dando-me o bilhete de Martha: Este

quarto de papel é o exordio de uma agonia original.

Como a exposição do reitor sahiu muito enfeitada de joias

sentimentaes--detestavel especie archeologica que ninguem tolera,--farei

quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores

de modo que as scenas dramaticas se exponham aridas, bravias como sêrro

de montanha por onde lavrou incendio, sem deixar bonina, sequer folhinha

de giesta em que a aurora imperle uma lagrima. A Aurora a chorar! de que

tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra n'uma idéa a sua

certidão de idade e uma reliquia testemunhal da idade de pedra! Oh! os

bigodes tingem-se; mas as phrases--madeixas do espirito--são

refractarias ao rejuvenescimento dos vernizes.

I

Martha era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um

irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no

espaço de vinte annos, lhe mandara tres moedas, com os seguintes

encargos: á mãe 6$000 réis fortes, ás almas do Purgatorio, de

Negrellos, 3$000 réis tambem fortes, que lh'os promettera quando

embarcou, e o resto para elle--«5$400 réis, dizia, é que o maroto,

podre de rico, me mandou em vinte annos!»

A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte,

e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro,

mestre de obras, muito endinheirado e já maduro, appareceu o José

Dias, filho d'um lavrador rico de Villalva, a namoriscal-a. Este rapaz

estudava latim para clerigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e

amarello, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem

puxar pelas memorias. Os padres do Minho, n'aquelle tempo, não puxavam

quasi nada pelas memorias; ordenavam-se tão alheios ás faculdades da

alma que, sem memoria nem entendimento, e ás vezes sem vontade, eram

soffriveis sacerdotes, davam poucas syllabadas no Missal e liam os

psalmos do Breviario com uma grande incerteza do que queria dizer o

penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão facil a ordenação--uma

coisa que se fazia com uma perna ás costas, diziam certos vigarios--sem

precisão absoluta de puxar pelas memorias, o Joaquim Dias quiz tirar o

filho do _latim_ que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr.

Roque. Este padre-mestre tinha uma irmã paralytica; sabia lêr, e

prendas de costura, marcava, fizera um pavão de missanga, não

desconhecia o crochet e ensinava raparigas para se distrahir.

No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Villalva se affez

a reparar na Martha de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de

cabello atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarella com dois

folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito

séria com proposito de mulher e ares muito sonsos--diziam as outras,

que lhe chamavam a _songuinha_. Os outros estudantes, rapazolas

vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de borôa

nas algibeiras das vesteas de saragoça de varas, e os velhos Virgilios

ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a

Martha--chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias,

arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa,

indifferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na

barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aquelles embriões de

abbades, como a escada de pedra era ingreme e aberta do lado do

quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alumnas da paralytica,

pela maior parte raparigas entre doze e dezeseis annos, muito

musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo

exercicio dos carrêtos nas safras da lavoira.

Martha ia nos quatorze quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegára-lhe

aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha.

Queixou-se a Fr. Roque.

O egresso, resfolegando honradas coleras e pulverisações de

esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou

a Martha.

--Qual foi d'estes tratantes o que implicou comtigo, cachopa?--perguntou

o padre-mestre olhando-a por cima dos oculos, orbiculares, com as hastes

oxidadas d'um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira que

era o José de Villalva:

--Foi este?

--Esse nunca me disse nada--respondeu com a voz tremula, toda vermelha,

a rapariga.

--Foi este?

Martha não ergueu os olhos nem respondeu.

--Então, môça? qual foi dos nove? Dize lá. Tu que te queixaste é

que algum embarrou por ti.

--Eu não me queixei...--murmurou a interrogada.

Verdadeiramente ella não se queixára. Foi o Zeferino, o filho do

alferes da Lamella, o mestre pedreiro que andando a construir um

canastro na eira do padre-mestre, observára que os estudantes rentavam

á cachopa, e ageitavam-se em attitudes abrejeiradas, como de quem

espreita, quando ella subia a escada.

O denunciante ao pai de Martha foi elle, o pedreiro abastado, não

porque o espicaçassem n'essa denuncia o zelo dos bons costumes, e um

justo odio ás concupiscentes espionagens dos rapazes, mas por que

gostava, devéras, da môça. Elle passava já dos trinta e dois e era a

primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor, Fr. Roque,

averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má lingua, que

não andasse a difamar os seus discipulos, que se preparavam para o

sacerdocio--uma coisa séria. O episodio acabaria assim menos mal, se

dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdocio, mais fortes no

fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma

noute, n'um pinhal. O mestre d'obras iniciou-se pelo martyrio obscuro

n'um amor que principiava bastante mal. Elle nunca soube ao certo quem

lhe batêra, e attribuiu a sova a émulos na arte, covardes e

mysteriosos, por causa da construcção de uma egreja que elle

desdenhára, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma

tenda por motivos de architectura--um martyrio de artista. Invejas. Por

causa da Arte padecêra o seu collega Affonso Domingues, o architecto da

Batalha, e João de Castilho, o do convento de Thomar, e já tinha

padecido seu mestre, o Manoel Chasco, a quem inimigos quebraram a

cabeça na feira dos 21, por que elle, desfazendo na obra d'um collega,

dissera que o botaréo d'um cunhal estava torto.

Passado tempo, Martha sahiu prompta da mestra. Lia a cartilha do

Salamondi e o _Grito das almas_, decifrava menos mal umas sentenças

velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das ruinas de antigas

demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por

pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua

benção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe

ditava a carta, cheia de lastimas mendigas, mentirosas, historietas

velhacas de penhoras, as grandes decimas, a ferrugem das oliveiras, o

bicho da batata, o gorgulho que pegára no milho, muitas alicantinas.

--Que era a vêr se o ladrão mandava alguma coisa, dizia elle, pondo

cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.

A segunda carta, que ella escreveu já sem pauta, foi a José Dias, ao

estudante, que já não estudava por causa das memorias nocivas á sua

saude fraca, um pelém.

N'este tempo já o Zeferino da Lamella se tinha declarado com o Simeão

de Prazins, de um modo quasi original.

--Você quanto deve, ó tio Simeão?--perguntou.

--Quanto devo? Você quer pagar-me as dividas?

--Pôde ser. Você deve á Irmandade de N. Senhora de Negrellos um conto

e cem mil réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Ha-de

andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo.

--É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua--um conto e

quinhentos e pico.

--Quanto é o pico?

--Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao

mercador e um réstito da vacca amarella que comprei ao Tarracha na

feira dos 13.

--Você quer fazer um cambalacho?--tornou o pedreiro recuando o chapéu

para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos hombros.

--Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer

comprar-me o lameiro da azenha--não vendo.

--Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim.

Você está a fallar c'um home. Pago-lhe as dividas, você não fica a

dever nada, e eu caso com a sua Martha. Póde dar os bens ao outro filho

que eu não lhe quero uma de X.

--Você falla serio, ó sôr Zeferino?

--Se fallo serio?! Então você não sabe com quem é trata.

--Ora bem--entendamo'-nos--é a rapariga que você quer, a rapariga

estreme, sem dote nem escriptura?

--Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.

--A rapariga é sua.

Negociára a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarracha a

vacca amarella na feira dos 13. Eis um caso exquisito de aldeia que pela

torpeza parece acontecido n'uma cidade culta. Conversou-se este dialogo

debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem

gorgeado de passaros, com uns tons de luz esverdeada, na dôce placidez

crepuscular de uma tarde de agosto, entre dous homens de tamancos,

arremangados, com os peitos cabelludos a negrejar d'entre os peitilhos

da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na phrase.

Analogas passagens, com estylo pouco melhor, tem sido dramatisadas nas

salas, entre homens da melhor polpa e casca social--uns que mandaram

ensinar ás filhas os verbos francezes e são assignantes do _Journal

des Dames_ que marca ás meninas a balisa até onde póde chegar o

arrojo da lingua franceza e os seus mais avançados destinos. Da outra

parte, homens ricos, de figado engorgitado, fatigados, sedentos de

senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne

constellada de diamantes. É o epilogo de vinte annos de lavra dura, o

_substratum_ da compra de negras a milhares:--comprar uma branca, das

que o amor pobre e o talento esteril não podem negociar. O contracto

feito em Prazins--eis a differença--por parte do pedreiro era um

heroismo: dava o seu dinheiro por aquella mulher; daria mais depressa o

seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados

em corações civilisados, quasi desfeitos. Ora, os pedreiros que vem

d'além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem compram

assim. Fazem o dote economico, comezinho á esposa. Compram uma machina

de propagação, condicionalmente. Se, extincto o comprador, a machina,

não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O

defunto prefere que a sua viuva, adelgaçada e espiritualisada por

jejuns, lhe converse com a alma.

A brazileira de Prazins: scenas do Minho. · 第 11 / 30 题