Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso idyllio as arvores
sombrias da _Mãe d’Agua_.
Eduardo Valladares esperava com febril anciedade, como dissera, aquelle
momento que se lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas pudera
entregar ao papel as pungentes confidencias da sua alma.
Quando, nos ultimos dias de setembro, João Nicolau de Brito o chamou á
puridade para ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente fôsse
abrir matricula no Seminario, escutou o submissamente, abafando no
coração a tempestade revôlta que, n’aquelle momento, fibra a fibra lh’o
estava despedaçando.
Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde lhe ouvimos o brando
queixume que o coração amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido.
João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro anno do curso de theologia,
jubilava com o bom rumo que os seus planos tomavam hora a hora.
Esperava talvez resistencia da parte do neto e cabalmente se enganou.
Todos os dias o observava com olhos perscrutadores; via-o triste e
sombrio, mas não extranhava.
Não era elle de natural melancholico?
Estas investigações quotidianas levaram-n’o a modificar as suas
conjecturas. «O rapaz, dizia de si para si, acceita com boa disposição
a vida ecclesiastica, esperançado talvez em alliar a poesia com o
sacerdocio. E d’ahi quem sabe? Pode ser um vulto distincto em eloquencia
sagrada.»
E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se pelo destino do neto, no
intuito de o ver ainda prégador da Real Capella, no que n’esse tempo
consistia e ainda hoje consiste a maxima distincção com que podem ser
galardoados os oradores sagrados portuguezes.
Já é incentivo!
João Nicolau não curava de razoar sobre a mesquinhez ou exorbitancia do
galardão, nem cuidava de tirar a limpo que proventos e honras importava.
N’isto se assemelhava com os mil e um pretendentes que sollicitam mercês
honrosas actualmente; querem a venera seja qual fôr e custe o que custar.
Com João Nicolau acontecia exactamente o mesmo. Firme no seu designio,
declarou solemnemente á mulher e ao neto a suspensão temporaria de
visitas com o proposito de não distrahir o espirito do futuro prégador da
Real Capella. Queria-lhe parecer que esta medida de segurança attingia
dois fins egualmente appeteciveis:
_Primo_: Concentrar a attenção do novel seminarista nas materias
theologicas.
_Secundo_: Afastar cuidadosamente as distracções mundanas, que não só
prejudicariam a regularidade do estudo mas até insinuariam na alma do
neto philtros que não devem perturbar o espirito d’um sacerdote.
D. Maria d’Assumpção andava sobremodo condoída das angustias do pobre
Eduardo. Vira nascer a chamma do amor e confiava na brevidade com que
usam levantar-se e morrer labaredas em corações que desabrocham.
Era este o segredo da sua medicina. O amor passageiro dos dezeseis annos
esperava ella que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma vida nova, e
sobremodo aborrecida, em que o neto ia entrar.
O que porém não pensou aquella boa alma foi que poderia tornar-se
incendio o que se lhe afigurava chamma e que o coração dos dezeseis
annos, como o coração de todas as edades, tanto procura o sol para
aquecer-se n’uma hora de desconfôrto como para inflammar-se n’um momento
de febril anciedade.
Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio; era a paixão intensa, a
paixão que perde ou que salva.
Estão-me agora cahindo dos bicos da penna uns certos dizeres de D.
Francisco Manuel, que veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a que
o mundo chama amor, não é só uma cousa, porém muitas com um proprio
nome. Poderá bem ser, que por isto os antigos fingissem haver tantos
amores no mundo, a que davam diversos nascimentos; e tambem pode ser
venha d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois se elle fôra um só,
grande impropriedade fôra esta. Eu considero dois amores entre a gente.
O primeiro é aquelle commum affecto com que, sem mais causa que sua
propria violencia, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem por que
amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos em amar o que tratamos,
e conhecemos.»
Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes de a vêr. Em horas de
dulcissimos arroubos creara a sua phantasia uma visão aerea, formada
de perfumes e de estrellas, meio anjo meio mulher, meio do céo meio da
terra... Este era o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, o
amor do ignoto e do intangivel. Depois, um dia, por acaso, encontrara
a consubstanciação de todas essas particulas aereas, deixem-me assim
dizer, encontrára na terra a realidade dos seus sonhos queridos e
absorvera n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de que uma
organisação extremamente delicada pode dispor.
Para aquella alma ardente e sonhadora o amor não podia ter a serenidade
das estrellas n’uma noite d’estio: devia de ser violento como as
convulsões do vulcão que levanta ao céo as lavas encandescentes.
D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como todas as almas que nasceram,
dedicadas e boas, para o remanso dos affectos vulgares.
Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo da poesia posto que duramente
provado pelas amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu é que se não
enganava assim, nem se deixava cegar pela tranquillidade apparente do
filho do bacharel.
O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de poeta como de christão,
andava sobremodo inquieto com os soffrimentos d’aquella alma cujos
soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever a Sebastião Valladares com
a rude franqueza de homens que choraram juntos as lagrimas do exilio.
Escrever-lhe seria, porém, mostrar ao pae a profundidade do abysmo
em que se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o o honrado
bibliothecario por demasiadamente impiedoso e cruel.
Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que Eduardo Valladares amava, e sabia
que era coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não bastava todavia
comprehender e saber isto; era preciso mais.
Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição circumstanciada do
doente. Receava porém provocar as labaredas do incendio latente, e este
receio acobardava-o. Mas como deixaria consumir-se lentamente aquella
alma cuja pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era bom, dedicado e
nobre? O velho bibliothecario, n’essas horas de attribulada incerteza,
pedia ao Céo a luz da inspiração.