Foi este o meu primeiro romance. É pois um fructo verde, uma tentativa,
um ensaio, e mais nada.
Mas quero-lhe como a uma doce recordação do passado, que conservasse um
tenue aroma de _sachet_ antigo.
Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa de futuro? Esse futuro
que eu esperava, cheio de fé, e que já hoje é tambem passado, pode ter
produzido cousa melhor, mas eu com certeza a estimo menos do que este
romance quasi infantil.
Com que saudade o reli eu agora, sem poder reprimir um affectuoso sorriso
de desdem!
É que eu, como todos os novos, presumia-me velho quando era moço.
Parecia-me que vinha de longe, cansado de viver, muito instruido na
sciencia do mundo.
E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada de escriptor, com a cabeça
doudejante de illusões e de sonhos.
Depois... trabalhei e soffri.
Mas a felicidade que me trasbordava do coração quando escrevi este
romancesinho, nunca mais voltou.
É que a mocidade não volta.
Lisboa—1903.
I
Sebastião Valladares tinha carta de bacharel em leis pela Universidade
de Coimbra e abrira banca no Porto ao tempo de contrahir casamento com
uma senhora bracharense. E certo é que os créditos juridicos de Sebastião
Valladares estrondearam em Coimbra durante os cinco annos do seu curso de
leis.
Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada do talentoso advogado não
encontrou entre os demandistas portuenses o écho que remurmurava ainda
nos salgueiraes do Mondego. A levada dos clientes, sempre tumultuosa, não
affluira á banca do moço bacharel.
João Nicolau de Brito, proprietario em Braga, conheceu que á mediania
suada do genro pesava a educação do unico filho que tinha, e chamou á sua
companhia o neto, de dezeseis annos d’edade.
—Parece que já não estamos tão sós! dizia João Nicolau de Brito a sua
mulher D. Maria d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho de dezeseis
annos.
—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção. É sempre consoladora a
companhia d’uma pessoa da nossa familia, ainda que seja uma creança.
—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão creança como isso. Olha que tem
dezeseis annos!
—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar ao rapaz as saudades dos
paes. Ou elle de si é triste ou se resente da ausencia.
—Tens razão, accrescentava João Nicolau.
—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos com as Machados um passeio ao Bom
Jesus para o distrahirmos.
—Lembras bem.
—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O Eduardo precisa realmente d’uma
distracção qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O rapaz passa
as tardes á janella por não querer sahir. Tambem tem razão. Não conhece
ninguem!
—É isso. Não conhece ninguem—concordou João Nicolau, muito reflexivo.
E accrescentou passados momentos:
—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que o pequeno nos trouxe. Ha n’essa
carta do Sebastião um periodo que me inquieta. É aquelle em que nos diz
que o Eduardo lhe sahira com sua tendencia á poesia!...
—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, abrindo a secretária e entregando a
carta ao marido.
João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se na cadeira e
começou a lêr em voz alta:
«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não será rebelde, porque é
humilde de si. Amolda-se ás vontades de quem o dirige e parece attentar
gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe tudo o que sabia e podia. Creio
que com mais um anno d’estudos preparatorios estará habilitado para
entrar n’um curso superior. O destino de meu filho já me não pertence,
porém. Pesa me todavia que me sahisse poeta aos dezeseis annos e como
por magia! Conheci em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos e de
seu natural poeta, que por se dar do coração á leitura d’amenidades e
aborrecer de morte os alfarrabios da sciencia, teve que luctar com a
vontade da familia, que o obrigava a estudar, e com a sua natureza, que
o fazia detestar os compendios. Como, porém, não pudesse renunciar á
espontanea inclinação, e como não tinha bens de fortuna, succumbiu a uma
gravissima affecção moral, que o levou á sepultura, com grande magua de
todos os que sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. Desvaneçamos,
porém, estas suspeitas; não quero que me chamem visionario. Ahi vae,
pois, o pequeno...»
João Nicolau de Brito abanou a cabeça com um gesto solemne e descahiu a
scismar.
Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no hombro e dizendo ao mesmo
tempo:
—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir o rapaz. Iremos domingo ao
Senhor do Monte.
—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, como se houvesse despertado
d’um somno momentaneo. Ha, porém, um inconveniente n’esse passeio...
—Qual?
—A convivencia com as Machados.
—Ora!
—Ora que!? Tu parece que não sabes o que é ser novo! Eu não me refiro
á Rosa Machado. Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra doida por
versos, que ha de conversar de poesia com o rapaz, e que por fim ha de
vir a falar d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua corrente...
—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D. Maria d’Assumpção. Essas
práticas lyricas entre os dois ajustavam-se á occasião e vinham de geito.
Ainda que o lyrismo do espirito descambasse em lyrismo do coração, ainda
que a poesia se transformasse em amor, que inconvenientes poderiam vir
d’ahi? Eram verduras da mocidade, que distrahiam o rapaz e que por fim
de contas haviam de acabar no momento em que elle se aborrecesse.
—Tambem me parece... Que lá padre, dê por onde der, quero eu que elle
seja. Sahiu dado a poesias? Melhor! Será um prégador de fama.
—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas supponhamos até que o Eduardo
começava a arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico, carta
d’aqui, versos d’alli, uma semana d’ataque, outra semana d’aborrecimento,
e por fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze dias.
—Mas não falaste ahi em aborrecimento? ponderou gravemente João Nicolau
de Brito.
—Falei, respondeu com convicção a sogra de Sebastião Valladares. Mas
refiro-me ao aborrecimento que de si mesmos trarão uns amores pueris.
Depois, para curar esse aborrecimento, principia-se novo galanteio a nova
estrella, e ahi começa a chrysalida a tornar-se borboleta e a perseguir
as flores.
—Olha que as flores teem espinhos... atalhou João Nicolau de Brito
meneando a cabeça.
—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das mulheres são... os
alfinetes. Em nome do sexo, agradeço-te a amabilidade.
—Não tens que agradecer, disse João Nicolau rindo e batendo as palmas de
contente.—Sim, senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! Receba
os meus parabens. Iremos ao Bom Jesus quando quizer e mande convidar as
familias do nosso conhecimento para nos fazerem companhia esta noite.
Solemnizemos a recepção do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou
mudando de tratamento—tive hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha
somno. Tambem não sei o que fazes do piano! Já és avó, é verdade, mas a
velhice ainda não te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, e
haja ao menos musica uma noite...
—Então queres?
—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de elle ser. Ainda lhe hei de
ouvir um sermão...
—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção sahindo da sala.