_Festins dos Francezes. Cuidados de Junot, e ordens, que recebe de
Napoleão. Inconvenientes da divisão de Portugal, e estado das rendas
públicas. Guypuy em Almeida. Nova estrada militar. Licenciamento, e
desarmamento das milicias._
[Sidenote: 1808 Jan.]
[Sidenote: 1808 Jan.]
Principiou o anno novo com hum banquete dado por Junot á officialidade
Russiana, e nos prazeres, em danças, e banquetes passava muitos dias
a officialidade Franceza, em quanto longas fileiras de habitantes
desgraçados, que em outro tempo vivêrão na abundancia, regavão com
lagrimas inuteis as praças, e as ruas da infeliz Lisboa, julgando-se
muito felices, quando obtinhão alguns miseraveis restos, com que
matassem a fome, que os devorava; e em quanto o proprio Junot via
augmentar-se rápidamente a miseria pública, e contava elle mesmo no
particular com os horrores, a que devia conduzir esta crise violenta.
Os seus prazeres não deixavão de ser algumas vezes interrompidos com
bocados amargos: causava-lhos sempre a esquadra Ingleza, a qual se vio
muito reforçada, precisamente desde o tempo, em que chegou a noticia
da declaração de guerra da Russia á Gram-Bretanha; e quando o vento o
permittia, vinha ancorar na enseada de Cascaes, provocando por este
modo a raiva impotente dos seus, e nossos inimigos.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Não podia tambem disfarçar o cuidado, em que o tinha a incerteza dos
sentimentos de Napoleão a seu respeito. Não tinha recebido ainda
resposta aos primeiros officios, que lhe dirigíra de Lisboa; e a pezar
da efficacia das suas diligencias, receava sempre o resentimento do
Imperador, por lhe ter escapado a presa, que fazia hum dos primeiros
pontos do plano, que viera executar. Dissipárão-se em fim os seus
receios a este respeito a 8 de janeiro pela meia noute, em que chegou
ao seu quartel General o ajudante Bataglia, e no dia seguinte, em que
veio hum correio, ambos com despachos de Napoleão, que lhe fizerão
conhecer, que este o conservava na sua graça. O primeiro corpo do
exercito d’observação da Gironda recebeo então o titulo de exercito
de Portugal; e o que levou a alegria a todos os individuos, que o
compunhão, foi huma garrafa de vinho, e hum vestido completo por homem,
que Napoleão lhes mandou dar de gratificação. Que saudes, e que vivas
se não ouvírão ao generoso despenseiro de tantas mil garrafas!
[Sidenote: 1808 Jan.]
Então mesmo recebeo Junot huma parte das ordens, que veio a executar
em fevereiro, e de que he provavel, que espaçou o cumprimento,
principalmente pelo que respeita á contribuição de 100 milhões de
fr., por não estar decidida ainda a sorte das provincias occupadas
pelos Hespanhoes. Como havia de effeituar-se huma exacção tão violenta
sómente em tres provincias, que não contém ametade da povoação de
Portugal? E não só por esta razão era este hum negocio, que Junot
tinha tomado a peito; mas tambem pelo grande embaraço, em que se
via, querendo sustentar o exercito, e hum grandissimo número de
empregados, e satisfazer a todas as mais despezas necessarias pelas
rendas do estado, e não podendo dispôr das que tinhão a sua origem nas
provincias, que os Hespanhoes occupavão. Não era tambem hum pequeno
estimulo a ambição de querer governar o reino todo inteiro.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Deixando de receber as rendas públicas daquellas provincias, o
erario de Lisboa tambem ficava desonerado de satisfazer as dividas,
e encargos relativos ás mesmas; porém a diminuição da despeza não
correspondia á da receita, porque o assento do governo, e o grandissimo
número de tribunaes, e de empregados na capital exigião huma massa
desproporcionada á das provincias. O rendimento das alfandegas era
hum dos canaes mais rendosos da fazenda Real, e achava-se anniquilado
pela ruina do commercio, e suppressão repentina das importações, e
exportações. Todos os outros ramos tinhão soffrido toques fataes pelo
mesmo impulso da invasão Franceza, que levava a paralysia a todos os
principios da prosperidade pública.
As pertenções de Junot erão muito conformes ás intenções de seu amo;
e por isso forão por este muito bem recebidas, decidindo, que no seu
nome seria governado o reino de Portugal todo inteiro. Dado este passo,
soltou-se a maior difficuldade, que ainda se offerecia á execução das
extraordinarias scenas de destruição, e de roubo, de que reservo o
tratar para o seguinte tomo.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Subjugada a capital do reino, tranquillas as provincias, a tropa
Portugueza existente dispersada, e collocada em pontos, em que não
podia prejudicar aos oppressores da patria, mettidos alguns dos
principaes commandantes nos interesses de Junot, que não cessava de
fazer-lhes grandes promessas da parte de Napoleão, e guarnecidos de
tropas Francezas os pontos importantes de Santarem, e Abrantes com
outros mais, este General não temia as revoltas intestinas, e começava
a socegar da banda do mar. Elle tinha fortificado os pontos principaes
da costa, e principalmente a embocadura do Téjo, feito varias obras de
fortificação em Cascaes, torre de S. Julião, &c. e mandado construir
morteiros, de que achou grande falta.
Contava huma só praça forte da parte da terra nas provincias do seu
commando, que devia guarnecer com as suas tropas, e na verdade esteve
occupada pelas Portuguezas até os principios de janeiro: he a de
Almeida, huma das de primeira ordem, e a chave de Portugal pela parte
da Beira. Elle então a guarneceo effectivamente com huns 800 homens
de tropas Francezas, compostas de differentes detalhes, guarnição que
reforçou depois com hum batalhão Suisso; e nomeou para seu governador
o célebre Guypuy, homem brutal, e de baixa esfera; mas hum dos mais
valerosos guerreiros do seu bando, se o valor consiste na crueldade, e
nos roubos.
[Sidenote: 1808 Jan.]
A entrada de Guypuy em Almeida foi de hum verdadeiro cavalleiro
andante. Marchava elle acompanhado por varios gendarmes, dragões, e
outros militares, que ao todo erão huns 30 de cavallo, servindo-lhes
de guia hum Portuguez infiel, bem conhecido pelo sobrenome de Gama:
tanto que chegou á Cruz das almas, que fica a poucos passos da praça,
os mandou formar com as espadas nuas, e marchou com elles a trote;
chegados porém á frente da barreira elle lhes grita, que marchem a
grande galope. Tudo vai pelos ares sobre as pontes, e até o interior
da praça, e o campião, vendo-se dentro della, se volta para os
seus, e lhes diz muito satisfeito: _Esta he nossa, está tomada de
assalto_. Todas as disposições estavão feitas d’ante-mão, para se
lhe entregar o governo della, sem a menor opposição; e he assim que os
heróes de Jena tomárão todas as praças de Portugal.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Senhor de Almeida, Junot mandou abrir a sua nova estrada militar. (a de
Abrantes foi descontinuada, por incapaz, e substituida pela de Elvas,
em quanto esta nova se não abrio) para a passagem das suas tropas, e
transportes, que desde esta mesma praça atravessava o centro da Beira,
e do reino até Coimbra, e de Coimbra até Lisboa; estabelecendo em toda
ella brigadas, e commissões, de que tirava o duplicado interesse de ter
os póvos em respeito, e facilitar as marchas. Não servio pouco esta
nova estrada, para transportar aos paizes, que a bordão, os actos de
protecção, de que as primeiras tropas tinhão dado tão extraordinarios
exemplos pela de Abrantes; e por ella mesma passou logo a correr para
França huma parte das riquezas roubadas em Portugal.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Estas passagens de tropas, e de transportes forão hum grande recurso a
Guypuy; porque lhe servírão de pretexto, para as inauditas requisições,
a que continuadamente estava procedendo; não só dentro da praça, mas
até á cidade da Guarda, e outras povoações remotas, em viveres, roupas,
prata, &c. não pedia senão por duzias, e por grozas, por exemplo, doze
duzias de talheres, doze duzias de toalhas, até em huma occasião mandou
pedir á Guarda doze duzias de espelhos. Inquietou todos os magistrados
das visinhanças com estas requisições, e tambem roubou a prata das
igrejas, e hum consideravel número de calices dos altares ambulantes,
que havia na praça. Dizem, que os Inglezes lhe fizerão restituir huma
parte, quando entrárão em Almeida, em consequencia da convenção de
Cintra.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Não faltava a Junot, para sopear de todo a nação Portugueza, senão o
desarmamento dos póvos, objecto sobre que já tinha dado o primeiro
passo, que vimos, prohibindo o uso das armas de fogo: agora deo outro
mais decisivo, dissolvendo, e desarmando as milicias, em que consistia
a principal força do paiz, por decreto de 11 de janeiro. Mandou aos
coroneis, que fizessem ajuntar as armas em casa dos capitães, donde
serião conduzidas ao arsenal de Lisboa, as da provincia da Extremadura
até o 1.^o de fevereiro, as da Beira até 10, e as de Tras-os-montes
até 20 do mesmo; ficando responsaveis por qualquer demora os coroneis,
capitães, corregedores, e juizes de fóra.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Os Generaes Hespanhoes concebêrão tambem o projecto de desarmar os
póvos, e licenciar as milicias; porque era geral, ainda o direi huma
vez, e emanado da mesma fonte o plano, porque todos se guiavão; mas
posto que principiárão a dar as ordens, não as executárão. Para a
provincia de Tras-os-montes, não só se expedírão as de Junot, mas
tambem outras de Taranco: o General Sepulveda representou a este a
desnecessidade, e os inconvenientes, que dahi podião resultar, e
Taranco aquiesceo á sua representação. Foi Junot o que, depois de tomar
a si o governo de todo o reino, repetio ordens mais apertadas para as
provincias, que d’antes occupavão os Hespanhoes. As armas daquella
de Tras-os-montes ficárão parte em Chaves, e parte nos differentes
lugares, de que erão procedentes, não obstante o mandarem-se remetter
para o Porto. Sómente forão remettidas para esta cidade as do regimento
de milicias de Villa-Real; porque indo no caminho, quando se effeituou
a acclamação de S. A. R. em Bragança, e mandando os officiaes, que
as conduzião, perguntar ao governador do Porto Luiz de Oliveira, se
devião continuar com ellas, ou retroceder, tiverão em resposta, que
continuassem.
[Sidenote: 1808 Jan.]
Nas outras provincias fez-se o que se pôde, conforme a maior, ou menor
devoção, com que erão cumpridas as ordens do governo intruso. Fallando
em geral, he certo, que as armas dos milicianos se não podião occultar;
que porém as dos particulares ficárão pela maior parte em poder de seus
donos, a pezar das gravissimas penas combinadas a todos os que as não
entregassem nas ultimas ordens expedidas por Junot, no tempo em que os
successos da Hespanha, e mesmo os de Portugal ameaçavão já de perto a
sua segurança, e das quaes fallarei mais amplamente, quando for lugar
opportuno. Os póvos estavão com a maior prevenção contra semelhantes
determinações, e só os cobardes consentião em ser desarmados.
_Fim do Tomo I._