CAPITULO XXV.

_A divisão Loison se estende desde o cabo da Roca até S. Martinho, e

Nazareth. Extorsões deste General, de Thomiers, e de seus subalternos

por esta parte do reino, e outros successos, com que remata o anno de

1807._

[Sidenote: 1807 Dez.]

Deixo dito no lugar competente o destino, que deo Junot á divisão do

seu exercito, commandada por Loison, continuarei agora esta materia.

Tendo este General chegado a Lisboa em 4 de dezembro, a 8 já tinha o

seu quartel em Torres-vedras, onde fez ajuntar os Corregedores desta

mesma Villa, de Alemquer, Riba-Téjo, Alcobaça, e Leiria, para tratar

com elles o modo de fazer as excessivas requisições, com que forão

atormentados os póvos destas comarcas, com o pretexto da subsistencia

do exercito. Intimações severas se fizerão a estes ministros, para

fazerem executar á mão armada, se fosse preciso, todas as que lhes

fossem feitas pelo commissario de guerra Priston, declarando se

illegaes todas as que não partissem desta origem, excepto as que

fizesse o General Thomiers.[30]

[Sidenote: 1807 Dez.]

[Sidenote: 1807 Dez.]

Este General commandava huma das brigadas da divisão, e fez o seu

assento em Peniche: esteve algum tempo em Colares, onde assolou

quintas, e pomares os mais deliciosos do reino Charlot commandava a

outra, e estabeleceo o seu quartel em Torres-vedras; em quanto este

ultimo ganhava a benevolencia dos póvos pela sua humanidade, o outro

adquiria hum nome odioso pela sua crueza, e rapacidade. As requisições,

que fez Thomiers em gados, vinho, grãos, &c. forão immensas: só ao

mosteiro de Alcobaça coube dar dos seus graneis 228 moios, e seis

alqueires em trigo, milho, cevada, e legumes, e por aqui se póde

julgar do mais á proporção. Suspeitava-se, que Thomiers repartia o seu

producto com Loison, e he certo, que estes generos pela maior parte se

conduzião para Peniche, e ahi erão vendidos por preços muito diminutos,

ás vezes nos proprios sacos, em que erão levados.

A 19 de dezembro já se achavão tropas Francezas guarnecendo o porto de

S. Martinho, e o forte da Nazareth. Fizerão hum novo forte de madeira

em S. Gião, de que as despezas assim como as de outras obras nos

fortes de S. Martinho, e Nazareth, sahião da comarca, havendo toda a

presumpção de que Thomiers recebia de Lisboa o dinheiro para ellas;

e só alguns mezes depois forão tambem guarnecer a Figueira, ficando

entretanto sem defeza toda aquella costa até o Porto.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Em Alcobaça esperava achar hum Potosi; porque desde Baiona, dizia elle

mesmo, lhe não tinhão fallado, senão nas riquezas desta casa, de que

avaliava as rendas em mais de meio milhão: o seu comportamento para

com ella foi coherente com estas idéas. Instado pela devoção, que lhe

inspirava o retiro dos filhos de S. Bernardo, hum dos mais antigos,

e veneraveis de Portugal, se propôz a ir visitallo. A 27 de dezembro

foi almoçar no forte de S. Martinho com Toutan, hum dos commandantes

Francezes daquelles sitios, que para o brindar com mais hum prato,

mandou ao campo de Alfeizarão matar a tiro de espingarda huma vacca,

só para lhe aproveitar a lingua, deixando estendido o corpo; refiro

este facto, porque serve de dar a conhecer as grandezas destes homens á

custa dos Portuguezes. De S. Martinho foi pernoitar á Nazareth em casa

do Reitor, que tratando-o o melhor, que lhe foi possivel, recebeo em

recompensa mil vexações com o fim de lhe ser extorquido dinheiro; e a

28 finalmente avistou os santos muros de Alcobaça, em que de tão longe

trazia o pensamento.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Não sabião os religiosos, que este era o dia, em que havião de receber

huma tão importante visita; posto que pensavão bem, que não passarião

sem ella. Thomiers tinha tido o cuidado de occultar a sua jornada,

para os ter em suspensão, e os apanhar de surpreza. Foi chamado á

pressa o prelado, e com alguns padres o veio receber ao topo da escada:

avança o General com tão grande impeto por entre elles, que faltou

pouco para os lançar por terra, e rompe na expressão: Que se o Principe

de Portugal recebesse por aquella fórma hum General Francez, elle se

não dispensaria de o levar preso; e voltando-se para a sua comitiva,

que na maior parte era composta de Portuguezes, obrigou a todos a que

pusessem os chapéos na cabeça, reprehendendo-os de os levarem nas mãos.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Pedio hum quarto, para onde se recolheo; e seguindo-o o prelado, e mais

padres, nenhum foi recebido por espaço de 5 horas; mas o prelado foi

logo atacado por Sibron, official Portuguez de nação, e Francez pelo

comportamento, que commandava o forte da Nazareth, e servia de lingua

a Thomiers, com proposições as mais instantes, para entregar a este

General os suppostos thesouros da casa. Representou-se ao General, que

não estava bem informado; porque o mosteiro, em lugar de thesouros,

tinha grandes dividas passivas; e foi necessario levarem-se-lhe os

livros da administração das rendas, e do cofre, donde elle vio com

effeito hum alcance de mais de sessenta contos de rs. Que impressão

não devia causar esta demonstração em hum espirito como o de Thomiers,

tão penetrado da sagrada fome do ouro? O seu ar sombrio, e as exactas

pesquizas, que fez por toda a casa, até nas cavalhariças, o mostrarão

bem; mas em fim no dia 30, depois de ter dado idéas de romper estradas

dalli até Peniche, de conduções de artilheria, e do estabelecimento

de hum hospital no mosteiro, para o que mandou préviamente que se

fornecesse bem a botica, os padres o vírão partir alegre, e cortez para

com todos ficando elles ainda mais alegres com a ausencia de hum tal

hospede.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Não tardou porem huma nova embaixada ao prelado: annunciou-se-lhe, que

o hospital estabelecido na villa das Caldas hia transferir-se para o

mosteiro; mas que podia evitar-se esta mudança, mandando-se ao General

algum dinheiro, para lá ir assistindo aos doentes. Levárão-se-lhe a

Obidos por principio de colheita 200 moedas, e o bom Thomiers foi tão

sensivel a esta offerta, que em sinal do seu reconhecimento brindou

o prelado com hum presente de duas pescadas, duas arraias, e dous

enxarrocos: rasgo admiravel da generosidade Franceza dos nossos tempos,

que ainda por obsequios os mais assinalados, leva raras vezes a tal

excesso os testemunhos de gratidão.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Á sombra das azas destas harpias famintas a pilhagem se fazia geral

por toda a parte, e mesmo era authorizada, como hum direito, que

competia, dizião descaradamente os Francezes, aos conquistadores em

hum paiz, que lhes abríra as portas como a amigos, e que elles olhavão

como conquista. A licença de costumes era a mais desenfreada em todo o

genero de vicios, em toda a parte onde existião Francezes. Nem Travot

em Cascaes, nem Charlot em Torres-vedras podião evitar huma dissolução

geral, que se fizera familiar a todo o exercito, e que o General em

chéfe animava com o seu exemplo na capital do reino. Os seus repetidos

festins erão sempre acompanhados de certas danças, e liberdades, que

lhe servião muito bem para attrahir ao seu partido hum grande número de

ociosos, e libertinos; mas que erão abominados por todos os verdadeiros

Portuguezes, que se não tinhão podido resolver a trocar pelas novas

liberdades Francezas os antigos principios de educação, bebidos na

escola dos nossos maiores. Entre outros mimos, com que Junot presenteou

a nação Portugueza, elle nos deixou huma dança, que conserva o seu

nome, e que os pais, e maridos honrados não querem ver executada por

suas filhas, e mulheres.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Até o tempo, de que vou fallando, mostrava-se Junot pouco satisfeito

com a esquadra Russiana do Almirante Siniavin, e não era sem motivo;

porque além de estar consumindo perto de dez mil rações por dia, o

que se fazia muito sensivel, pelas circumstancias, em que se achava

Lisboa, era notavel o tom de independencia, em que se conservava

a officialidade Russiana, e o pouco agrado, que testemunhava aos

Francezes. Junot a suspeitou mesmo de intermediaria da esquadra

Ingleza com Lisboa. Chegou em fim a noticia da declaração de guerra do

Imperador Alexandre a S. M. Britanica, participada ao Almirante por via

do ministerio Francez; e rematárão os successos do fatal anno de 1807.

com huma noticia de tanto prazer para Junot, e todo o seu partido, a

qual extinguio as esperanças, que os Portuguezes, e huma grande parte

da Europa fundavão ainda na corte de Petersburgo.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 53 / 58 题