CAPITULO XXIV.

_Occupação das provincias do norte, e sul pelas tropas Hespanholas, e

estado, em que ficou entretanto a de Tras-os-montes. Operações mais

notaveis dos Generaes Taranco, e Solano. Novas maquinações de Napoleão;

e começão as desconfianças, e os movimentos do povo, e da corte

d’Hespanha._

[Sidenote: 1807 Dez.]

[Sidenote: 1807 Dez.]

He necessario dar agora huma succinta idéa da occupação das provincias

do norte, e sul pelas tropas Hespanholas; pois que temos principiado

a fallar das operações dos seus Generaes. A divisão Carraffa, que

tinha principiado a entrar com Junot em Portugal, separou-se delle em

Abrantes, e tomou o caminho de Thomar, onde impôz huma contribuição de

quatro mil cruzados, e depois se encaminhou lentamente para as margens

do Douro por Coimbra, onde roubou dez mil cruzados do deposito da

cidade, que se achava em S. Cruz. Esta divisão, como vimos, fazia parte

do exercito de Junot; mas este General tinha concebido já hum odio

incrivel aos Hespanhoes, posto que conservava sua predilecção a favor

de Carraffa, pelos serviços, que lhe fizera em Alcantara; e forcejava

sempre por ver-se livre delles: além disso naquella digressão vagarosa

servião de freio aos póvos d’entre Téjo e Douro, para onde Junot não

podia ainda repartir outras forças; e se Taranco se demorasse, era

necessario ir segurar a importante cidade do Porto, por onde podião

sahir grande parte dos habitantes, e das riquezas de Portugal, sendo a

segunda cidade do reino em grandeza, e opulencia, e achando-se tambem

nella a prata das igrejas do Bispado, e de Braga.

Esteve com effeito o Porto sem tropa alguma estrangeira oito, ou dez

dias depois da sahida da nossa corte; e que bella occasião, para se

pôrem a salvo tantas riquezas? Alguns bons patriotas pertenderão ainda

salvar-se, e ao mais que pudessem, no navio _Amor da patria_,

que estava prompto a dar á véla em 4 de dezembro, mas obstárão-lhe

authoridades civís, e militares daquella cidade; o capitão do navio

foi reprehendido, e ordens rigorosas embaraçárão a sahida de qualquer

outro, que a tentasse.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Quando Carraffa chegou ao Porto, já Taranco se tinha apoderado da

provincia d’Entre Douro e Minho com a sua divisão, que devendo ser de

10& homens, na fórma da convenção de Fontainebleau, foi sómente ao

principio de 6&: para preencher aquelle número se lhe unírão até 4&

homens da divisão Carraffa, augmentada successivamente em Portugal

pelas tropas vindas da Hespanha. A de Taranco, tendo-se formado na

Galliza, entrou pelo Minho seguindo a estrada de Valença, e depois

que no Porto se concentrárão tropas Hespanholas sufficientes, com o

pretexto de algumas desordens, que houverão entre soldados de huma

e outra nação, se mandárão retirar desta cidade as Portuguezas, que

já erão poucas, menos as companhias fixas de artilheiros as quaes

ficárão conservadas, e chegavão a huns duzentos homens. Com tudo a boa

harmonia se conservou sempre entre o povo Portuguez, e os Hespanhoes,

pela severa disciplina, em que Taranco continha o seu exercito, e pela

prudencia, moderação, e bom comportamento deste General, que seria de

huma memoria saudosa para os habitantes daquella provincia, se pudessem

esquecer-se de que era o General de hum usurpador, e encarregado de

executar planos de usurpação.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Pela sua proclamação, datada do Porto em 13 de dezembro recommendou

aos habitantes do Minho, e Tras-os-montes, que vivessem quietos, e

tranquillos na confiança de que o seu exercito os não incommodaria

nas suas leis, usos, e costumes; que o tratassem com a sincera

amizade, que persuadia o seu valor, e caracter humano, e acharião huma

exacta correspondencia. Continúa com declamações identicas ás que

Junot proclamára em Alcantara contra os Inglezes, e ameaças contra a

cidade, villa, ou aldêa, em que se disparasse hum tiro contra a tropa

Hespanhola; mas sendo tão sincero, como Junot foi pérfido nas suas

promessas, não teve occasião de usar do rigor.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Fazia da sua parte quanto era possivel, para adoçar a sorte daquelles

póvos, e diminuir as calamidades da invasão. Se não pôde evitar de todo

os damnos, e estragos, que sempre trazem comsigo as passagens, e os

aquartelamentos de tropas, ainda as mais disciplinadas, ao menos não

apparecêrão nas terras do seu commando as contribuições, os grandes

roubos, e as devastações, em que ardião o centro, e o sul do reino.

Não se intromettia no governo civil, deixando pacificamente aos

tribunaes, e ministros o uso da jurisdição, que tinhão em nome do nosso

legitimo Soberano. Creou sim hum novo tribunal de fazenda; mas composto

de Portuguezes, e com o fundamento de que era necessario, para prevenir

o desarranjo, em que ficárão as rendas Reaes, pela ausencia do Principe

Regente. Na verdade as circumstancias o exigião; não pela falta de

Soberano, pois esta se achava supprida pelo legitimo governo, que fazia

as suas vezes; mas porque executando-se, posto que momentaneamente, o

desmembramento do reino traçado em Fontainebleau, era necessario dar

nova fórma á administração da Real fazenda das provincias invadidas

pelos Hespanhoes; pois que a respeito dellas cessava a jurisdicção do

erario de Lisboa.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Não appareceo huma só ordem de Taranco, que désse idéa aos Portuguezes

de que tinhão mudado de Soberano, se não he a carta de 15 de dezembro,

dirigida ao Chanceller da relação do Porto, em que lhe participava as

ordens, que recebêra do Principe da Paz, para facilitar o commercio de

carnes, e outros generos de Hespanha para Portugal, _que devia já

reputar-se como huma parte do territorio Hespanhol_, separado da

Inglaterra, e sem recursos por mar.[29] Quando era precisado a fallar

nas suas ordens dirigidas a Portuguezes em sua Magestade Catholica, era

sempre com grande melindre.

[Sidenote: 1807 Dez.]

A provincia de Tras-os-montes foi ainda mais feliz, porque não conheceo

Francezes, nem Hespanhoes; o que procedeo talvez de terem discordado

Junot, e Taranco a respeito do governo della. Ambos expedião ordens

para esta provincia; mas chegavão frias, porque nenhum a occupou com

as suas tropas: apenas alguns pequenos destacamentos Hespanhoes fizerão

nella reconhecimentos em differentes occasiões, com o pretexto de

procurarem desertores.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Era governada por hum velho respeitavel, o Tenente General Manoel

Jorge Gomes de Sepulveda, a quem huma avançada idade não tinha feito,

senão augmentar os estimulos da honra, e os sentimentos de fidelidade;

que com as suas milicias, e depois com as ordenanças sómente, e com o

amor, e respeito, que lhe consagravão aquelles póvos, os soube manter

em paz, e conservar illeso o antigo solar da Casa de Bragança, sem que

nelle recebessem a menor quebra as suas Reaes armas, para ter hum dia a

gloria de ser o que lançou o primeiro fundamento ao exercito Portuguez,

que servio na restauração do reino. Estavão as armas Reaes no castello,

e as da Real Casa de Bragança na porta do Loreto, na fonte de S. Jorge,

e no poço de S. Francisco, e nenhumas se cobrírão. As religiosas de

S. Clara unicamente occultárão com huma pouca de argamassa as do seu

convento.

[Sidenote: 1807 Dez.]

A divisão do Marquez do Soccorro, D. Francisco Maria Solano, ajuntou-se

em Badajoz, tendo vindo da Andaluzia. He notavel a ordem do dia, que

este General fez publicar ao seu exercito no 1.^o de dezembro. _A

ferocidade nunca foi valor_, principiava a ordem, _he sempre huma

prova de barbaridade, e as mais das vezes de cobardia.... Quando o

Governo Portuguez nos dá provas da sua amizade, recebendo-nos no seu

territorio, seria corresponder-lhe de hum modo indigno do caracter

Hespanhol, seria faltar a todas as leis, e converter em inimigas

estas mesmas armas protectoras. A guerra tem os seus direitos, e as

suas leis; e só póde ter lugar entre os chéfes dos governos: nós os

governados não estamos authorizados a fazella, senão á voz dos chéfes;

o mais tudo he assassinio, e á justiça universal pertence o castigo

deste cobarde delicto, odioso á humanidade inteira_. Continúa

a ameaçar todos os individuos do seu exercito com hum severo, e

irremissivel castigo, se se affastassem dos seus deveres, e manchassem

o nome Hespanhol; e falla na importante commissão, de que vinha

encarregado; mas não declara a sua natureza.

Foi summamente agradavel aos Portuguezes a sensação, que lhes causou

esta peça, assim que della tiverão conhecimento, pelo contraste, que

fazia com a conducta do exercito Francez. Parecia, que Solano não tinha

em vista, senão fazer huma invectiva contra as perfidias de Junot, e

contra as barbaridades das suas tropas; e com tudo o mesmo Solano,

posto que não authorizasse os assassinios, os roubos, e as dilapidações

particulares, entrou logo a cuidar em contribuições, e em seguir as

vistas de Junot, pelo que pertencia ao plano geral de usurpação.

Obraria conforme as ordens do seu ministerio, e elle o tinha assim

annunciado; mas não era elle o mesmo ministerio, que tambem as expedia

para Taranco? O plano não era tambem commum a este?

[Sidenote: 1807 Dez.]

He necessario pois procurarmos huma razão particular da essencial

differença, que se observou na administração da provincia d’Entre

Douro e Minho, e na das provincias do Além-Téjo, e Algarve, a qual, ou

consistia no differente caracter dos dous Generaes, ou na disparidade

das ordens, de que hum, e outro erão munidos. Recordando-nos de que a

primeira era destinada simplesmente a uma compensação a favor da casa

de Toscana, e as outras devião constituir o Principado do valído de

Carlos IV., não nos admiraremos de que principiasse logo a pezar mais

sobre estas o jugo oppressivo daquelle candidato.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Apresentou-se Solano por Elvas sobre o territorio Portuguez, tendo já

mettido, na praça de Campo-maior o regimento de Cordova; e querendo

senhorear-se das praças, e fortalezas, encontrou algumas difficuldades,

de que resultou fazer huma especie de composição interina com alguns

dos commandantes Portuguezes. Passou entre salvas pelo caminho coberto

daquella cidade, mas sem entrar na praça: metteo algumas tropas nella,

e nos fortes respectivos; mas na praça ficárão servindo simultaneamente

os Portuguezes, e Hespanhoes, ficando cada huma das nações senhora

de huma das portas, e repartindo-se as mais guardas entre huns, e

outros. Pela ausencia do Marquez d’Alorna, ficou governando as armas

da provincia do Além-Téjo, e a praça d’Elvas o Brigadeiro Antonio José

de Miranda Henriques; este foi conservado no governo della em 1.^o e

introduzido em 2.^o o Hespanhol D. Vicente Maria Maturana. Conservou-se

igualmente a bandeira Portugueza; e ficárão da mesma fórma nas outras

praças os Governadores Portuguezes; e Solano, mettendo tropas em

Estremoz, veio assentar o seu quartel General em Setubal, servindo-se

de dous regimentos da divisão Carraffa, por não julgar suficiente a

sua, a qual era sómente de 5 a 6 mil homens.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Foi consultado Junot a respeito das difficuldades feitas a Solano sobre

a occupação das praças; e decidindo, que devião entregar-se-lhe,

o General Hespanhol se vio em hum momento senhor absoluto, não só

da provincia do Além-Téjo, mas tambem do reino do Algarve, e da

parte da Extremadura Portugueza, que fica ao sul do Téjo, enviando

destacamentos para huma, e outra parte, á proporção que a localidade, e

as circumstancias o pedião.

[Sidenote: 1807 Dez.]

O Augusto Nome de S. A. R. foi substituido pelo de S. M. C. e Solano

passou, não só a governar as armas destas provincias, mas a legislar

em nome do Monarca Hespanhol sobre a justiça, finanças, e todos os

mais objectos da administração pública. Servio-se na verdade dos

Governadores, e mais funccionarios públicos, que achou estabelecidos,

mas debaixo da authorização do novo governo. Como cessava a jurisdicção

da casa da Supplicação para estas provincias, creou hum Juiz maior

com superioridade a todos os outros magistrados, e nomeou para este

importante cargo a D. José Maria Sotello, este mesmo, que temos

visto seguir na Hespanha o partido dos usurpadores, e pertender com

proposições infames corromper a fidelidade dos illustres vogaes,

que compõe a Junta central. Este mesmo homem entrou da sua parte a

legislar sobre differentes pontos de economia, e de justiça, de fórma

que o General, de acordo com o Juiz maior, fizerão com as suas novas

instituições nas provincias, que dominavão, mudanças mais essenciaes

nas leis, e nos usos da nação, do que o proprio Junot em Lisboa.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Creou mais hum Superintendente, Hespanhol de nação, para a arrecadação

da Real fazenda, e ultimamente (adiantarei os successos, para deixar

concluida esta materia) formou Solano hum tribunal em Setubal,

denominado tribunal superior da paz, para conhecer das appellações, e

outros objectos, a que deo regimento em data de 24 de janeiro de 1808.

Nomeou para o compôrem hum presidente, que era o mesmo Juiz maior,

quatro deputados, escolhidos d’entre os ministros territoriaes, e hum

secretario com assento, e voto no tribunal nas materias, que não

fossem de justiça.

Poucos dias mediárão, que não visse anniquilados todos os seus

regulamentos, e destruida a imaginaria soberania daquelle, que lhe

expedia as ordens, e não tinha feito, senão roubar as possessões de hum

senhor pacifico, e tranquillo, para entregallas a hum usurpador, que o

enganára, e com o qual estava bem longe de poder medir as forças.

[Sidenote: 1807 Dez].

Assim que Napoleão conseguio da corte de Madrid, que as suas proprias

tropas o fossem ajudar na usurpação de Portugal, cuidou por meio de

hum comportamento estudado, em conservar na irresolução, e no terror o

Rei Catholico, e o Principe da Paz, o qual conheceo em fim, que a sua

authoridade declinava, e suspeitou o engano, mas já muito tarde, quando

vio, que novas tropas Francezas entravão na Hespanha. Pelo artigo VI.

da convenção de Fontainebleau devia Napoleão ajuntar em Baiona hum

segundo exercito de quarenta mil homens, para estar prompto a entrar

na Hespanha, e transferir-se a Portugal, no caso de que os Inglezes

enviassem reforços, e ameaçassem atacallo: eis aqui a aberta, que elle

tinha tido o cuidado de deixar, para introduzir á falsa fé no centro

da monarquia Hespanhola todas as tropas, que lhe fossem precisas, para

subjugalla.

Os Inglezes não mandárão reforços a Portugal, contentando-se sómente

com o bloquêo dos portos; mas não faltárão pretextos a Napoleão, para

fazer entrar o seu exercito no territorio Hespanhol, occupar as chaves

dos Pyreneos, e as margens do Ebro. Á proporção que estas tropas se

hião adiantando, e engrossando, augmentava-se a fermentação do povo, e

a desconfiança da corte d’Hespanha, de que se manifestárão symptomas

evidentes desde os fins de dezembro.

[Sidenote: 1807 Dez.]

O Principe da Paz escreveo a Junot, pedindo-lhe, que fizesse voltar

á Hespanha a divisão Carraffa, com o fundamento de que os Inglezes

ameaçavão invadir as costas da Andaluzia; mas provavelmente para se

servir destas tropas, para os projectos, que desde então traçava

a corte, e que alguns mezes depois fizerão brotar a revolução de

Aranjuez. Já se fallava de huma viagem da Familia Real d’Hespanha a

Cadix, e Junot, informado destes rumores, os participava a seu amo,

ponderando-lhe, se seria huma viagem ás suas colonias, como tinha

praticado a corte de Portugal; e sem annuir á proposta do Principe da

Paz, reteve a divisão Carraffa, para por este modo sopear a parte das

forças Hespanholas, de que podia dispôr.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 51 / 58 题