_Medidas, que tomou Junot por occasião dos successos de 13, e 14
de dezembro. Como fazia servir á sua causa a voz dos ministros da
religião. Seus projectos a respeito do exercito Portuguez, e como
procedeo á sua reducção._
[Sidenote: 1807 Dez.]
[Sidenote: 1807 Dez.]
Huma breve, mas estrepitosa proclamação aos habitantes de Lisboa,
que se imprimio, e affixou pelas ruas desta cidade, foi o remate dos
successos de 13, e 14 de dezembro. Nella promettia huma vingança
terrivel, por esta, que chamava rebellião, de ousarem atirar ás suas
tropas. _Eu os conheço_, dizia elle dos pertendidos chefes da
insurreição, _elles pagaráõ com a sua cabeça o insulto, que se
atrevêrão fazer contra a bandeira Franceza_: como podia conhecellos,
se elles não existião? Passa depois a decretar: Que todo o ajuntamento,
de qualquer natureza que fosse, ficava prohibido: Que todo o individuo,
que se encontrasse armado em hum ajuntamento, seria conduzido a
huma commissão creada por decreto da mesma data, (14 de dezembro) e
condemnado a 3 mezes de prisão, não se tendo servido das armas, e á
morte, tendo-se servido dellas: Que todo o individuo preso em hum
ajuntamento, e convencido de ser cabeça do motim, soffreria a pena de
morte.
[Sidenote: 1807 Dez.]
A execução não correspondeo por esta vez ás ameaças. Ficárão nas cadéas
alguns presos dos que se apanhárão naquelles tumultos, e mesmo com
armas; mas forão-se soltando, sem que a nenhum delles se impuzesse
pena grave; e foi esta huma outra consequencia do respeito, que
Junot guardava á numerosa povoação de Lisboa, temendo espantalla, e
revoltalla com procedimentos fortes daquelles, que tantas vezes se
repetírão nas outras terras, que lhe não merecião esta contemplação.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Foi visivel o medo, que lhe resultou destes successos, concorrendo
muito para isso a esquadra Ingleza, da qual receava sempre, que tomasse
parte nas perturbações de Lisboa, auxiliando os seus habitantes.
Sabendo, que no dia 15 dous Inglezes tinhão sido trazidos a ella em hum
barco de pescadores, não se poupou a diligencias, para os descobrir,
mas forão baldadas. Mandou multiplicar, e reforçar as patrulhas,
sendo-lhe necessario mandar vir para este fim algumas tropas das que
guarnecião as fortalezas. Fez espalhar hum grande número de espiões,
e vigiava por meio de huma inquisição severa sobre toda a qualidade
de ajuntamentos; sendo sempre o corpo da policia o que o auxiliava
em todas estas manobras, pela efficacia, com que o servia o ingrato
Novion. Cuidou igualmente em tirar sem perda de tempo de dentro de
Lisboa as outras tropas Portuguezas, que ahi se achavão.
O dia 17 de dezembro foi especialmente marcado pelo grande número de
tropas Francezas, que rondavão as ruas desta capital, e hum dia de luto
para os Portuguezes, que vião substituidas por este apparato hostil as
salvas, e outras demonstrações de alegria pública, com que nos mais
annos se celebrava o anniversario da Soberana; e se recordavão com
saudade de todas as delicias daquella paz inalteravel, de que tinhão
gozado á sombra da serenissima casa de Bragança, tão horrivelmente
contrastadas com o estado presente.
[Sidenote: 1807 Dez.]
A noute do natal, que costumava sempre ser de hum extraordinario
concurso de gente pelas ruas, e igrejas, foi neste anno de hum
tristissimo silencio, tendo havido o cuidado de se prohibirem o canto
da psalmodia, e a celebração das mais funções do costume nessa noute, e
o toque dos sinos depois das ave-marias em todos os tempos do anno, por
ordens do Cardeal Patriarca.[28] Não só os ajuntamentos, mas tambem os
toques de sino fazião estremecer o coração de hum General, tão timido,
quando encarava o perigo, como atrevido, quando se julgava em perfeita
segurança.
[Sidenote: 1807 Dez.]
He assim, que se abusava da grande mola da religião, para insultar
a mesma religião, e das authoridades Portuguezas, para se segurar o
grilhão, que se tinha lançado aos Portuguezes! O cunho da escravidão
via-se impresso por todas as partes. Bem conhecia Junot (e seu amo o
teria instruido nestas maximas) o imperio, que tem sobre os póvos, que
professão o catholicismo, a voz do clero, e especialmente a dos seus
pastores, e por isso em todo o tempo da sua intrusa dominação tratou
de a fazer servir aos seus fins, extorquindo dos prelados por destreza,
ou violencia, ordens, e pastoraes, que imprimião huma mágoa, e huma
indignação profunda no espirito daquelles verdadeiros Portuguezes, a
que os ferros não tinhão tirado o senso, e a liberdade de pensar, que
porém não deixavão de impôr a hum grande número de entes fracos, aos
quaes se conformava a obediencia passiva aos oppressores, que, se os
não libertava dos incommodos, e da vergonha do cativeiro, ao menos os
dispensava dos perigos de huma resistencia heroica.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Ao terceiro dia, depois da chegada de Junot a Lisboa, tinhão baixado
por ordem do mesmo Cardeal Patriarca circulares aos parocos, para
prégarem aos seus freguezes a paz, e concordia, em que devião
conservar-se com os Francezes, fazendo-o assim participar aos
prégadores, e confessores, para que nas cadeiras, e nos confessionarios
propagassem estes mesmos principios. He assim, que as cadeiras da
verdade, e os tribunaes da penitencia se fazião servir a mais injusta
das causas!
Foi ainda mais sensivel a pastoral daquelle prelado de 8 de dezembro,
que a 10 appareceo fixada pelas portas dos templos da capital, e
successivamente o foi pelas das igrejas paroquiaes do patriarcado, na
qual com expressões as mais energicas se recommendava a obediencia aos
usurpadores, engrandecendo com mil elogios a bondade de Napoleão, e do
seu cruel delegado. He deste modo que a primeira personagem da igreja
Lusitana, e huma das primeiras, pela sua representação entre os grandes
de Portugal, servia aos oppressores da religião, e do estado. Demos lhe
a desculpa de que era hum velho decrepito, cuja cabeça já propendia
para o tumulo. O manhoso Junot, para extorquir delle esta pastoral,
abusou da fraqueza de tão provectos annos; visitava-o, mandava-lhe
recados obrigadores, e punha em pratica todas as maneiras de huma
lisonja seductora.
[Sidenote: 1807 Dez.]
O Inquisidor geral, Bispo titular do Algarve, sahio tambem com a sua
pastoral de 22 de dezembro, semelhante em tudo á do Cardeal Patriarca,
referindo-se a esta, citando-a, e seguindo-a tão literalmente, que he
claro, que a tomou por modelo. Huma, e outra tem sido impressas mais de
huma vez, e impressas correm em varias collecções. Alguns outros dos
Bispos, e mais Prelados do reino seguírão o mesmo exemplo, com mais, ou
menos energia, segundo o seu modo de pensar, ou mais depressa, segundo
o maior, ou menor valor, de que erão dotados.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Conheço, que a resistencia naquella época seria provavelmente, não só
inutil, mas fatal aos Portuguezes; e não chamarei traição, ou perfidia
o que sómente foi fraqueza; mas em taes circumstancias não era melhor,
que os pastores da igreja guardassem o silencio? Posso eu considerar
conforme ás maximas do evangelho o engrandecer os tyrannos com
louvores, prégar subordinação aos destruidores do altar, usurpadores
do throno, e devastadores da nação? Poderei eu já mais olhar, como
huma virtude, o pertender suffocar os esforços heroicos de hum grande
povo, se elle os fizesse, para sacudir os ferros, e restituir-se ao
legitimo governo do seu Soberano? A tyrannia forcejará sem dúvida, para
consagrar huma semelhante doutrina, que seria o mais firme apoio do seu
poder; mas a justiça, e a humanidade reclamaráõ sempre contra ella, e
convidaráõ os homens áquelles esforços sublimes, tanto mais heroicos,
quanto mais arriscados, sem os quaes huma nação, huma vez encadeada, já
mais conseguiria os meios de recobrar a sua independencia.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Devo accrescentar para satisfação dos bons Portuguezes, e reivindicação
da honra do clero Lusitano, que a pusillanimidade de hum pequeno número
dos seus pastores, que não ousárão imitar tantos exemplos de valor,
e de constancia, que nos deixárão os padres venerandos da igreja
primitiva, e que o seu pastor supremo nos está dando no momento, em
que escrevo, foi bem depressa assás purgada pelas acções brilhantes
de civismo, de intrepidez, e valor marcial, com que todo este corpo
respeitavel correo ás armas, e se assinalou gloriosamente na época
da nossa restauração, desde o primeiro momento, em que soou a voz da
independencia nacional.
A reducção do exercito Portuguez não podia deixar de ser hum dos
objectos principaes, em que Junot trazia as vistas; e sabe-se, que elle
concebeo logo o projecto de o reduzir, por meio de baixas, e reformas,
á força correspondente ao seu plano, que era o seguinte.
Devião formar-se tres legiões, a primeira, e principal, denominada a
legião do Téjo, devia ser composta de hum regimento de infanteria de
linha, dous batalhões cada hum de nove companhias, cada huma das quaes
seria composta das seguintes praças.
1 Capitão em 1.^o
1 Capitão em 2.^o
1 Tenente
1 Segundo Tenente
1 Sargento maior
1 Furriel
4 Sargentos
2 Tambores
8 Caporaes
60 Soldados
--
80
A 9.^a companhia de cada batalhão devia ser o deposito do mesmo; e
por esta razão o 1.^o capitão desta companhia seria o commandante
do deposito; o 2.^o capitão o do vestuario. Ella teria dous
primeiros tenentes, e dous 2.^{os}, hum dos primeiros tenentes seria
quartel-mestre, e hum dos segundos tenentes official pagador.
Em cada regimento haveria hum ajudante-maior, e hum coronel, e dous
tenentes-coroneis. Em cada batalhão hum ajudante-maior, e hum ajudante
official inferior; e em fim a mesma organização de estado-maior, que no
exercito Francez.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Teria mais a legião do Téjo hum batalhão de infanteria ligeira, com a
mesma organização que o batalhão de linha, tendo hum commandante em
1.^o e hum em 2.^o que faria as funcções de major, e ajuntar-se-lhe-hia
hum batalhão de artilheria de 500 homens, organizado em 6 companhias, e
hum regimento de tropas ligeiras de 6 esquadrões, de 96 homens cada hum.
A segunda legião, chamada a legião do Douro, seria composta sómente
de hum batalhão de linha, hum batalhão de infanteria ligeira, quatro
companhias de artilheria, e quatro esquadrões de cavallaria.
[Sidenote: 1807 Dez.]
A terceira legião, chamada a legião dos Algarves, seria da mesma
força da precedente. Do restante da cavallaria devia Junot tirar os
cavallos necessarios para a remonta do seu exercito, e mandar os mais
para os exercitos Francezes da Hespanha. Era a sua tenção, que fossem
remettidas para França as duas legiões do Douro, e dos Algarves, que
erão as dos paizes occupados pelos Hespanhoes; e queria conservar
comsigo a do Téjo, e distribuilla pelas divisões do seu exercito. Nesta
reducção não entrava o corpo da policia, que se conservaria sempre em
Lisboa, com a denominação de regimento das guardas de Lisboa.
Ou a execução deste plano dependesse de novas ordens de Napoleão, ou
fossem outros os motivos, Junot a tinha demorada, e parece que os
successos de 13, e 14 de dezembro forão os que o despertarão, para
tratar em primeiro lugar da reducção. Adiante veremos, que Napoleão o
que quiz foi apanhar em França as tropas Portuguezas, sem se embaraçar
com planos de organização.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Commetteo pois Junot esta diligencia ao Marquez d’Alorna por decreto de
22 de dezembro; e na mesma data o nomeou Inspector geral, e commandante
das tropas Portuguezas das provincias de Tras-os-montes, Beira, e
Extremadura. Mandárão-se dar baixas a todos os officiaes inferiores, e
soldados, que tivessem mais de oito annos, e despedir os que tivessem
menos de seis mezes de serviço: com a differença que os despedidos por
terem menos de seis mezes deixarião nos depositos dos seus regimentos
as barretinas, fardas, armas, e capotes; e os que tinhão mais de
oito annos só deixarião armas, e capotes, podendo levar as fardas.
Impunha-se-lhes a obrigação de residirem nas suas provincias, o que já
lhes dava idéa de que poderião hum dia ser outra vez chamados.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Junot governava sómente as tres provincias de Tras-os-montes, Beira,
e Extremadura; mas entendia-se com os Generaes Hespanhoes Taranco, e
Solano, que governavão as outras; porque todos se dirigião por hum
plano commum, e por isso a reducção das tropas se decretou, e executou
em todo o reino. Tanto a ordem de Taranco, como a de Solano a este
te respeito, são de 31 de dezembro: a de Taranco he quasi identica á
de Junot, a de Solano differe em pontos essenciaes; porque limita as
baixas aos soldados casados, e aos que tivessem preenchido o tempo
legal, e as pedissem; deixando porém reservado ao seu arbitrio o
conceder baixas, ou licenças a todos os que as pedissem com causas
attendiveis. Comprehende além disso o licenciamento absoluto das
milicias das provincias do seu commando. Taranco encarregou a reducção
da tropa a Damião Pereira da Silva, coronel do regimento de infanteria
Portugueza N. 9, Solano ao General Gomes Freire d’Andrade.