CAPITULO XXI.

_Teme-se a fome em Lisboa. A bandeira Franceza he arvorada no

castello de S. Jorge; fermentação do povo, e suas consequencias._

[Sidenote: 1807 Dez.]

Ao sentimento das calamidades presentes ajuntavão-se as idéas de hum

futuro espantoso. Os viveres, e especialmente o pão, escasseavão

diariamente em Lisboa, e calculava-se, que antes de dous, ou tres mezes

haveria huma falta absoluta deste ultimo genero, de que nenhum povo da

terra faz maior uso, que o de Portugal. Que seria então de huma cidade,

como Lisboa, povoada de duzentos, e cincoenta mil habitantes?

[Sidenote: 1807 Dez.]

Tanto se receou esta falta, que ainda antes de entrarem os Francezes

em Portugal, tinha sido prohibida por hum edital do senado a factura

de todo o genero de bolos, e biscoitos.[25] Esperava-se, como

consequencia necessaria do bloquêo do Téjo; e Junot tanto foi com estas

ideas, que para prevenir a subsistencia do seu exercito, mandou vir

trigo d’Hespanha, e fez tambem diligencias, para virem algumas carnes.

Taranco solicitou iguaes providencias a favor da provincia d’Entre

Douro e Minho.

Tantos, e tão justos motivos erão bem capazes de irritar qualquer outra

nação, quanto mais a Portugueza, conhecida por espirituosa em todos os

tempos, e sempre impaciente do jugo estrangeiro; era porém necessario

curvar na presença das baionetas, e da metralha de hum inimigo, que

se apoderára pérfidamente da cidade, e fortalezas, em quanto fraco, e

inerme, e que hia estendendo ousadamente os braços, á medida que se

vigorava, e augmentava em forças.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Junot conservava sempre a Lisboa o respeito, que he devido a huma

cidade tão populosa; de fórma que depois de tantos, e tão decisivos

actos de usurpação, deixava ainda tremular a bandeira Portugueza

sobre o castello de S. Jorge. A parte pensadora dos seus habitantes

não se deixava illudir com esta apparencia; mas o grande número ainda

conservava esperanças, até que em fim chegou tambem o seu desengano.

[Sidenote: 1807 Dez.]

A 13 de dezembro pelas 9, ou 10 horas da manhã entrárão a desfilar

tropas para o rocio; e reunida alli huma boa parte do exercito Francez,

apparece junto ao meio-dia em grande pompa o General em chéfe,

rodeado do estado maior, e de huma numerosa officialidade. Huma salva

geral desperta então os olhos, e a attenção de muitos milhares de

espectadores, que por curiosidade tinhão concurrido, e vê-se arvorada

no castello a bandeira de tres cores, e supprimidas as Reaes quinas:

ficárão conhecendo até os incredulos, que a nação Portugueza tinha

cahido em poder das aguias. Seguio-se huma falla breve, e altisonante

do General em chéfe aos bravos da Gironda, agradecendo-lhes em nome

de Napoleão, e no seu, a constancia, com que tinhão soffrido os

trabalhos, e as fadigas da sua penosa marcha, para virem salvar a mais

bella cidade da oppressão, e da desordem, (não havia oppressão, nem

desordem, em quanto elles as não trouxerão) e terem finalmente a gloria

de verem arvorada no seu porto a bandeira Franceza. Rematou com tres

_vivas_ ao Imperador Napoleão, a que o exercito respondeo com

outros tantos.

[Sidenote: 1807 Dez.]

O povo Portuguez não respondeo senão com hum triste susurro, assás

demonstrativo da raiva, e indignação, que agitavão todos os espiritos,

lendo naquella bandeira funesta a confirmação da desgraça pública,

e as novas calamidades, que esperavão a nação. O Marquez d’Alorna,

atravessando a praça, recebeo muitos vivas dos Portuguezes, que tinhão

nelle fitos os olhos, como em hum dos seus principaes Generaes, que

no caso de huma revolução podia servir-lhes de cabeça, ou de ponto de

reunião: ignoro, se nesse tempo elle merecia ainda este conceito.

Tudo annunciava huma grande fermentação; mas tudo se tranquillizou em

poucos momentos; porque não houve hum homem assás resoluto, que fizesse

hum sinal de rompimento, e provavelmente nem Junot, nem o seu exercito

conhecêrão por então o perigo, que corrião; mais entregues á sua

gloria, ou para melhor dizer, á sua vaidade, contemplando já o Téjo tão

domado, como o Sena, do que attentos em observar o aspecto melancolico,

e os surdos movimentos de hum grande povo, que os cercava.

[Sidenote: 1807 Dez.]

[Sidenote: 1807 Dez.]

Hum novo insulto estava preparado á nação, representada em huma grande

parte da nobreza de Lisboa, e no proprio corpo do governo, que Junot

convidára para hum festim, com que queria celebrar este grande triunfo;

exceptuando porém, d’entre as personagens, que compunhão este corpo

respeitavel, o Desembargador do paço João Antonio Salter de Mendonça.

Não sei, se houverão outros motivos particulares para esta excepção;

mas offerecem-se alguns tão obvios, que he impossivel desconhecellos,

ainda que se queira olhar com indifferença para este successo.

Além das grandes virtudes moraes, de que he dotado este Ministro

respeitavel, o seu espirito se illustra com huma vasta erudição,

e hum conhecimento profundo das leis, e dos usos da nação, a que

tem sempre mostrado o maior apego. He por estas qualidades, e pelo

seu conhecido patriotismo, que o seu nome se tem feito célebre, e

estimavel na carreira da magistratura, e que S. A. R. tendo-lhe dado

testemunhos manifestos de hum particular agrado, o elevou ao primeiro

tribunal do reino, e ao emprego de procurador da Regia coroa, hum dos

mais importantes da vida togada, e o destinou, para encher na sua

ausencia o lugar, em que ElRei D. Sebastião tinha collocado em iguaes

circumstancias o célebre Miguel de Moura, hum dos homens de maior

merecimento da sua idade.[26] Estas qualidades, e estes empregos não

podião ser indifferentes ao General em chéfe de hum exercito, que vinha

usurpar Portugal.

Bem quereria elle dar huma semelhante exclusiva, não só deste convite,

mas até da sua presença ao corpo do governo todo inteiro; pois o

aborrecia, e olhava com desprezo; mas não convinha ás suas vistas, nem

tão pouco ao esplendor do seu triunfo.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Era no fim da tarde, tinha-se já comido muito, e as taças do bom vinho

levavão a alegria a todos os cerebros, que a podião receber em dia

tão infausto, quando chega huma _parte_, seguida bem depressa de

varias outras, que põe tudo em silencio. Conheceo-se inquietação no

General em chéfe, que não tardou em manifestar aos seus convidados,

que o povo de Lisboa se tinha amotinado, fazendo conhecer ao mesmo

tempo aos chéfes do governo Portuguez, que elles lhe servirião de

garante pelos transportes, a que o mesmo povo se pudesse entregar. E he

para isto que os tinha convidado!

[Sidenote: 1807 Dez.]

Depois de disperso o ajuntamento da praça do rocio, tinha-se conservado

pelas ruas principaes da cidade hum concurso de gente maior, que o

ordinario; o que procedia sem dúvida da expectação, em que ficára

o público com os successos da manhã, mas sem plano, ou concerto

algum determinado. Não se fez isto reparavel, por ser domingo, dia

consagrado ao ocio, devendo-o ser a outros fins; e não se prevenírão

consequencias, que se não cogitárão. No terreiro do paço, onde se

achava hum maior número de individuos, alguns do baixo povo provocárão

com gracejos a varios soldados Francezes, que passavão montados em

cavallos estropiados, e cobertos de mataduras, que levavão a beber:

os Francezes quizerão corresponder com insultos mais pezados, e

travárão pendencia. Chega entretanto hum soldado Portuguez do corpo da

policia, e querendo metter-se de permeio, he prezo pelos Francezes, e

conduzido ao corpo da guarda principal do mesmo terreiro, que já nesse

tempo era occupada por estes. O povo quer tirar o prezo das mãos dos

conductores, e não o conseguindo, se apresenta ousadamente diante da

guarda, reclamando-o com vigor, e augmentando-se o tumulto, investe

com páos, e pedras: hum official he ferido, e está a pontos a guarda

de ser desarmada. Varias patrulhas Portuguezas do corpo da policia o

prevenírão, e aplacárão por hum pouco o tumulto, de fórma que Junot, e

os seus convidados tiverão tempo de acabar o seu jantar, e passarem á

opera do theatro de S. Carlos. Alli representou este General em huma

nova farça, fazendo estender do seu camarote sobre a platéa a bandeira

Franceza por entre vivas, dados sómente por Francezes, e recebidos

tão friamente pelos Portuguezes, que muitos sahírão do theatro com

indignação, abandonando aquelle triste espectaculo aos escravos da

tyrannia.

[Sidenote: 1807 Dez.]

No mesmo tempo, em que tudo era frieza no theatro de S. Carlos,

ardião em fogo as principaes ruas de Lisboa. Tinha-se augmentado

consideravelmente o ajuntamento popular no terreiro do paço, e

não podendo ser contido pelas patrulhas, rompeo pela rua aurea,

communicou-se rápidamente pelas outras visinhas, e lavrou pela maior

parte da cidade. Homens, mulheres, rapazes, tudo gritava pelas ruas, e

praças: _Viva Portugal, vivão as cinco chagas, e morra a França_.

Forão então necessarias providencias mais energicas, corrêrão tropas de

todas as partes, puzerão-se em acção algumas peças de campanha, para as

quaes se forão buscar munições ao arsenal da fundição, e fez-se fogo de

mosquetaria sobre o povo; de que resultou hum pequeno número de mortos,

sendo provavelmente as sombras da noute, apenas diminuidas com os

furtivos raios da lua, os que evitárão a maior effusão de sangue, que

era de esperar das muitas descargas, que se ouvírão por mais de 3 horas

em differentes lugares da cidade; de fórma que sómente ás 9 da noute se

conseguio extinguir o tumulto. Concorrêrão tambem muito para este fim

as guardas da policia, que erão as que tomárão a parte principal nesta

acção, como mais proprias para socegar o povo, por isso mesmo que erão

de Portuguezes, e que desejando poupar o sangue dos seus compatriotas,

atiravão sómente para o ar.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Na manhã seguinte appareceo muito reforçada a guarda do terreiro do

paço, e este guarnecido de hum forte destacamento de infanteria,

cavallaria, e algumas peças de artilheria: numerosas patrulhas

rondavão tambem as ruas, e a porta do General em chéfe foi igualmente

fortificada com duas peças. Estas medidas, em lugar de desarmarem, e

conterem o povo, o irritárão mais. Hum paisano avança a hum soldado

Francez na praça do rocio, e o lança por terra com huma grande

pancada: hum outro investe com hum arrojo inaudito a hum official da

guarda do terreiro do paço, e cahe morto de hum tiro: estes os sinaes

de hum novo rompimento, que ainda perturbou a tranquillidade da capital

por algumas horas; mas ao meio-dia tudo estava em socego, tendo havido

mais huma, ou duas victimas do furor Francez.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Acabado o tumulto, eu vi montes de gentes pelas ruas áquella mesma hora

do meio-dia, apontando para o ceo, e mostrando huma luzente estrella,

que dizião ver com certos sinaes, que erão, no seu conceito, os da

vingança celeste contra os Francezes. O povo não achou armas, nem

pontos de apoio, e he por isso, que a estrella deixou de ser mortifera.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Sanguinosa noute, e sanguinoso dia serião estes, se aos inesperados, e

imprevistos movimentos do povo se tivessem ajuntado, ou alguma tropa

Portugueza, ou algum chéfe habil, que servisse de guia, e de ponto de

reunião a multidões desarmadas, e sem cabeça; porque por huma parte

era este o momento, em que existião concentradas em Lisboa mais forças

Francezas, do que em alguma época, e por outra os espiritos populares

estavão tão dispostos para a insurreição, que esta não podia deixar de

fazer-se universal, e encarniçada. Alguns corpos de tropa Portugueza,

que ainda existião na capital, enfurecêrão-se, e he provavel que não

deixarião de fazer causa commua com o povo, se não houvesse a precaução

de lhes embaraçarem a sahida dos seus quarteis. A legião estava da

parte de Almada, e constou, que chegára a huma tal fermentação, que

houve d’entre ella quem andasse procurando barcos, para a mesma se

transportar áquem do Téjo.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Porque razão obrou de diverso modo o corpo da policia? Teria elle

abraçado o partido da França contra o seu Soberano, e a sua nação? Do

contrario deo bastantes provas este corpo valeroso, e estimavel na

feliz restauração do reino; mas era governado pelo seu chéfe o Conde

de Novion, a quem obedecia cégamente, pela severa disciplina, em que

elle o tinha creado; e Novion, esquecido de que o Principe Regente lhe

déra a mão, salvando-lhe a vida, quando os Francezes lha querião tirar,

e enchendo-o de honras, e de fortuna, quando, reduzido á miseravel

condição de hum simples emigrado, lhe faltava até hum bocado de pão,

para matar a fome, se havia tornado hum Francez tão legitimo, que

merecêra a Junot o fazello commandante d’armas de Lisboa, e hum dos

principaes executores das suas iniquas ordens. Elle acompanhou depois

este General, quando foi obrigado a evacuar este reino. Perdemos hum

excellente official de policia; mas hum dos homens mais ingratos, e

infiéis, que vio Portugal.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 45 / 58 题