CAPITULO XVIII.

_Primeiras operações politicas, e militares de Junot em Lisboa.

Herman he introduzido no governo, e no erario. Retrato deste homem.

Usurpação dos bens da coroa, e dos patrimoniaes da casa Real da ribeira

das náos, e mais arsenaes. Sequestro das propriedades, e manufacturas

Inglezas. Principia o desarmamento da nação. Conducta dos Governadores

do reino._

[Sidenote: 1807 Nov.]

[Sidenote: 1807 Nov.]

A inconsideração, e a facilidade de escrever tem sido levadas a hum

ponto tal, que houve quem fizesse imprimir, que quando chegou Junot,

os Governadores do reino o estavão esperando nas lojas da casa do

Barão de Quintella. Não descerei ao baixo officio de lisongeiro; mas

não deixarei passar falsidades tão notorias, em prejuizo do decoro

de personagens tão respeitaveis, como aquellas, de quem o Principe

Regente confiou a administração dos seus reinos. Nenhum dos membros do

governo foi esperar Junot nas salas, quanto mais nas lojas daquella

casa: se algum o foi esperar ao caminho, ou se encontrou com elle no de

Belém, o que não deve admirar, porque o caminho de Belém he o mesmo da

Ajuda, onde então se congregavão[15] com a assiduidade, que exigião as

circumstancias, não foi revestido de caracter público, nem authorizado

pelo corpo do governo, e toda a civilidade decente, que praticasse em

comprimentallo, nada tinha de reprehensivel, pois que elle entrava como

o General de huma nação alliada.

[Sidenote: 1807 Nov.]

A verdade he, que tratando os Governadores do reino entre si do modo,

porque o devião comprimentar, assentárão, que primeiro o fossem

procurar cada hum de per si, e só passados dous, ou tres dias he que

o forão visitar em corpo. Junot não figurava ainda, senão de General

de hum exercito auxiliar, e os Governadores do reino representavão a

pessoa do Soberano; mas nem quando o procurárão separados, nem quando

juntos em corpo, lhes deo assento: tal era a grosseria, e a altivez do

seu caracter! Estas erão as suas qualidades naturaes; tudo o que dellas

se affastava era affectado, e filho da sua astuta politica. Quando o

proprio governo era assim tratado, que podião esperar os tribunaes, e

as outras corporações do reino, e os particulares de todas as ordens?

[Sidenote: 1807 Nov.]

Aproveito esta occasião para dizer de passagem, que o Desembargo

do Paço, este antigo, e venerando tribunal, que em outro tempo era

presidido pelos Soberanos em pessoa, e que até o dia de hoje tem

conservado sem contradicção a primazia entre todos os outros, foi algum

tempo depois insultado por aquelle General, até por via do seu porteiro

com recados, e expressões tão grosseiras, que se os costumes hodiernos

os permittem aos Generaes da França, em Portugal são intoleraveis

na boca de hum simples particular bem nascido. Querendo abolir o

Almirantado não usou de mais formalidades, que o mandar fechar as

portas da casa deste tribunal, sacudindo os officiaes, e empregados das

suas mezas, bem como em outro tempo o célebre Cromwel sacudira dos seus

assentos os membros do Parlamento Inglez. Mas voltemos sobre os nossos

passos, sem nos entranharmos muito em factos, que tem huma data mais

recente.

[Sidenote: 1807 Dez.]

No 1.^o de dezembro, e seguintes continuárão a entrar em Lisboa

tropas Francezas, o que deo lugar a Junot para mandar immediatamente

hum batalhão a guarnecer a importante fortaleza de Cascaes, e se ir

apoderando tambem das que ficão no interior do porto, e das principaes

guardas da cidade, sendo as primeiras as dos arsenaes Reaes. Na da

fundição commandava hum simples official inferior, o qual teve o valor

de não querer render-se ao official Francez, que com a sua gente o hia

substituir, sem que se lhe apresentasse ordem do General Portuguez,

que era nesse tempo o Marquez de Vagos. Dizem, que huma semelhante

contestação experimentárão os Francezes na guarda principal do terreiro

do Paço; mas he certo que em nenhuma encontrárão huma resistencia

formal.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Foi logo no mesmo dia que Junot procedeo á primeira, e mais importante

das suas operações politicas, sem a qual todas as mais lhe serião

inuteis, a de introduzir Herman na corporação do governo, com o titulo

de commissario do governo Francez. Este commissario apresentou-se com

o decreto da sua nomeação[16] aos Governadores do reino congregados

em conselho para entrar no exercicio da sua commissão: temeo-se, que

quizesse arrogar a presidencia, ou o primeiro lugar; mas a prudencia, e

dexteridade, de que se usou, foi causa de que elle se contentasse com

hum dos assentos inferiores, que achou vago.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Eu quizera neste lugar instruir perfeitamente os meus leitores sobre

o caracter, e conducta de Herman, por ser hum dos individuos, que

mais figurárão na usurpação do reino, sem gastar tempo em indagações

sobre o que tinhão sido em França este, e os mais empregados civis,

e militares, pois só me importa o que vierão ser em Portugal; mas

como poderei descrever hum homem, que nem pela fysionomia cheguei a

conhecer? Arriscarei mui breves palavras, pelo que póde colligir-se

das suas acções públicas. A commissão, de que Herman viera encarregado

no tempo da embaixada de Lannes, já era bastante para o fazer odioso;

a outra, de que ultimamente o incumbíra Junot, e de que ha pouco dei

huma idéa, o faz abominavel aos bons Portuguezes. Tinha espirito, e

sendo muito timido por natureza, era ao mesmo tempo facilissimo em

irar-se; mas sabia adoçar os effeitos do seu genio, por meio de certos

agrados naturaes, e de hum comportamento estudado. Fez-se célebre

pela sua astucia, e manhas diplomaticas, qualidades, pelas quaes

mereceo a Napoleão o escolhello, e aggregallo a Junot, para vir ser em

Portugal o seu inspirador, e o seu braço direito, pelo que pertencia

ás operações do governo interno: he por isso que Junot teve sempre

tantas contemplações para com este homem, que ainda depois de muito

descontente do seu comportamento, se atrevia apenas a queixar-se delle.

Sabia viver, e debaixo de huma inculcada isenção não foi dos que menos

souberão promover os seus interesses.

A este retrato de Herman pede a imparcialidade, que eu accrescente,

que elle com o tempo chegou a mostrar algum interesse pela nação

Portugueza, e displicencia pelo systema depredador dos seus

compatriotas. Forão estes os motivos, porque veio a incorrer na

indignação dos Generaes Francezes, sem exceptuar o proprio Junot, e

sobre tudo na de Lagarde.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Assistia Herman a todas as deliberações do governo, e ainda que

sem voto nas mesmas, exercitava sobre ellas huma grande authoridade

indirecta, semelhante á dos tribunos da plebe entre os Romanos; porque

quando lhe desagradavão, não se esquecia de lembrar aos Governadores do

reino, que erão contrarias ás idéas do General em chéfe, e que nas mãos

deste estava o poder da força: bem se vê pelas circumstancias do tempo,

que isto era hum _veto_ formal. Servia além disso de mensageiro

das ordens directas, ou indirectas, que Junot queria expedir ao corpo

do governo.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Poucos dias depois o mesmo Herman foi introduzido no governo do erario

Regio, com o titulo de administrador geral das finanças.[17] Mas não he

isto o mais extraordinario. Hum facto, que nunca deverá esquecer, he o

ter-se introduzido igualmente hum Berthelot, com o titulo de recebedor

geral das contribuições, e rendas de Portugal, por nomeação do proprio

Imperador dos Francezes, datada de Fontainebleau a 17 de novembro

precedente, e que esta nomeação se apresentasse, e registasse sem pejo,

nem rebuço, nas contadorias respectivas, para ficar perpetuado mais

este monumento do pouco respeito, que se tinha á decencia, e á justiça,

apar daquella proclamação datada de Alcantara hum dia depois da mesma;

proclamação, na qual Junot annunciava aos póvos, que vinha com o seu

exercito auxiliar-nos contra os Inglezes de acordo com o Principe

Regente; e apar tambem das solemnes promessas de protecção, e amizade

na outra aos habitantes de Lisboa.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Vírão-se então no governo de Portugal as contradicções mais singulares,

que tem visto o mundo. No palacio da Inquisição, que faz huma das

frentes da grande praça do Rocio no centro de Lisboa, se congregavão

os legitimos Governadores do reino, e davão ainda as leis em nome do

verdadeiro Soberano: passada sómente huma rua, que desemboca na mesma

praça, já reinava Napoleão sobre o tribunal do erario.

As ordens, que se passavão por esta repartição, forão desde este

momento concebidas na fórma seguinte: _Em nome do imperador dos

Francezes, Rei d’Italia, e por nomeação, e ordem de S. Excellencia o

Governador de París, primeiro Ajudante de campo do dito senhor, General

em chéfe, &c. Francisco Antonio Herman, commissario Francez junto ao

conselho da regencia, e administrador geral das finanças. Faço saber,

ou mando, &c_.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Os arsenaes de terra, e os depositos d’armas tinhão já cahido em poder

dos Francezes. Não tardou em seguir a mesma ordem o arsenal Real da

marinha, que era hum dos primeiros objectos, em que os Francezes

fixavão os olhos. Junot não esperou mais, que a chegada do capitão

de _vaisseau_ (corresponde a mar e guerra) Magendie, para o pôr

á frente desta repartição,[18] e se apoderar de todos os objectos a

ella pertencentes. Era a mania do tempo fazer proclamações: Magendie

sahio tambem com a sua no estylo Napoleonico aos officiaes do porto,

mestres, e contra-mestres de todo o gráo, carpinteiros, calafates, &c.

prégando-lhes subordinação, assiduidade, e actividade, promettendo

grandes premios ao zelo, e talentos, castigos á desobediencia, e falta

de serviço, e que elles se alegrarião com a nova ordem de cousas, que

hia nascer.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Os bens da coroa, e os patrimoniaes da casa Real tinhão hum direito

muito particular a gozarem da protecção do exercito Francez. Em

primeiro lugar, assim que Junot entrou em Lisboa, apropriou-se para si,

e para a sua grande officialidade, e empregados, dos cavallos, arreios,

carruagens, e outros mais objectos. Não sei, como fizerão a partilha,

he de presumir, que o General em chéfe ficasse de melhor quinhão;

e elle era visto nas funções públicas ostentar huma magnificencia,

e hum luxo extraordinario com o trem da casa. Loison foi a Mafra

mandar fazer camisas dos lançoes de finissima cambraia, que servião

nas camas das Pessoas Reaes; ricas peças de bordado, e de tisso forão

queimadas, para se lhes aproveitar o ouro; riquissimos trastes,

muito ouro, e muita prata, que se não pôde embarcar na esquadra,

cahírão em poder destas aves da rapina, principalmente em Mafra, e em

Quéluz, onde os palacios Reaes estavão magnificamente adornados, e

providos, principalmente a casa chamada de mantieria, onde existião

roupas preciosas, serviços de meza, trastes de prata, e a mobilia

correspondente.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Ao mesmo tempo, em que se procedia a esta primeira operação, fazia-se

tambem hum inventario do que existia nos mesmos palacios Reaes, e dos

mais bens da coroa, e se pôz tudo em sequestro. E ainda se dava a voz

do Soberano sequestrado! Este mesmo procedimento se praticava com as

casas dos fidalgos, e mais pessoas, que acompanhárão a corte, e todos

se tratárão de emigrados. Não sei como forão esses inventarios, e

sequestros, mas he certo, que elles não evitárão novas dilapidações,

novos roubos.

Os particulares, por principio de protecção, tiverão logo huma

contribuição de dous milhões de cruzados, imposta por Junot a titulo

de emprestimo forçado[19] para a sustentação do exercito, que vinha

devastar o reino. Pagárão-se pontualmente, e foi o corpo do commércio o

que supportou este pezo.

[Sidenote: 1807 Dez.]

O sequestro das propriedades Inglezas, e o desarmamento da nação forão

tambem objectos, que occupárão incessantemente a attenção de Junot,

e sobre elles principiou a legislar por decretos de 4 de dezembro.

Quanto ás propriedades Inglezas, mandou confiscar todas as existentes

em Portugal, impondo a quem as tivesse em seu poder, e o que he mais,

a quem soubesse de algumas, que se tivessem occultado, a rigorosa

obrigação de as manifestar, com a combinação de graves penas, sendo

huma dellas o pagar dez vezes o valor dos objectos não denunciados.

As mercadorias de manufactura Ingleza ficarião igualmente sujeitas

ao confisco, pelo simples facto da sua origem, fossem quaesquer os

possuidores. Era huma consequencia necessaria da guerra, que Napoleão

tinha declarado ás producções, e manufacturas da Gram-Bretanha, a que

póde dar-se com propriedade o nome de roubo universal, porque atacando

indistinctamente a todos os possuidores, ataca a todas as nações

da terra. Junot teve a bondade de moderar depois este decreto,[20]

contentando-se com o 3.^o do valor das fazendas confiscadas pelo

simples facto da sua origem, sendo possuidas por Portuguezes.

[Sidenote: 1807 Dez.]

O desarmamento da nação era hum ponto muito crítico, para se levar

ao fim, em quanto ella não estivesse bem segura. Por principio

contentou-se Junot com prohibir o uso das armas de fogo, e o caçar

sem licença do General de-Laborde (a quem já tinha nomeado commandante

de Lisboa) pena de ser considerado o infractor como vagabundo, e

matador de estradas, e como tal conduzido a huma commissão militar.

O caçador, e o matador de estrada são equiparados, que proporção

nas penas! Não he menos singular a razão deste decreto dada no seu

preambulo: _Considerando que debaixo do pretexto de caça se commettem

diariamente assassinios, e a intenção do General em chéfe he fazer

destruir com ordem a caça naquelles terrenos, onde ella fossa ser

prejudicial, &c_. Para destruir a caça, prohibe com pena de morte

o caçar: que incoherencia! Mas o certo he, que de-Laborde achou este

decreto muito coherente aos seus interesses; porque foi copioso canal,

por onde lhe corrião grossas quantias; pois que vendia por bom dinheiro

as licenças para caçar.

[Sidenote: 1807 Dez.]

[Sidenote: 1807 Dez.]

Que devião fazer em taes circumstancias os Governadores do reino: seria

da sua obrigação resistir a tantos attentados, e tão repetidos actos

de usurpação? Não devião, nem podião. _Não devião_; porque seria

obrar contra o plano adoptado por S. A. R. e sacrificar inutilmente a

nação a males horrorosos. S. A. R. tinha sido informado das marchas

dos inimigos, e sabia tanto das suas intenções pérfidas, que no

decreto de 26 de novembro fez público aos seus vassallos, que elles

se dirigião muito particularmente contra a sua Real Pessoa; e com

tudo conservando-se no Téjo até o dia, em que a vanguarda do exercito

Francez chegou a Sacavem, não só não deo providencias algumas para

a defeza, mas deixou em pé as recommendações, que fizera ao governo

naquelle decreto, para o fazer aquartelar, e tratar como hum exercito

alliado. Era sem dúvida o plano evitar-lhe todo o motivo, ou pretexto

de rompimento, como melhor se declarou depois no manifesto datado do

Rio de Janeiro no 1.^o de maio de 1808; e se o não fosse, não deixaria

S. A. R. de authorizar a esquadra Ingleza, para entrar no porto, e se

senhorear das fortalezas da barra, ao menos para salvar huma grande

parte do povo, e das riquezas de Lisboa.

_Não podião_; porque he com exercitos, e não com palavras que

se resiste a hum inimigo poderoso, e armado; e o exercito Portuguez,

além de dividido, e disperso, em consequencia das ultimas posições,

que S. A. R. lhe mandára tomar, estava tão diminuto, pela deserção,

occasionada principalmente na confusão do embarque da nossa corte, e

pela falta dos que a acompanhárão, que ainda Junot não tinha 8 dias

de residencia em Lisboa, e já estava nas suas mãos hum mappa, que

lhe representava apenas 15& homens sobre o papel nos 24 regimentos

de infanteria Portugueza, e calculava, que não excederião a 12&

effectivos. Que bella resistencia se podia fazer com este exercito?

[Sidenote: 1807 Dez.]

Eu convenho, que no primeiro dia bastava hum aceno dos Governadores do

reino ao povo de Lisboa, para desapparecerem em hum momento o General

Junot, e todos os guerreiros, que o acompanhavão: dahi a poucos dias já

se não podia com elles. E demos, que se destruião as primeiras tropas;

que triste resultado teria para a nação esta inconsiderada defeza?

Como se havia de resistir a mais de 50& homens entre Francezes, e

Hespanhoes, que já a esse tempo entravão, ou estavão promptos a entrar

nas nossas fronteiras, e aos numerosos exercitos com que a França, e

Hespanha unidas os farião seguir, sendo preciso! Resistencia he o que

querião os barbaros Francezes, não só para pretextarem a usurpação do

reino, mas tambem para poderem dar os saques. Misera Hespanha, tu nos

estás dizendo o que aconteceria a Portugal!

[Sidenote: 1807 Dez.]

Foi por tanto huma grande felicidade para a nação, que o corpo do

governo á custa mesmo de grandes sacrificios, e soffrimentos pessoaes

dos seus membros continuasse no systema pacifico, que o Principe

Regente tinha adoptado: Que os Francezes, posto que guiados pelo seu

interesse proprio, conservassem esta authoridade intermedia, que

servio muito de adoçar os primeiros actos da invasão, por isso mesmo

que della se servião, para a execução de muitos dos seus decretos:

que se désse ao tempo o que o tempo só podia remediar, esperando-se a

occasião opportuna, para quebrar os ferros, quasi sem se derramar o

sangue Portuguez. Isto são verdades palpaveis, e o contrario idéas não

só falsas, mas perigosissimas, como tendentes a excitar a desconfiança

entre os governos, e os póvos, a qual, em lavrando com calor, raras

vezes deixa de ter por consequencia a ruina dos Estados.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 40 / 58 题