_Proclamação de Junot aos habitantes de Lisboa: sua entrada nesta
capital, e sua digressão a Belém, e á bateria do Bom-successo. Elle
mette tropas na torre de S. Julião, e volta a Lisboa aquartelar-se em
casa do Barão de Quintella._
[Sidenote: 1807 Nov.]
[Sidenote: 1807 Nov.]
Na madrugada do mesmo dia tinha apparecido affixada pelas ruas, e
praças de Lisboa huma nova proclamação de Junot nas duas linguas
Franceza, e Portugueza; porque o engano, e a perfidia o precedião
sempre na sua marcha. Era semelhante áquella, que tinha feito propagar
desde Alcantara, com as mesmas expressões de amizade, e de protecção,
e as mesmas exclamações contra os Inglezes, ainda mais aggravadas
pelo traductor Portuguez, como he facil de observar, combinando-se
o original com a traducção; mas com a differença, que deixava já
entrever huma parte dos attentados, que brevemente pôz em prática,
contra o mesmo Soberano, que vinha auxiliar, pondo-o na esteira de hum
emigrado, porque se transferíra de huma cidade para outra dos seus
Estados. Até aqui vinha d’acordo com o Principe Regente salvar Lisboa
da sua ruina, agora vem sómente proteger a nação, e deplora a desgraça
do seu respeitavel Soberano, que arrastado por máos conselhos se
entregára nas mãos dos pérfidos Inglezes! Tudo erão laços artificiosos,
com que se procuravão surprender os fiéis Portuguezes, de fórma que
se achassem maniatados, sem terem sentido os ferros. Mas a peça he
tão interessante, tão extraordinaria, e tão demonstrativa da maldade
destes pérfidos, (não os Inglezes) que eu não posso dispensar-me de a
transcrever toda inteira, posto que tem sido impressa muitas vezes.
O Governador de París,
Primeiro Ajudante de campo de S. M.
o Imperador e Rei,
General em chéfe,
Gram-Cruz da Ordem de Christo
nestes Reinos.
Habitantes de Lisboa.
[Sidenote: 1807 Nov.]
[Sidenote: 1807 Nov.]
O meu exercito vai entrar na vossa cidade. Eu vinha salvar o vosso
porto, e o vosso Principe da influencia maligna da Inglaterra. Mas este
Principe, alias respeitavel pelas suas virtudes, deixou-se arrastar
pelos conselheiros pérfidos, de que era cercado, para ser por elles
entregue aos seus inimigos; atrevêrão-se a assustallo quanto á sua
segurança pessoal;[14] os seus vassallos não forão tidos em conta
alguma, e os vossos interesses forão sacrificados á cobardia de huns
poucos de cortezãos.
Moradores de Lisboa, vivei socegados em vossas casas: não receeis cousa
alguma do meu exercito, nem de mim: os nossos inimigos, e os malvados
sómente devem temer-nos.
O grande Napoleão meu amo envia-me para vos proteger, eu vos protegerei.
_Junot._
_Le Gouverneur de París,
Premier Aide de Camp de Sa Majesté
l’Empereur & Roi,
Général en Chef,
Grand-Croix de l’Ordre de Christ
de Portugal.