CAPITULO XIII.

_Viagem de Napoleão á Italia, em quanto os seus satéllites marchão

para o occidente. Ultimos esforços da corte de Portugal, para

satisfazer á das Tuilherias. Entrada de huma esquadra Russiana em

Lisboa, e bloquêo deste porto pelos Inglezes._

[Sidenote: Nov.]

[Sidenote: 1807 Nov.]

Dadas todas as disposições referidas, e despedida de França a legação

Portugueza, Napoleão, em quanto os seus satéllites marchavão para o

occidente a devastar estas regiões defecadas, e sem forças pelas suas

extorsões, mas livres até então dos furores da guerra, encaminhava-se

para a Italia com grande apparato; dando a esta viagem, como observa,

Cevallos, huma importancia tal, que podia julgar-se, que hia fixar o

destino do universo, e sendo de suspeitar, que realmente não tinha

outro objecto, que o de chamar alli a attenção pública, e allucinar

os póvos, em quanto as suas vistas se dirigião a usurpar Portugal, e

Hespanha. De caminho fez despejar da Toscana a Rainha regente, e toda

a familia Real de hum modo o mais repentino, despojando o palacio, e

as caixas públicas de huma corte, que ignorava o tratado, e que era

victima tão innocente, como a de Portugal. Tão prompta foi a execução

do artigo IX. do tratado de Fontainebleau!

[Sidenote: 1807 Nov.]

A agitação, em que deixamos a corte de Portugal, augmentou-se ainda

com a chegada de D. Lourenço de Lima, seguida poucos dias depois

pela do Conde da Ega, despedido formalmente de Madrid, assim como

o primeiro o tinha sido de París. Ella deo então o ultimo passo,

para satisfazer á das Tuilherias, expedindo ordens pela repartição

do Secretario d’Estado Araujo em 5 de novembro: 1.^o ao Intendente

geral da policia, para fazer arrolar todos os Inglezes existentes em

Portugal, excepto os naturalizados, e os que se devessem reputar como

taes pelas suas occupações uteis, principalmente nas manufacturas, e

dar as providencias, para se não deixarem sahir sem nova ordem; 2.^o

ao Administrador geral das alfandegas, para que fizesse inventariar

as mercadorias Inglezas, e quaesquer outras propriedades pertencentes

a individuos da mesma nação, e fazer dellas deposito, para ficarem em

sequestro bem seguras, e conservadas, remettendo-se os inventarios á

Secretaria d’Estado dos negocios do reino. Em consequencia desta mesma

baixou quatro dias depois outra ordem, para se suspender em varios

leilões particulares de bens, e effeitos pertencentes a negociantes

Inglezes, a fim de tambem se inventariarem, e ficarem em sequestro.

[Sidenote: 1807 Nov.]

[Sidenote: 1807 Nov.]

O Principe Regente se promettia sem dúvida, e com solidos fundamentos,

achar meios de salvar a sua honra, e a sua justiça, compromettidas na

apparencia com estas providencias, na generosidade do ministerio, e da

nação Britanica, ou, o que he mais provavel, em hum novo sacrificio

pecuniario, para indemnizar os lesados. Além disso os Inglezes, depois

das participações, que se lhes fizerão, tinhão tido muito tempo, para

se pôrem a salvo com as suas propriedades, que pudessem liquidar; e

era por tanto de esperar, que não importarião em grande quantia as

que ainda se achassem em Portugal. Na verdade não forão muitas as que

apparecêrão por esta diligencia; porque se fez com a suavidade, que era

propria de Ministros, que conhecião o principio, d’onde emanavão as

ordens, e não tinhão interesse em aggravar a execução dellas: do que ao

depois se fez cargo á nossa corte na segunda conta dada ao Imperador

dos Francezes pelo seu Ministro das relações exteriores M. Champagny em

2 de janeiro de 1808; mas mostrou o tempo, quando vierão rebuscadores

mais ávidos, que ainda existião no reino cabedaes consideraveis,

pertencentes a vassallos da Gram-Bretanha.

Com tudo estas providencias não produzirão outro effeito, que o de

implicarem Portugal por alguns dias com ambos os partidos. Lord

Strangford, que já tinha representado á corte, que S. M. Britanica

tinha feito quanto a amizade, e a lembrança da antiga alliança podião

justamente exigir, sem mostrar sentimento pela clausura dos portos, mas

que, se as cousas subissem de ponto, a guerra era inevitavel, tirou

em fim as armas Inglezas da casa da sua residencia, pedio os seus

passaportes, dando por acabada toda a sua correspondencia diplomatica,

e chegando dahi a alguns dias defronte da barra a esquadra Ingleza

commandada por Sir Sidney Smith, que tinha sido enviada de prevenção,

retirou-se para ella, e se declarou bloqueado o porto de Lisboa.

[Sidenote: 1807 Nov.]

A nossa corte enviou ainda hum correio com despachos a Napoleão, e

successivamente o Marquez de Marialva, huma das primeiras personagens

do reino, com o caracter de Embaixador extraordinario; mas a usurpação

de Portugal estava irrevogavelmente decidida, e o Marquez não tinha

ainda passado a Hespanha, quando as tropas Francezas já tinhão

penetrado as nossas fronteiras.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Não contribuio pouco para tornar mais pezado o bloquêo de Lisboa o

successo, que vou referir. Nos dias 10, 11, e 13 de novembro tinha

entrado no Téjo a esquadra Russiana do Almirante Siniavin, composta

de nove náos, e duas fragatas (huma destas tornou a sahir em 9 de

dezembro) com os seus competentes preparos de artilheria, gente, e

munições. Sabia-se muito bem, que ella vinha de Corfú, voltando do

Arquipelago, onde tinha obrado juntamente com os Inglezes contra a

Porta, e em cujas paragens já não era precisa, em razão do armisticio

concluido entre as cortes de Petersburgo, e Constantinopla, e não

podendo encaminhar-se aos portos da Russia naquella estação, por causa

dos gelos do Baltico, era natural, que procurasse hum outro onde

invernasse, e fizesse os concertos, de que alguns navios precisavão. Em

toda a sua travessa nenhum lhe offerecia tantas commodidades para estes

objectos, como o de Lisboa; e por isso nada tinha de extraordinaria a

sua entrada no Téjo.[11] Mas o povo, e principalmente a classe dos que

se mettem a fallar em politica, gostando tanto de ler no futuro, como

de formar systemas sobre os factos preteritos, e querendo sujeitar tudo

ás regras da sua imaginação, e aos planos, que inventa; que muitas

vezes se engana, mas algumas tambem acerta, decidio logo, que esta

esquadra era mandada ás ordens de Napoleão, e para cooperar segundo o

seu plano.

[Sidenote: 1807 Nov.]

[Sidenote: 1807 Nov.]

Olhava-se para as personagens, com quem se lidava, e o pensamento

remontava a huma epoca mais atrazada. Em resultado da occupação da

Pomerania pelos Francezes, e dos arranjamentos de Tilsit, os Inglezes

ficavão excluidos de todos os portos das costas meridionaes do Baltico.

He verdade, que não tinha sido convencionada a clausura dos da Russia,

mas era facil de conhecer, que ella não tardaria, nem o rompimento

entre esta potencia, e a Inglaterra, a pezar da mediação do Imperador

Alexandre, que acceitou Napoleão no artigo XIII. do tratado entre

ambos, para se negociar a paz entre a França, e a Inglaterra. Os

successos mostrarão, que esta mediação foi mais huma farça, para se

colorarem projectos de usurpação; e disso mesmo se descobrião vestigios

naquelle proprio tratado, e artigo, pelo limitado termo de hum mez

desde as ratificações, estabelecido, como condição indespensavel, para

a acceitação da Inglaterra, ao mesmo tempo que sem limitação alguma

aceitou Alexandre no artigo XXIII. a mediação de Napoleão, para as

negociações com a Porta. Faça-se sómente reflexão na distancia, que vai

de Tilsit a Londres, e na incerteza das viagens maritimas, e ver-se-ha,

se era sincero o estabelecimento do termo peremptorio de hum mez.

Napoleão além disso ajuntava forças tão consideraveis no Holstein, que

parecião não ter outro destino, que o fechar o Sunda aos Inglezes, e

obrigar a Dinamarca a declarar-se tambem contra elles.

E que immensa força naval se não acharia então á disposição da

França, para invadir a Inglaterra, se a execução de todas as partes

do plano correspondesse ás vistas de Napoleão? A de todos os portos

do continente da Europa, á excepção sómente dos da Suecia, onde a

intrepidez de Gustavo não tinha ainda deixado penetrar a influencia

Franceza.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Discorria-se pois, que em quanto do norte se enviasse huma grande

expedição composta das esquadras Russiana, e Dinamarqueza, e se puzesse

em acção toda a força existente nos portos da Hollanda, França, e

Hespanha, os Francezes, senhores de Portugal, devião fazer huma outra

de Lisboa com a esquadra Portugueza, e com a Russiana do Almirante

Siniavin. O projecto era grande, a execução duvidosa, pelos obstaculos,

que lhe opporião a marinha Ingleza, a energia, e o valor do governo, e

da nação Britanica; mas não deixava de assustar, mesmo pela incerteza

do seu exito. Não he certo, que Napoleão o tivesse assim traçado, pelo

contrario eu terei occasião de referir factos no decurso desta obra,

que deixão pouca duvida de que a esquadra Russiana, quando entrou no

Téjo, não veio em consequencia de plano concertado com Napoleão, nem

obrava segundo as suas vistas; mas era bem de presumir, que elle não

perderia hum momento em aproveitar-se das circumstancias favoraveis,

que o fio dos successos lhe fosse apresentando.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Muito tempo antes que Siniavin entrasse em Lisboa, tinha o ministerio

Britanico descarregado sobre Copenhague, e sobre a marinha Dinamarqueza

hum golpe decisivo, que o livrou destes cuidados pela parte do norte.

Elle se tranquillizava, quanto a Lisboa, com o rigoroso bloquêo do

Téjo, que não terminou, senão com a conducção da esquadra Russiana para

os portos da Inglaterra, menos duas náos, que por incapazes ficárão,

e estão ainda no de Lisboa. O embarque do Principe Regente, e de toda

a Real Familia Portugueza na sua esquadra para o Brasil acabou de

desvanecer todos os receios. Assim mesmo he hum facto bem verificado,

que Napoleão tentou ainda servir-se daquella esquadra Russiana, e dos

restos da Portugueza, que ficárão no Téjo, não já para a invasão da

Inglaterra, sim contra os estabelecimentos Portuguezes, e Hespanhoes da

America.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 29 / 58 题