_Successos da campanha. Negociações de paz, e tratados de Badajoz._
[Sidenote: 1801]
[Sidenote: 1801]
Os mezes de março, e abril gastarão-se em preparativos, e em quanto S.
M. C. fazia ajuntar tropas na Galliza, em Castella, e na Extremadura,
e que o General S. Cyr era enviado de França, para residir junto ao
General Hespanhol, e concertar com este as operações da campanha,
huma divisão do exercito Francez com numerosa artilheria atravessava
os Pyreneos ás ordens de Le-Clerc. O Principe da Paz, conhecendo que
o golpe era seguro, quiz tambem figurar de guerreiro, pondo se á
frente dos exercitos Hespanhoes. Os Portuguezes forão commandados pelo
Marechal General Duque de Lafões, que pelo máo successo de nossas armas
vio murchados em huma idade provecta os grandes creditos, de que tinha
gozado em muitos annos de paz.
As fronteiras de Portugal forão ameaçadas por differentes pontos, e
para a sua defesa se formárão, como se pôde, tres pequenos exercitos,
hum na provincia de Tras-os-Montes, commandado por Gomes Freire de
Andrada, outro na Beira-baixa ás ordens de Dordaz, e o principal de
todos no Além-Téjo, debaixo do commando immediato do Marechal.
[Sidenote: 1801]
Não se achava extincto nos Portuguezes o antigo ardor marcial. Gomes
Freire quiz obrar na offensiva, e determinou tomar por surpreza a
praça de Monterey. Resolvida a empreza, houve huma cêa, em que se
bebeo á saude do futuro Governador designado para aquella praça,
e no dia seguinte o General marcha com hum corpo de cavallaria, e
infanteria ao longo do Tamega pela veiga de Chaves. Os seus guias
errão o caminho, tomando a direita pela estrada de Monforte, em lugar
de tomarem á esquerda pela que conduz em direitura a Monterey: erro
na verdade bem extraordinario em huma jornada tão pequena, e em hum
paiz tão conhecido; mas muito feliz, porque salvou talvez os nossos
de ficarem perdidos. A praça tinha na verdade muito poucas forças, e
poderia facilmente ser ganhada, cahindo-se sobre ella de improviso;
mas os Hespanhoes forão avisados da nossa expedição, e tinhão-se
emboscado a meio caminho em humas tortuosidades dá planicie; e quando o
General Portuguez conheceo, que caminhava errado, e inclinou a marcha
a procurar a verdadeira estrada, os seus flanqueadores forão dar em
frente com as avançadas Hespanholas. Vendo-se então cortados, ou
julgando, que o estavão, os nossos recuão com huma marcha apressada;
e posto que muito incommodados nesta retirada, tiverão ainda tempo de
recolher-se aos pontos, d’onde tinhão sahido, sem que o inimigo se
atrevesse a entrar por aquelle lado em terras de Portugal. Foi esta a
unica acção, em que entrou o exercito de Tras-os-Montes.
[Sidenote: 1801]
[Sidenote: 1801]
Pela provincia do Além-Téjo he que que o inimigo formou o seu ataque
verdadeiro. Em 20 de maio o Principe da Paz marchou de Badajoz á frente
do seu exercito; e mandando reconhecer o terreno pelas suas guardas
avançadas, as quaes tiverão seu encontro com as Portuguezas, despedio
immediatamente hum emissario a praça d’Elvas com huma intimação
arrogante, para que se rendesse, fazendo menção de que vinha á testa de
25:000 homens para combater. O Tenente General D. Francisco Xavier de
Noronha era o Governador desta praça, que com os fortes de la Lippe,
e de S. Luzia he a primeira de Portugal, e huma das mais importantes
d’Europa, e tinha nesse tempo de guarnição 9:000 homens, entre tropa de
linha, milicias, e paisanos.
[Sidenote: 1801]
Achava-se o Governador junto ao baluarte da parada, quando lhe foi
apresentado o emissario; e sem dar hum passo, dali mesmo o despedio com
huma resposta energica, e assás demonstrativa da resolução, em que se
achava de defender-se até á ultima extremidade: resolução, que ainda
manifestou melhor, pelas activas, e acertadas disposições, com que
se preparou para huma vigorosa defesa. Teve com effeito a satisfação
de conservar a praça ao seu legitimo Soberano, e conter o inimigo em
respeito até o fim da campanha, não se atrevendo a investilla, nem
mesmo a pôr lhe cerco regular, posto que a tivesse em bloquêo.
Assentou o Principe da Paz o seu campo entre Badajoz, e Elvas, quasi
a huma legua desta ultima praça, onde se chama Valle de cavalleiros
decima, e Valle de cavalleiros debaixo; ponto verdadeiramente militar,
porque continha em respeito a guarnição d’Elvas, e as suas patrulhas
cortavão a communicação desta praça com a de Campo-maior. Fez postar
mais hum corpo avançado na aldêa de S. Eulalia, d’onde observava os
movimentos dos corpos Portuguezes, que estavão em Portalegre, não
deixando livre a Elvas senão a estrada de Lisboa, e esta nem sempre,
porque as patrulhas tambem muitas vezes a impedião.
[Sidenote: 1801]
Ao mesmo tempo, em que esta columna se encaminhou a Elvas, dirigírão-se
mais tres, huma contra Olivença, outra contra Jurumenha, e a
terceira contra Campo-maior. Olivença, e Jurumenha entregárão-se sem
resistencia, de que resultou senhorearem-se rápidamente os Hespanhoes
de Arronches, Portalegre, Castello de vide, Barbacena, Ouguella, e seus
territorios. Campo-maior soffreo hum sitio de 17 dias, e capitulando na
noute de 6 para 7 de junho, quando já tinha sido assinado o tratado de
Badajoz, só veio a ser evacuada pela guarnição Portugueza a 9 do mez,
quando erão bastantes algumas horas, para chegar a noticia da paz. Para
que foi esta capitulação, e a evacuação subsequente, se na fórma do
tratado a praça devia ser restituida á coroa de Portugal? Para servir
á vaidade do Principe da Paz, que queria engrandecer o seu nome com
conquistas imaginarias. Marvão foi atacada, mas não se rendeo.
[Sidenote: 1801]
Quando entrárão os Hespanhoes em Portugal, o nosso exercito do
Além-Téjo tinha o quartel General em Portalegre, e estendia a sua
direita até Monforte, a esquerda até Montalvão; fez immediatamente
a direita hum movimento sobre Alpalhão, conservando-se Arronches,
como posto avançado; a esquerda não mudou de posição. Os Hespanhoes
atacárão então Arronches, onde forão batidos hum batalhão do 1.^o e
outro do 2.^o regimento de Olivença, o que deo occasião a se retirarem
para Alegrete dous batalhões de granadeiros, e dous de fusileiros,
que a protegião. No dia seguinte todo o exercito fez a sua retirada
sobre Gavião, e cinco depois para Abrantes, d’onde enviou o susto, e o
desalento á capital do reino.
[Sidenote: 1801]
[Sidenote: 1801]
Tinhamos depositos consideraveis no Crato, e em Niza, que com a
retirada do exercito ficavão expostos. De Gavião se fez huma expedição,
para salvar os do Crato, que se compunha de 600 homens, e 80 cavallos;
mas inutilmente, porque em Flor da rosa foi surprendida, e feita quasi
toda prisioneira por forças superiores. A esta acção derão tanta
importancia os papeis Francezes, que della se falla em algumas obras
como de huma batalha de grande vulto. Os depositos de Niza forão salvos
pelo exercito da Beira-baixa, que tinha a direita em Villa-velha,
occupando por primeira linha as margens do Elja, a esquerda em
Salvaterra, e o quartel-general successivamente em Idanha a nova, ou
Castello-branco. Para entreter este exercito hum corpo de Francezes
ameaçou entrar por Segura; mas elle não teve parte em outra alguma
operação da campanha.
[Sidenote: 1801]
[Sidenote: 1801]
O Principe da Paz parecia destinar-se então a marchar para o sul do
reino, onde outro corpo de Hespanhoes ameaçava penetrar por Ayamonte;
porque já nesse tempo a primeira divisão do exercito Francez, que
se dizia composta de 18:000 homens, tocava as nossas fronteiras por
Cidade-Rodrigo; e era seguida por muitas outras tropas da mesma nação,
de que o plano parecia ser dividirem-se em duas columnas, de que huma
seguiria a corrente do Téjo até Lisboa, e outra a do Douro até o Porto.
A situação de Portugal era consternadora. Foi necessario recorrer
ás negociações, para suspender a guerra, e fazer sacrificios para
segurar o exito das negociações. Ignoro a extensão destes sacrificios;
sei porém, que se concedião grandes vantagens ao governo Francez, e
que além disso foi necessario captar as boas graças do Principe da
Paz, que governava a Hespanha, e comprar as de Luciano Bonaparte,
que figurava por seu irmão o primeiro Consul, os quaes não erão
homens de accommodar-se com pouco.[5] Para satisfazer á voracidade
destas harpias, que querião devorar Portugal, foi necessario á nossa
corte contrahir hum emprestimo de treze milhões de florins á casa
de Amsterdão Hope, e á de Londres Barring e companhias, para cujo
pagamento se applicárão huma parte do rendimento do tabaco, e os
diamantes do Brasil, que se fossem enviando áquelles commerciantes,
para os negociarem. Daqui sahírão tambem 10 milhões de cruzado, que,
como veremos, custou o tratado de Madrid.
[Sidenote: 1801]
Foi encarregado de conferir com aquellas personagens Luiz Pinto de
Sousa, (depois Visconde de Balsemão) hum dos Ministros d’Estado, o qual
concluio em Badajoz os dous tratados de paz com a Hespanha, e a França.
[Sidenote: 1801]
Pelo artigo I. do tratado entre Portugal e Hespanha se restabeleceo
a paz, e amizade entre as duas coroas, e se estipulou a restituição
de todas as presas, que se fizessem no mar, depois da ratificação.
Estipulou-se no II., que os portos de Portugal, e seus dominios
se fecharião aos navios Britanicos. Pelo III. prometteo S. M. C.
a restituição de todas as conquistas feitas a S. A. R. menos a
praça de Olivença, e seu territorio até o Guadiana, que ficarião
perpetuamente unidos á coroa Hespanhola. Pelo IV. se obrigou S. A.
R. a não consentir, que houvessem nas fronteiras dos seus reinos
depositos de effeitos de contrabando, que prejudicassem ao commercio, e
interesses da coroa Hespanhola, mais do que aquelles, que pertencessem
exclusivamente ás rendas Reaes da coroa Portugueza, e que fossem
necessarios para o consummo dos seus territorios, onde se achassem
depositados, dando-se por nullo, se neste, ou em outro artigo houvesse
infracção, _o tratado, que agora se estabelece_, formaes palavras,
_entre as tres potencias, comprehendida a mutua garantia, segundo se
expressa nos artigos do presente_.
[Sidenote: 1801]
[Sidenote: 1801]
O artigo V. he notavel, e mostra bem, assim como o II., e outros mais,
as difficeis circumstancias, em que se achava a corte de Portugal,
quando lhes deo a sua approvação. Dizia-se antigamente, logo que se
via envolvida a Hespanha em alguma guerra, que esta potencia pagaria
sempre as custas, como a mais rica; reverteo-se porém desta vez a
condemnação contra Portugal, como o menos poderoso. Impôz-se a S. A.
R. a obrigação de satisfazer sem demora, e entregar aos vassallos de
S. M. C. todos os damnos, e prejuizos, que justamente reclamassem,
causados pelas embarcações da Gram-Bretanha, ou de Portugal, durante
a guerra com aquella, ou com esta potencia. Que horroroso sacrificio!
Prometteo S. M. C. como em justa reciprocidade dar satisfação a S. A.
R. sobre todas as presas feitas illegalmente antes da guerra actual
pelos Hespanhoes, com infracção do territorio, ou debaixo do tiro de
canhão das fortalezas dos dominios Portuguezes. Aqui parece, que o
negociador Hespanhol quiz zombar do Plenipotenciario Portuguez. Que
reciprocidade a de huma satisfação indefinida por dous, ou tres navios,
que os Hespanhoes podião ter feito prisioneiros debaixo do tiro de
canhão, ou com violação do territorio Portuguez, pela restituição das
innumeraveis, e ricas presas, que os Inglezes lhes tinhão feito desde o
principio da guerra! Mas era necessario curvar as circumstancias.
[Sidenote: 1801]
No artigo VI. se obrigou S. A. R. a reintegrar dentro de tres mezes,
desde a ratificação do tratado, ao erario de S. M. C. os gastos, que as
suas tropas deixárão de satisfazer, quando se retirárão da guerra da
França, e que forão causados nella, segundo as contas apresentadas, ou
que de novo se apresentassem pelo Embaixador Hespanhol, salvo qualquer
erro dellas. Estas tropas erão as que tinhão ido auxiliar a S. M. C.
e que tanto lhe tinhão prestado naquella guerra; admira por tanto,
que Carlos IV., depois de seis annos de silencio, se lembrasse ainda
de alguns restos, que tivessem deixado de pagar do que despendêrão na
mesma guerra, tendo-se esquecido absolutamente de Portugal na paz de
Basiléa, e recebendo agora tão avultadas indemnizações por factos, em
que S. A. R. não era culpado.
Os artigos seguintes contém varios arranjos sobre a evacuação do
territorio Portuguez, occupado pelos Hespanhoes, restituição de
prisioneiros, renovação dos antigos tratados de alliança defensiva,
que existião entre as duas Monarquias; e no VIII. prometteo S. M. C.
garantir a S. A. R. a inteira conservação dos seus estados, e dominios,
sem a menor excepção, ou reserva. Foi feito este tratado em Badajoz a 6
de junho de 1801, e ratificado no palacio de Quéluz por S. A. R. em 14
do mesmo mez.