LISBOA. M. DCCCX.

Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira.

_Com licença da Meza do Desembargo do Paço._

_INTRODUCÇÃO._

Houverão escrevedores de papel nos ultimos tempos da França degenerada,

que ousárão affirmar no excesso da sua fatuidade, que o que se

chamava systema do equilibrio da Europa, não fôra já mais, senão o da

preponderancia daquella potencia, pela superioridade, que sempre tivera

sobre todas as outras potencias Europeas. Acaso ignoravão elles, que

forão necessarias as dissensões da rosa branca, e da rosa vermelha,

para os Francezes sacudirem o jugo dos Inglezes? Que a não serem as

discordias, e a guerra civil da Alemanha, Carlos V. teria feito da

França huma das provincias do seu Imperio? Que a infanteria Hespanhola

esteve em posse de bater os exercitos Francezes, desde os tempos

famosos de Gonçalo de Cordova, até ás ultimas campanhas do Conde de

Fuentes?

A França, he verdade, foi olhada por longos tempos como huma das

principaes potencias, que figuravão no systema politico da Europa.

Henrique VIII. de Inglaterra se tinha feito pintar com huma balança nas

mãos, de que a França, e a Austria fazião os dous pratos, e com esta

lenda: _Cui adhæreo præest_; mas tambem he certo, que a primeira

nunca chegou a gozar as honras de preponderante, senão depois que Luiz

XIV. as obteve, por meio do sensivel abatimento da segunda. A politica

do Cardeal de Richelieu principiou esta grande obra, o valor, e os

talentos de Turenne, Condé, e hum grande número de Generaes illustres a

consummárão; mas não foi de longa duração. Colligárão-se a maior parte

dos Estados Europeos contra os ambiciosos projectos de Luiz XIV.; e

posto que forão inuteis, e desastrosas as primeiras confederações, por

fim, não só conseguírão abater a grandeza deste Monarca vaidoso, mas

estiverão a pontos de o precipitarem do seu proprio throno.

Succedeo-lhe seu bisneto Luiz XV., ainda menino, e a desordem, em que

se achavão as finanças, as chagas profundas, que as longas sanguinosas

guerras tinhão imprimido no Estado, juntas ás perturbações da

regencia, e a todos os males, que costumão acompanhar as minoridades

dos Principes, concorrêrão á porfia, para conservarem a França em hum

estado de perfeita languidez. Luiz XV., tornado maior, soube na verdade

aproveitar-se dos recursos naturaes da Monarquia, para lhe restituir

hum pouco de vigor; mas era hum Soberano moderado, e justo, que bem

longe de aspirar a conquistas, não tirava a espada, senão a seu pezar,

e não cessava de propôr a paz no meio das suas victorias. Depois da

batalha de Fontenoy, vendo que os montes de cadaveres, os gritos dos

moribundos, e o sangue, que tingia hum largo campo, arrancavão lagrimas

ao Delfim, voltou-se para este, e disse--_Aprendei, meu filho, quanto

a victoria he cara, e dolorosa._--_Escrevei á Hollanda_,

dizia elle a hum dos seus Ministros, _que eu não peço senão a

tranquillidade da Europa: não he a minha condição, he a dos póvos, que

eu quero fazer melhor_. Esta moderação, que talvez o embaraçou de

chegar áquelle gráo de esplendor, que podia esperar, se se conduzisse

segundo as vistas do reinado precedente, devia produzir para a França

vantagens incomparavelmente maiores, a tranquillidade, e a opulencia,

mas as despendiosas guerras, que teve de sustentar na Europa, os

revezes experimentados pela sua bandeira, e pelas suas colonias em

todos os mares, e as importunidades de cortezãos ávidos, que abusárão

da fraqueza dos seus ultimos annos, subvertêrão de novo as finanças, e

fizerão com que por sua morte transmittisse o Estado a seu neto Luiz

XVI. no mesmo gráo de abatimento, em que o herdára de seu bisavô.

A marinha se achava anniquilada, o commercio sem vigor, 78 milhões

tinhão sido consumidos por anticipação sobre as rendas públicas, o

excedente das despezas montava a 22 milhões, e os crédores desesperavão

do pagamento dos seus capitaes; e poderia então Luiz XVI. pensar em

projectos de engrandecimento? Estava reservado aos assassinos, que o

conduzirão ao cadafalso, o sujeitarem o continente ás suas leis, o

fundarem hum Imperio monstruoso de huma especie nova, que firmando-se

sobre as bases da liberdade, e igualdade, rematou no despotismo; que se

sustenta pelos mesmos principios, por onde os outros se dissolvem, a

crueza, a irreligião, e a immoralidade; que com todas as apparencias de

libertador tomou todos os caractéres de usurpador.

Melhorar, e reformar todos os ramos de administração pública, e

principalmente as finanças, foi o objecto, a que Luiz XVI. dirigio

todos os seus cuidados, desde que subio ao throno; e principiando por

huma grande economia na sua casa, por supprimir as pensões abusivas,

diminuir as pouco merecidas, por meio destas, e de outras admiraveis

providencias fez pagar 24 milhões da divida exigivel, 50 da divida

constituida, e 28 das anticipações; o crédito público principiou a

restaurar-se, e raiárão dias de prosperidade sobre o horizonte da

Monarquia Franceza.

Luiz XVI. deo talvez hum passo errado em se intrometter nas

contestações da Inglaterra com a America; mas foi arrastado pelas

opiniões do seu conselho, e implicado a seu pezar em huma guerra,

que da America se transportou bem depressa á Europa, e á qual se

attribuem as desgraças do Rei, e da nação. Parece, que o Imperador de

Alemanha José II. o tinha previsto, quando respondeo a Luiz XVI., que

o consultava sobre este negocio--_Quanto a mim o meu officio he ser

Realista_.--

Sem o apoio da França os Americanos terião provavelmente succumbido;

com elle o espirito républicano tomou raizes, e penetrando a travéz

de immensos mares, veio propagar-se no antigo mundo, e principalmente

na fogosa, e volatil nação Franceza; mas que espantosa differença nos

resultados! Os Americanos, mais sábios, do que altivos, fundárão huma

constituição admiravel, reconhecida bem depressa por toda a terra, que

tem feito a felicidade daquelles póvos; os Francezes com a presumpção

de filosofos profundos, e legisladores consummados, destruindo huma

Monarquia, que a pezar dos abusos, que são inseparaveis de todas as

instituições humanas, os tinha conservado por muitos seculos naquelle

gráo de felicidade, a que podião aspirar, nunca souberão substituir-lhe

hum governo regular; e errando longos tempos por entre os escolhos do

despotismo, e da anarquia, não tem feito senão opprimir, e destruir o

mundo.

Aquella desastrosa guerra arruinou de novo as finanças, exigio

emprestimos, e ameaçou o crédito público; mas a dissipação, o

_deficit_, e o desalento geral tinhão sido incomparavelmente

maiores nos ultimos tempos de Luiz XIV., e Luiz XV., sem produzirem

os horrores da revolução. Estes Monarcas, acabando de endividar o

Estado, morrêrão socegadamente nos seus leitos, e Luiz XVI., quando

se applicava todo a remediar a desordem produzida pela guerra, foi

desenthronisado, como dissipador, e conduzido a hum cadafalso. Como os

tempos erão mudados!

A mesma mão, que o derribou do throno, foi a que abalou todos os

governos: foi a revolução, e não o poder da França, a que destruio o

systema politico da Europa. He nas lavas deste volcão que a geração

presente deve procurar a origem das suas calamidades: he o resultado

da grande luta, em que se achão empenhados os Soberanos, e os povos,

o que deve fixar o destino das gerações futuras; e he por tanto nesta

época, que as nações Europeas devem começar a sua Historia moderna.

O quadro horroroso da revolução Franceza tem sido o objecto de muito

bons pinceis: huns tem seguido como historiadores a sua marcha

sanguinolenta, outros como filosofos se tem demorado em fazer pinturas

energicas das suas atrocidades. O meu plano he differente: eu me

limitarei a tocar aquelles factos, que tem huma relação immediata com a

invasão dos Francezes em Portugal. Quereria seguir passo a passo todas

as relações politicas, e militares, que tem havido desde então entre a

corte de Portugal, e o governo Francez; mas ainda se não levantou senão

hum canto do véo, que tem coberto huma grande parte destes successos

importantes. O tempo, que tudo revela, descobrirá em fim muitas

verdades, que o público ainda ignora; e mesmo sobre alguns factos

já conhecidos alargará os raios da estreita esféra, em que me julgo

envolvido.

Procurarei seguir a marcha dos invasores, desde que puzerão os pés

no territorio Portuguez; os seus hostís procedimentos para com hum

Soberano, e huma nação, que os não provocárão; a partida do Principe

Regente, e de toda a Real Familia para o Brasil; o modo, e os meios,

de que se servírão, para occuparem, e domarem o reino; os principaes

actos de oppressão, e espoliação, que praticárão em Portugal;

fazendo especial menção dos insultos commettidos contra a religião,

e seus ministros; o reciproco comportamento das tropas Francezas, e

Hespanholas, acompanhando os successos com aquellas reflexões, que não

são improprias do officio de Historiador. Muitas vezes eu descerei a

factos particulares, que talvez pareceráõ minuciosos, para entrarem

na Historia geral; mas que sem dúvida tem lugar no meu plano, porque

me proponho a dar a conhecer o caracter da invasão, o espirito, e os

costumes dos invasores.

Passarei depois a referir os principaes acontecimentos da restauração

do reino, consequencia immediata dos successos da Hespanha, e da

fermentação, em que se achava o povo Portuguez, pela sua natural

adhesão ao antigo governo, e á Familia Reinante, pela lembrança da sua

felicidade preterita, e pelo sentimento das suas desgraças presentes.

A luta dura ainda, e não me he licito prever, até onde me conduzirá o

fio dos successos, e qual será a extensão da minha obra. Se eu quizesse

fazer especial menção de todos os illustres Portuguezes, que fizerão

serviços importantes á patria nesta gloriosa empreza, a minha Historia

ficaria sendo huma collecção de nomes; com tudo eu procurarei tirar

do esquecimento os mais distinctos d’entre elles: os libertadores da

patria são dignos de recommendar-se ao reconhecimento do Soberano, e da

nação, e seus nomes de serem transmittidos á posteridade com a gloria,

que lhes he devida. Não farei differença de grandes a pequenos: pelas

acções he que os homens se illustrão: o heroismo, e a virtude fazem a

verdadeira grandeza.

As leis da Historia, que por huma parte prohibem o silencio sobre

os factos mais interessantes, e por outra exigem do historiador a

verdade, e a imparcialidade, como o primeiro, e o mais essencial

dos seus deveres, me obrigaráõ, bem a meu pezar, a referir alguns

successos, ou circumstancias, que não poderáõ agradar a alguns dos meus

compatriotas. Não o praticarei já mais, sem huma circumspecção tanto

maior, e hum exame tanto mais apurado, quanto os factos forem mais

importantes; não podendo porém jactar-me de ter conseguido, o que he

impossivel, huma evidencia mathematica em objectos, que não tem outro

fundamento, que a fé humana, peço a todos aquelles, que se julgarem

offendidos pela minha pena, que em lugar de me accusarem de impostor,

ou parcial, queirão fazer-me conhecer os erros, em que eu possa ter

cahido; e pela minha docilidade em emendal-los conheceráõ elles, e

conhecerá o mundo, que não sou dirigido por outros motivos, nem animado

por outros desejos, que os de conservar, e transmittir á posteridade

memorias fiéis, e circumstanciadas do que se passou em Portugal nesta

época memoravel da nossa Historia. Publíco já o I. tomo, e irei

successivamente publicando os mais, á proporção que os for escrevendo,

para poder emendar nos subsequentes tudo o que se me mostrar, que he

digno de correcção nos precedentes; e rogo aos meus compatriotas, que

me assistão para este fim com os seus conhecimentos.

Julgo não ter offendido nem o mais levemente ao meu Augusto, e Amado

Soberano, aos seus respeitaveis Ministros, e ás illustres Personagens,

que no seu Real Nome compõe hoje o governo de Portugal; mas se eu me

engano, principio por supplicar-lhes o perdão desta culpa involuntaria,

e ouso pedir-lhes com confiança, queirão auxiliar-me com os soccorros

possiveis, para que possa deixar tão completo, como exacto, e

verdadeiro este deposito importante, que deve ser tão util, como

agradavel aos nossos vindouros.

SENHOR, rejeitando com desprezo as arrogantes escandalosas

proposições do usurpador, e fazendo abortar os seus projectos, vós

vos tendes conduzido com o heroismo, e dignidade, que competem á

Magestade da VOSSA COROA. Consultando unicamente o bem do

VOSSO povo, vos mostrastes o PAI

dos vossos vassallos. As minhas idéas propendem para esta verdade

como para o seu centro; permitti pois, que eu escreva livremente os

meus pensamentos, que elles não encontraráõ a GLORIA do

VOSSO NOME, e podem interessar á nação, e á posteridade.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 9 / 58 题