Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira.
_Com licença da Meza do Desembargo do Paço._
_INTRODUCÇÃO._
Houverão escrevedores de papel nos ultimos tempos da França degenerada,
que ousárão affirmar no excesso da sua fatuidade, que o que se
chamava systema do equilibrio da Europa, não fôra já mais, senão o da
preponderancia daquella potencia, pela superioridade, que sempre tivera
sobre todas as outras potencias Europeas. Acaso ignoravão elles, que
forão necessarias as dissensões da rosa branca, e da rosa vermelha,
para os Francezes sacudirem o jugo dos Inglezes? Que a não serem as
discordias, e a guerra civil da Alemanha, Carlos V. teria feito da
França huma das provincias do seu Imperio? Que a infanteria Hespanhola
esteve em posse de bater os exercitos Francezes, desde os tempos
famosos de Gonçalo de Cordova, até ás ultimas campanhas do Conde de
Fuentes?
A França, he verdade, foi olhada por longos tempos como huma das
principaes potencias, que figuravão no systema politico da Europa.
Henrique VIII. de Inglaterra se tinha feito pintar com huma balança nas
mãos, de que a França, e a Austria fazião os dous pratos, e com esta
lenda: _Cui adhæreo præest_; mas tambem he certo, que a primeira
nunca chegou a gozar as honras de preponderante, senão depois que Luiz
XIV. as obteve, por meio do sensivel abatimento da segunda. A politica
do Cardeal de Richelieu principiou esta grande obra, o valor, e os
talentos de Turenne, Condé, e hum grande número de Generaes illustres a
consummárão; mas não foi de longa duração. Colligárão-se a maior parte
dos Estados Europeos contra os ambiciosos projectos de Luiz XIV.; e
posto que forão inuteis, e desastrosas as primeiras confederações, por
fim, não só conseguírão abater a grandeza deste Monarca vaidoso, mas
estiverão a pontos de o precipitarem do seu proprio throno.
Succedeo-lhe seu bisneto Luiz XV., ainda menino, e a desordem, em que
se achavão as finanças, as chagas profundas, que as longas sanguinosas
guerras tinhão imprimido no Estado, juntas ás perturbações da
regencia, e a todos os males, que costumão acompanhar as minoridades
dos Principes, concorrêrão á porfia, para conservarem a França em hum
estado de perfeita languidez. Luiz XV., tornado maior, soube na verdade
aproveitar-se dos recursos naturaes da Monarquia, para lhe restituir
hum pouco de vigor; mas era hum Soberano moderado, e justo, que bem
longe de aspirar a conquistas, não tirava a espada, senão a seu pezar,
e não cessava de propôr a paz no meio das suas victorias. Depois da
batalha de Fontenoy, vendo que os montes de cadaveres, os gritos dos
moribundos, e o sangue, que tingia hum largo campo, arrancavão lagrimas
ao Delfim, voltou-se para este, e disse--_Aprendei, meu filho, quanto
a victoria he cara, e dolorosa._--_Escrevei á Hollanda_,
dizia elle a hum dos seus Ministros, _que eu não peço senão a
tranquillidade da Europa: não he a minha condição, he a dos póvos, que
eu quero fazer melhor_. Esta moderação, que talvez o embaraçou de
chegar áquelle gráo de esplendor, que podia esperar, se se conduzisse
segundo as vistas do reinado precedente, devia produzir para a França
vantagens incomparavelmente maiores, a tranquillidade, e a opulencia,
mas as despendiosas guerras, que teve de sustentar na Europa, os
revezes experimentados pela sua bandeira, e pelas suas colonias em
todos os mares, e as importunidades de cortezãos ávidos, que abusárão
da fraqueza dos seus ultimos annos, subvertêrão de novo as finanças, e
fizerão com que por sua morte transmittisse o Estado a seu neto Luiz
XVI. no mesmo gráo de abatimento, em que o herdára de seu bisavô.
A marinha se achava anniquilada, o commercio sem vigor, 78 milhões
tinhão sido consumidos por anticipação sobre as rendas públicas, o
excedente das despezas montava a 22 milhões, e os crédores desesperavão
do pagamento dos seus capitaes; e poderia então Luiz XVI. pensar em
projectos de engrandecimento? Estava reservado aos assassinos, que o
conduzirão ao cadafalso, o sujeitarem o continente ás suas leis, o
fundarem hum Imperio monstruoso de huma especie nova, que firmando-se
sobre as bases da liberdade, e igualdade, rematou no despotismo; que se
sustenta pelos mesmos principios, por onde os outros se dissolvem, a
crueza, a irreligião, e a immoralidade; que com todas as apparencias de
libertador tomou todos os caractéres de usurpador.
Melhorar, e reformar todos os ramos de administração pública, e
principalmente as finanças, foi o objecto, a que Luiz XVI. dirigio
todos os seus cuidados, desde que subio ao throno; e principiando por
huma grande economia na sua casa, por supprimir as pensões abusivas,
diminuir as pouco merecidas, por meio destas, e de outras admiraveis
providencias fez pagar 24 milhões da divida exigivel, 50 da divida
constituida, e 28 das anticipações; o crédito público principiou a
restaurar-se, e raiárão dias de prosperidade sobre o horizonte da
Monarquia Franceza.
Luiz XVI. deo talvez hum passo errado em se intrometter nas
contestações da Inglaterra com a America; mas foi arrastado pelas
opiniões do seu conselho, e implicado a seu pezar em huma guerra,
que da America se transportou bem depressa á Europa, e á qual se
attribuem as desgraças do Rei, e da nação. Parece, que o Imperador de
Alemanha José II. o tinha previsto, quando respondeo a Luiz XVI., que
o consultava sobre este negocio--_Quanto a mim o meu officio he ser
Realista_.--
Sem o apoio da França os Americanos terião provavelmente succumbido;
com elle o espirito républicano tomou raizes, e penetrando a travéz
de immensos mares, veio propagar-se no antigo mundo, e principalmente
na fogosa, e volatil nação Franceza; mas que espantosa differença nos
resultados! Os Americanos, mais sábios, do que altivos, fundárão huma
constituição admiravel, reconhecida bem depressa por toda a terra, que
tem feito a felicidade daquelles póvos; os Francezes com a presumpção
de filosofos profundos, e legisladores consummados, destruindo huma
Monarquia, que a pezar dos abusos, que são inseparaveis de todas as
instituições humanas, os tinha conservado por muitos seculos naquelle
gráo de felicidade, a que podião aspirar, nunca souberão substituir-lhe
hum governo regular; e errando longos tempos por entre os escolhos do
despotismo, e da anarquia, não tem feito senão opprimir, e destruir o
mundo.
Aquella desastrosa guerra arruinou de novo as finanças, exigio
emprestimos, e ameaçou o crédito público; mas a dissipação, o
_deficit_, e o desalento geral tinhão sido incomparavelmente
maiores nos ultimos tempos de Luiz XIV., e Luiz XV., sem produzirem
os horrores da revolução. Estes Monarcas, acabando de endividar o
Estado, morrêrão socegadamente nos seus leitos, e Luiz XVI., quando
se applicava todo a remediar a desordem produzida pela guerra, foi
desenthronisado, como dissipador, e conduzido a hum cadafalso. Como os
tempos erão mudados!
A mesma mão, que o derribou do throno, foi a que abalou todos os
governos: foi a revolução, e não o poder da França, a que destruio o
systema politico da Europa. He nas lavas deste volcão que a geração
presente deve procurar a origem das suas calamidades: he o resultado
da grande luta, em que se achão empenhados os Soberanos, e os povos,
o que deve fixar o destino das gerações futuras; e he por tanto nesta
época, que as nações Europeas devem começar a sua Historia moderna.
O quadro horroroso da revolução Franceza tem sido o objecto de muito
bons pinceis: huns tem seguido como historiadores a sua marcha
sanguinolenta, outros como filosofos se tem demorado em fazer pinturas
energicas das suas atrocidades. O meu plano he differente: eu me
limitarei a tocar aquelles factos, que tem huma relação immediata com a
invasão dos Francezes em Portugal. Quereria seguir passo a passo todas
as relações politicas, e militares, que tem havido desde então entre a
corte de Portugal, e o governo Francez; mas ainda se não levantou senão
hum canto do véo, que tem coberto huma grande parte destes successos
importantes. O tempo, que tudo revela, descobrirá em fim muitas
verdades, que o público ainda ignora; e mesmo sobre alguns factos
já conhecidos alargará os raios da estreita esféra, em que me julgo
envolvido.
Procurarei seguir a marcha dos invasores, desde que puzerão os pés
no territorio Portuguez; os seus hostís procedimentos para com hum
Soberano, e huma nação, que os não provocárão; a partida do Principe
Regente, e de toda a Real Familia para o Brasil; o modo, e os meios,
de que se servírão, para occuparem, e domarem o reino; os principaes
actos de oppressão, e espoliação, que praticárão em Portugal;
fazendo especial menção dos insultos commettidos contra a religião,
e seus ministros; o reciproco comportamento das tropas Francezas, e
Hespanholas, acompanhando os successos com aquellas reflexões, que não
são improprias do officio de Historiador. Muitas vezes eu descerei a
factos particulares, que talvez pareceráõ minuciosos, para entrarem
na Historia geral; mas que sem dúvida tem lugar no meu plano, porque
me proponho a dar a conhecer o caracter da invasão, o espirito, e os
costumes dos invasores.
Passarei depois a referir os principaes acontecimentos da restauração
do reino, consequencia immediata dos successos da Hespanha, e da
fermentação, em que se achava o povo Portuguez, pela sua natural
adhesão ao antigo governo, e á Familia Reinante, pela lembrança da sua
felicidade preterita, e pelo sentimento das suas desgraças presentes.
A luta dura ainda, e não me he licito prever, até onde me conduzirá o
fio dos successos, e qual será a extensão da minha obra. Se eu quizesse
fazer especial menção de todos os illustres Portuguezes, que fizerão
serviços importantes á patria nesta gloriosa empreza, a minha Historia
ficaria sendo huma collecção de nomes; com tudo eu procurarei tirar
do esquecimento os mais distinctos d’entre elles: os libertadores da
patria são dignos de recommendar-se ao reconhecimento do Soberano, e da
nação, e seus nomes de serem transmittidos á posteridade com a gloria,
que lhes he devida. Não farei differença de grandes a pequenos: pelas
acções he que os homens se illustrão: o heroismo, e a virtude fazem a
verdadeira grandeza.
As leis da Historia, que por huma parte prohibem o silencio sobre
os factos mais interessantes, e por outra exigem do historiador a
verdade, e a imparcialidade, como o primeiro, e o mais essencial
dos seus deveres, me obrigaráõ, bem a meu pezar, a referir alguns
successos, ou circumstancias, que não poderáõ agradar a alguns dos meus
compatriotas. Não o praticarei já mais, sem huma circumspecção tanto
maior, e hum exame tanto mais apurado, quanto os factos forem mais
importantes; não podendo porém jactar-me de ter conseguido, o que he
impossivel, huma evidencia mathematica em objectos, que não tem outro
fundamento, que a fé humana, peço a todos aquelles, que se julgarem
offendidos pela minha pena, que em lugar de me accusarem de impostor,
ou parcial, queirão fazer-me conhecer os erros, em que eu possa ter
cahido; e pela minha docilidade em emendal-los conheceráõ elles, e
conhecerá o mundo, que não sou dirigido por outros motivos, nem animado
por outros desejos, que os de conservar, e transmittir á posteridade
memorias fiéis, e circumstanciadas do que se passou em Portugal nesta
época memoravel da nossa Historia. Publíco já o I. tomo, e irei
successivamente publicando os mais, á proporção que os for escrevendo,
para poder emendar nos subsequentes tudo o que se me mostrar, que he
digno de correcção nos precedentes; e rogo aos meus compatriotas, que
me assistão para este fim com os seus conhecimentos.
Julgo não ter offendido nem o mais levemente ao meu Augusto, e Amado
Soberano, aos seus respeitaveis Ministros, e ás illustres Personagens,
que no seu Real Nome compõe hoje o governo de Portugal; mas se eu me
engano, principio por supplicar-lhes o perdão desta culpa involuntaria,
e ouso pedir-lhes com confiança, queirão auxiliar-me com os soccorros
possiveis, para que possa deixar tão completo, como exacto, e
verdadeiro este deposito importante, que deve ser tão util, como
agradavel aos nossos vindouros.
SENHOR, rejeitando com desprezo as arrogantes escandalosas
proposições do usurpador, e fazendo abortar os seus projectos, vós
vos tendes conduzido com o heroismo, e dignidade, que competem á
Magestade da VOSSA COROA. Consultando unicamente o bem do
VOSSO povo, vos mostrastes o PAI
dos vossos vassallos. As minhas idéas propendem para esta verdade
como para o seu centro; permitti pois, que eu escreva livremente os
meus pensamentos, que elles não encontraráõ a GLORIA do
VOSSO NOME, e podem interessar á nação, e á posteridade.