São horas, tudo está prompto;
todos seguem p'ra capella.
Na frente caminha ella
pelo braço da madrinha;
logo atraz Pedro, Simão,
Medeiros, uma sobrinha
do vigario, e a multidão
que caminha alegremente
em ruidosa confusão.
Era um quadro interessante
de belleza original
o que eu vi naquelle instante:
cabeças brancas de neve,
rostos graves enrugados
pendidos p'ra sepultura,
a par de frontes divinas,
de olhos meigos namorados
derramando mocidade!
Oh! como é bella essa idade
em que tudo é só prazer!
em que a existencia é um sorriso,
em que o amor é um paraiso,
em que o sonhar é viver!
O grupo entrou na capella
ajoelhou-se, benzeu-se,
resou e depois ergueu-se
e cochichava em segredo;
mas callou-se de repente
quando o padre appareceu.
Margarida estremeceu
e disse machinalmente:
«Agora vou ser feliz.»
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Estava emfim realisado
aquelle sonho dourado
de su'alma casta e pura!
a embriaguez da ventura
tornava-a mais que divina!
aquellas faces rosadas
levemente afogueadas
de prazer e commoção,
traziam-lhe tal encanto,
que eu creio que até um santo
succumbia á tentação!
Era finda a ceremonia.
Pedro, qu'inda não fallara,
por pouco não desmaiara
nos braços do fazendeiro,
fulminado de alegria!
e no sorriso nervoso
que d'alma aos labios lhe vinha,
quem é que não traduzia
o que n'alma o pobre tinha?
Passados alguns momentos,
já depois dos comprimentos
de todos que os rodeavam,
sahiram de braços dados
sob uma chuva de flôres
que em cima lhe despejavam
á porfia, os convidados.
Chegados todos á casa,
Simão e Pedro de um lado
á meia voz conversavam.
Dizia o velho alquebrado:
«Nesta filha que te entrego,
dou-te tudo quanto tenho,
dou-te os olhos, fico cégo,
mas risonho e satisfeito...
eu já estava tão affeito
que não sei como sem elles
eu possa agora viver!...
ella era o sol bemfazejo
ao qual eu me ia aquecer;
porém fico descansado,
porque em ti achou arrimo....
eu somente o que lastimo
é ser velho e não ter nada,
não p'ra mim que não preciso,
era por ella, coitada!
que é um anjo como tu sabes.
Olha, Pedro, eu só te peço,
se alguma cousa mereço,
que trates bem minha filha!
minha pobre Margarida!
Ella ha de adoçar-te a vida
porque é muito carinhosa,
e como foi boa filha
deve ser tambem esposa.»
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E em quanto o velho fallava
da filha por quem vivia,
dos olhos se lhe escapava
uma baga que rolava
e na barba se escondia.