I
Oh tu quem quer que sejas, meu leitor,
attende ao que te digo: a ti o auctor
começa por te dar os parabens
da somma de pachorra que tu tens,
se leste esse arremedo de poesia
sem arte, sal, perfumes e harmonia,
que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som.
Já vejo que és rapaz prudente e bom...
desculpa o tratamento... as etiquetas
exigem luva branca e roupas pretas;
mas isto é muito bom p'ra deputados,
que vivem simplesmente de apoiados
e gastam excellencia a tres por dois...
coitados! são mal pagos... e depois
sujeitos a caprichos de ministros....
ás vezes trazem rostos tão sinistros,
que chego a ter de véras compaixão...
Mas dizem que são filhos da eleição?!
a culpa é então da mãi que os deu á luz,
que tinha atraz da porta aquella cruz,
envolta n'um programma e mil projectos
p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!...
Sê franco, meu leitor, se estou massando,
arrólho a discussão e vou tratando
do resto d'esta historia que encetei...
Palavra, que não sei onde fiquei...
Mas... eu te escrevo em mangas de camisa;
não olhes p'ra o meu trage... quem precisa
pendura com cuidado o paletot,
depois de sacudir-lhe bem o pó,
e fica assim á fresca muito bem.
Quem poupa, meu amigo, sempre tem!
não achas que é verdade, ó maganão?
pois folgo com a tua opinião.
As cousas andam más, tudo está caro!
o cobre, santo Deus! anda tão raro!...
ao menos lá por casa é uma desgraça!
por mais que se trabalhe ou que se faça,
por mais que se amofine uma pessoa,
vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa,
Fallemos n'outra cousa, as digressões
arredam sempre o fio ás discussões.
Entremos na materia francamente,
vejamos o que é feito desta gente.