CANTO SEGUNDO

I

Oh tu quem quer que sejas, meu leitor,

attende ao que te digo: a ti o auctor

começa por te dar os parabens

da somma de pachorra que tu tens,

se leste esse arremedo de poesia

sem arte, sal, perfumes e harmonia,

que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som.

Já vejo que és rapaz prudente e bom...

desculpa o tratamento... as etiquetas

exigem luva branca e roupas pretas;

mas isto é muito bom p'ra deputados,

que vivem simplesmente de apoiados

e gastam excellencia a tres por dois...

coitados! são mal pagos... e depois

sujeitos a caprichos de ministros....

ás vezes trazem rostos tão sinistros,

que chego a ter de véras compaixão...

Mas dizem que são filhos da eleição?!

a culpa é então da mãi que os deu á luz,

que tinha atraz da porta aquella cruz,

envolta n'um programma e mil projectos

p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!...

Sê franco, meu leitor, se estou massando,

arrólho a discussão e vou tratando

do resto d'esta historia que encetei...

Palavra, que não sei onde fiquei...

Mas... eu te escrevo em mangas de camisa;

não olhes p'ra o meu trage... quem precisa

pendura com cuidado o paletot,

depois de sacudir-lhe bem o pó,

e fica assim á fresca muito bem.

Quem poupa, meu amigo, sempre tem!

não achas que é verdade, ó maganão?

pois folgo com a tua opinião.

As cousas andam más, tudo está caro!

o cobre, santo Deus! anda tão raro!...

ao menos lá por casa é uma desgraça!

por mais que se trabalhe ou que se faça,

por mais que se amofine uma pessoa,

vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa,

Fallemos n'outra cousa, as digressões

arredam sempre o fio ás discussões.

Entremos na materia francamente,

vejamos o que é feito desta gente.

Scenas da Roça: Poema de costumes nacionaes · 第 30 / 48 题