«--Que é isto, minha louquinha?
quem é que falla em morrer?!
viste um espinho na vida
e já te cança o viver!
Nas tuas suppostas dôres
só recordas-te os amores,
mas esqueceste teu pai!...
Margarida, és muito ingrata!...
queres matal-o?... pois mata!
vae pedir a morte, vae!
«Ao pobre e cançado velho
que vive do teu carinho,
em vez de beijos e abraços,
crava-lhe n'alma um espinho!
Arrufos de um namorado
valem mais que um velho honrado?!
Pensas bem, minha afilhada!..
vaes morrer? não te demores!
mas o que é isto? não chores!
que vale um pai?... quasi nada!
«--Misericordia, madrinha!
não falle assim que enlouqueço!
meu Deus! qual foi o meu crime
que tal castigo mereço?!
--Teu crime é não ter juizo....
e sabes o que é preciso?
é: pedir a Deus perdão.
Limpa esses olhos, menina!
a gente assim se amofina;
tu choras sem ter rasão!
«--Mas elle está mal commigo
e meu pai nem o quer ver!
--Cala a boca, te prometto
que tudo se ha-de fazer.
Socega, filha: descança,
se ainda tens confiança
na tua velha madrinha!
Amanhã em santa paz
tudo se arranja e se faz;
vae dormir, minha louquinha?»