IX

O todo se emmuldura em matto virgem;

arbustos mil em flôr dão-lhe a fragancia,

e o fundo do painel é verde-escuro

da côr de um cafesal visto á distancia.

Por entre as pedras soltas de seu leito,

o rio serpenteia murmurando.

De um lado a horta, o engenho, alguns pomares,

do outro, os animaes que estão pastando.

Aqui o mandiocal n'um morro enorme,

naquelles á direita, é o cafesal;

ha uma socca de arroz junto do brejo

e da cerca p'ra lá, o cannavial.

No centro, n'uma dobra do terreno,

a casa que é voltada p'ra o nascente;

precede-lhe o jardim, primor de gosto

que a abraça pela esquerda e pela frente.

Ao fundo em duas ruas parallelas

a casa da farinha, a do feitor,

paióes, estrebarias e senzallas,

o tanque, o gallinheiro, e corador.

Olhando p'ra direita vê-se a escada

que tem de cada lado uma mangueira,

o campo e o caminho em linha recta,

que da casa vae parar junto á porteira.

Concebe o quadro lá como puderes!

eu dou-te aqui apenas um bosquejo,

querel-o completar fôra loucura,

se bem que fosse grande o meu desejo.

Lá chega o rancho enorme e folgasão

que vem p'ra festejar o S. João.

De quatro leguas em roda,

toda aquella visinhança

veio assistir á festança

da noite de S. João.

O povo da freguezia

quazi todo nesse dia,

ia como em romaria

pandegar por devoção.

Como é uso admittido,

a pessôa convidada

leva roupa preparada

para quatro ou cinco dias!...

lá na roça a moda é esta;

qualquer pagode, não presta

sem a semana de festa,

de intermináveis folias!

Subindo e descendo morros,

n'um carro por bois puchado,

n'um tunel improvisado

de arcos e de uma esteira,

de uma fazenda visinha

a passo lento caminha

a familia que se aninha

n'essa amavel capoeira.

Atraz os negros da casa

Tão carregando os bahus,

sem camisa, quazi nús,

e alagados de suor;

ao lado caminha a passo,

n'um lindo macho picaço,

o fazendeiro ricaço

que vae morto de calor.

Os filhos vão a cavallo.

Na frente caminha o pagem,

que sem esse personagem

na roça não se é ninguem!

É um negro de confiança

em quem o Senhor descança,

que exerce desde criança

o cargo honroso que tem.

Usa jaqueta de vivos,

chapeo baixo de oleado,

topete bem penteado,

canos de bota e chilenas;

é o mensageiro de amores

dos filhos de seus senhores;

leva cartinhas e flôres

para entregar ás pequenas.

O pagem da roça é um typo

de serio e acurado estudo,

sabe um bocado de tudo

quanto se deve saber.

É ferrador, é selleiro,

carapina e corrieiro,

é peão e no terreiro

requebra um fado a valer.

Aqui um rancho de moças

vae a pé, moram tão perto!...

são duas leguas, é certo,

mas diz-se na roça:--é ali.

E por toda aquella estrada

vê-se gente a pé, montada,

e outra que já cançada

bebe á sombra paraty.

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X

Terminou-se o jantar, é noite escura;

com fachos de sapé ligeiros correm

os moços dando vivas.

Accende-se a fogueira e em torno a ella

vão sentar-se alegres, descuidosos,

os grupos de convivas.

Aqui tomam garapa em lisas cuias,

os velhos, que disputam seriamente

ácerca de eleições,

ou fallam do café que está sem preço,

nos gastos da lavoura e poucos lucros

de suas transacções.

Ali as moças todas reunidas

dissertam sobre amor e namorados

com tal proficiencia,

como um lente, jubilado na materia,

derramando em qualquer academia

a luz da experiencia.

Não longe os rapazes formam grupos:

uns são republicanos exaltados

e outros monarchistas;

e outros sem partido, olhando as moças,

a morrer de amor por ellas, contam rindo

amores e conquistas.

É tudo animação, prazer e vida...

aqui um bello dito, ali vozes confusas,

gostosas gargalhadas;

estouram buscapées, rebentam bombas,

foguetes e balões erguem-se aos ares

no meio de apupadas.

Scenas da Roça: Poema de costumes nacionaes · 第 16 / 48 题