O todo se emmuldura em matto virgem;
arbustos mil em flôr dão-lhe a fragancia,
e o fundo do painel é verde-escuro
da côr de um cafesal visto á distancia.
Por entre as pedras soltas de seu leito,
o rio serpenteia murmurando.
De um lado a horta, o engenho, alguns pomares,
do outro, os animaes que estão pastando.
Aqui o mandiocal n'um morro enorme,
naquelles á direita, é o cafesal;
ha uma socca de arroz junto do brejo
e da cerca p'ra lá, o cannavial.
No centro, n'uma dobra do terreno,
a casa que é voltada p'ra o nascente;
precede-lhe o jardim, primor de gosto
que a abraça pela esquerda e pela frente.
Ao fundo em duas ruas parallelas
a casa da farinha, a do feitor,
paióes, estrebarias e senzallas,
o tanque, o gallinheiro, e corador.
Olhando p'ra direita vê-se a escada
que tem de cada lado uma mangueira,
o campo e o caminho em linha recta,
que da casa vae parar junto á porteira.
Concebe o quadro lá como puderes!
eu dou-te aqui apenas um bosquejo,
querel-o completar fôra loucura,
se bem que fosse grande o meu desejo.
Lá chega o rancho enorme e folgasão
que vem p'ra festejar o S. João.
De quatro leguas em roda,
toda aquella visinhança
veio assistir á festança
da noite de S. João.
O povo da freguezia
quazi todo nesse dia,
ia como em romaria
pandegar por devoção.
Como é uso admittido,
a pessôa convidada
leva roupa preparada
para quatro ou cinco dias!...
lá na roça a moda é esta;
qualquer pagode, não presta
sem a semana de festa,
de intermináveis folias!
Subindo e descendo morros,
n'um carro por bois puchado,
n'um tunel improvisado
de arcos e de uma esteira,
de uma fazenda visinha
a passo lento caminha
a familia que se aninha
n'essa amavel capoeira.
Atraz os negros da casa
Tão carregando os bahus,
sem camisa, quazi nús,
e alagados de suor;
ao lado caminha a passo,
n'um lindo macho picaço,
o fazendeiro ricaço
que vae morto de calor.
Os filhos vão a cavallo.
Na frente caminha o pagem,
que sem esse personagem
na roça não se é ninguem!
É um negro de confiança
em quem o Senhor descança,
que exerce desde criança
o cargo honroso que tem.
Usa jaqueta de vivos,
chapeo baixo de oleado,
topete bem penteado,
canos de bota e chilenas;
é o mensageiro de amores
dos filhos de seus senhores;
leva cartinhas e flôres
para entregar ás pequenas.
O pagem da roça é um typo
de serio e acurado estudo,
sabe um bocado de tudo
quanto se deve saber.
É ferrador, é selleiro,
carapina e corrieiro,
é peão e no terreiro
requebra um fado a valer.
Aqui um rancho de moças
vae a pé, moram tão perto!...
são duas leguas, é certo,
mas diz-se na roça:--é ali.
E por toda aquella estrada
vê-se gente a pé, montada,
e outra que já cançada
bebe á sombra paraty.
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X
Terminou-se o jantar, é noite escura;
com fachos de sapé ligeiros correm
os moços dando vivas.
Accende-se a fogueira e em torno a ella
vão sentar-se alegres, descuidosos,
os grupos de convivas.
Aqui tomam garapa em lisas cuias,
os velhos, que disputam seriamente
ácerca de eleições,
ou fallam do café que está sem preço,
nos gastos da lavoura e poucos lucros
de suas transacções.
Ali as moças todas reunidas
dissertam sobre amor e namorados
com tal proficiencia,
como um lente, jubilado na materia,
derramando em qualquer academia
a luz da experiencia.
Não longe os rapazes formam grupos:
uns são republicanos exaltados
e outros monarchistas;
e outros sem partido, olhando as moças,
a morrer de amor por ellas, contam rindo
amores e conquistas.
É tudo animação, prazer e vida...
aqui um bello dito, ali vozes confusas,
gostosas gargalhadas;
estouram buscapées, rebentam bombas,
foguetes e balões erguem-se aos ares
no meio de apupadas.