Na fazenda do Tymbira
era velha a devoção
de fazer-se grande festa
em dias de S. João.
O velho Joaquim Medeiros,
que era a flôr dos fazendeiros
d'aquella localidade,
esfregava as mãos contente
quando via em casa gente
a que o prendia a amizade.
D. Olympia, sua esposa;
mãi dos pobres do logar,
tres dias antes da festa
não parava a trabalhar.
Mandava as suas mucamas
dos quartos fazer as camas,
espanar tudo e varrer,
e, doceira de bom gosto,
lá estava firme no posto,
fazendo o tacho ferver.
Fazia doce de côco,
laranja, cidra, limão,
bom-bocado, arroz de leite,
bolinhos de S. João,
pamonha, cus-cus de milho,
manouê, biju, sequilho,
biscoutinhos de araruta,
tarécos, baba-de-moça,
e, mil doces que na roça
se fazem de toda a fructa.
No terreiro da fazenda
preparava-se a fogueira,
e o mastro todo enfeitado
de folhagens de mangueira;
e dentre as folhas escuras
sahiam fructas maduras,
como é o costume geral,
e uma boneca vistosa
de vestido côr de rosa,
fazia o tópe final.
No campo desde a porteira
de verde murta vestida,
duas linhas de coqueiros
vem a porta da saida.
De um lado a outro correndo,
dirigindo ou desfazendo
o que não estava direito,
andava o rei dos festeiros
o nosso velho Medeiros
sempre alegre e satisfeito.
«--Vamos com isso, rapazes,
que temos mais que fazer
e d'aqui por uma hora
ninguem se póde mecher.
Joaquina e Manuela,
vocês vão lá p'ra capella
capinar ali na frente.
Olá, moleque, ó vadio!
chega ali embaixo no rio,
vê se vem alguma gente.
«Vicente, traze as bandeiras,
vai tu com elle, Francisco;
Manuel, varre p'ra um canto
e apanha depois o cisco.
Não quero ver uma palha!...
veja depois como espalha
essas folhas de mangueira!...
Ó Job, pergunta á sinhá
se já tem café por lá,
que mande aqui na porteira.»