Rubião, desde o dia da crise ministerial, não tornou á casa de D.
Fernanda; nada soube, nem da presidencia, nem do embarque de Theophilo.
Vivia entre o cão e um creado, sem grandes crises, nem longos repousos.
O creado fazia o serviço irregularmente, comia gratificações, e
recebia, a miudo, o titulo de marquez. Ao demais, divertia-se. Quando
lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o creado corria a
espial-o; assistia ao dialogo, porque o Rubião incumbia-se das palavras
dellas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite,
ia á palestra com os amigos da visinhança.
--Como vae o gira?
--O gira vae bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro
ladrau muito, e elle gostou que se pellou, mas assim um gosto de
figurão. Elle, quando está de pancada, parece que é como quem governa o
mundo. Ainda hontem, almoçando, fallou para mim: «Marquez Raymundo...
quero que tu ..» e embrulhou o resto, que não entendi nada. No fim
deu-me dez tostões.
--Você guardou logo...
--Ora!
Quando Rubião voltava do delirio, toda aquella fantasmagoria palavrosa
tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciencia, onde
ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegal-os de si. Era
como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abysmo, trepando pelas
paredes, arrancando a pelle, deixando as unhas, para chegar a cima,
para não cahir outra vez e perder-se. Ia então á visita dos amigos, uns
novos, outros velhos, como a gente do major e a do Camacho, por exemplo.
Este, desde algum tempo, era menos conversado. A mesma politica não
lhe dava materia aos discursos de outr'ora. No escriptorio, quando via
Rubião assomar á porta, fazia um gesto de impaciencia, que soffreava
logo; o outro notava essa mudança, e perdia-se em conjecturas, se lhe
sahira alguma offensa, por descuido--ou se começava a aborrecel-o.
E para desfazer o tedio ou o resentimento, fallava macio, risonho,
abrindo longas pausas respeitosas, á espera que elle dissesse qualquer
cousa. Em vão appellava para o marquez de Paraná, cujo retrato
continuava a pender da parede; repetia os nomes que lhe ouvira,--o
grande marquez! o estadista consummado! Camacho ia apoiando de cabeça,
e escrevendo sem parar, consultando os autos e os praxistas, Lobão,
Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo-lhe desculpa. Tinha um
libello que dar naquelle dia. Interrompia-se para ir á estante.
--Com licença...
Rubião arredava as pernas para deixal-o passar; elle tirava um volume
das Ordenações do Reino, e folheava, folheava, pulando adiante,
voltando atraz, atoa, sem buscar nada, unicamente para o fim de
despedir o importuno; mas o importuno ia ficando, por isso mesmo, e
entreolhavam-se disfarçados. Camacho tornava ao libello. Para ler,
sentado, inclinava-se muito á esquerda, donde lhe vinha a luz, dando as
costas ao Rubião.
--Aqui é escuro, aventurou Rubião um dia.
E não ouviu resposta, tão attento parecia o advogado na leitura
dos autos. Realmente, póde ser importunação, pensou o nosso amigo.
Espreitava-lhe o rosto duro e serio, o gesto com que pegava da penna
para continuar o interminavel libello. Vinte minutos mais de silencio
absoluto. No fim desse prazo, Rubião viu-o deixar a penna, retesar o
busto, esticar os braços e passar as mãos pelos olhos. Disse-lhe com
interesse:
--Cançado, não?
Camacho fez um gesto afirmativo, e preparou-se para continuar; então o
nosso homem levantou-se e aproveitou o intervallo para dizer adeus.
--Voltarei, quando estiver menos atarefado.
Estendeu lhe a mão; Camacho segurou-lh'a ao de leve, e tornou ao papel.
Rubião desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu illustre
amigo. Que lhe teria feito?