CAPITULO CLXIX

A volta de Carlos Maria e da mulher interrompeu as preoccupações de

D. Fernanda, relativamente a Rubião. Esta foi a bordo recebel-os,

conduziu-os á Tijuca, onde um velho amigo da familia de Carlos Maria

alugára e trastejára uma casa, por ordem delle. Sophia não foi a bordo;

mandou o _coupé_ esperal-os no caes Pharoux, mas D. Fernanda já alli

tinha uma caleça, que os levou, e mais a ella e ao Palha. De tarde,

Sophia foi visitar os recem-chegados.

D. Fernanda não cabia era si de contente. As cartas de Maria Benedicta

os davam por felizes; ella não poude ler desde logo nos olhos e nas

maneiras do casal a confirmação do escripto. Pareciam satisfeitos.

Maria Benedicta não reteve as lagrimas, quando abraçou a amiga, nem

esta as suas, e ambas se apertaram como duas irmãs de sangue. No

dia seguinte, quando puderam fallar a sós, D. Fernanda perguntou a

Maria Benedicta se ella e o marido eram felizes, e, sabendo que sim,

pegou-lhe nas mãos e fitou-a longamente sem achar palavra. Não logrou

mais que repetir a pergunta:

--Vocês são felizes?

--Somos, respondia Maria Benedicta.

--Não sabe que bem me faz a sua resposta. Não é só porque eu teria

remorsos, se vocês não tivessem a felicidade que eu imaginei dar-lhes,

mas tambem por que é bem bom ver os outros felizes. Elle gosta de você

como no primeiro dia?

--Creio que mais, porque eu o adoro.

D. Fernanda não entendeu esta palavra. _Creio que mais, por que eu o

adoro!_ Era verdade, a conclusão não parecia estar nas premissas; mas

era o caso de emendar outra vez Hamlet: «Ha entre o céo e a terra,

Horacio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vã _dialectica_».

Pobre D. Fernanda! Não conhecia o poeta, e provavelmente não se

conhecia a si, que era ainda o meio mais seguro de decifrar a palavra

obscura de Maria Benedicta. Esta começou a contar-lhe a viagem, a

desfiar as suas impressões e reminiscencias; e, como o marido viesse

ter com ellas, pouco depois, recorria á memoria delle para preencher as

lacunas.

--Como foi, Carlos Maria?

Carlos Maria lembrava, explicava, ou rectificava, mas sem interesse,

quasi impaciente. Adivinhára que Maria Benedicta acabava de confiar á

outra as suas venturas, e mal podia encobrir o effeito desagradavel que

isto lhe trazia. Para que dizer que era feliz com elle, se não podia

ser outra cousa? E porque divulgar os seus carinhos e palavras, as suas

misericordias de deus grande e amigo?

A volta ao Rio de Janeiro foi uma condescendencia sua. Maria Benedicta

queria ter aqui o filho; o marido cedeu,--a custo, mas cedeu. A custo,

por que? É difficil explical-o, não menos que entendel-o. Relativamente

á maternidade, Carlos Maria tinha ideias pessoaes e singulares,

reconditas, não confiadas a ninguem. Achava impudica a natureza em

fazer da gestação humana um phenomeno publico, franco ás vistas,

crescente até ao aleijão, suggestivo até ao desrespeito. D'ahi vinha

o desejo da solidão, do mysterio e da ausencia. Viveria de boamente

os ultimos tempos no interior de uma casa unica, posta no alto de um

morro, vedada ao mundo, donde a mulher baixasse um dia com o filho nos

braços e a divindade nos olhos.

Não fez sobre isto nenhuma proposta á mulher. Teria de discutir, e

elle não gostava de discutir; preferia ceder. Maria Benedicta tinha

naturalmente o sentimento contrario: considerava-se a si mesma um

templo divino e recatado, em que vivia um deus, filho de outro deus.

A gestação ia cheia de tedios, de dores, de incommodos que ella

occultava o mais que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preço

á creaturinha futura. Acolhia o mal com resignação,--se não é que o

agasalhava com alegria,--uma vez que era a condição da vinda do fructo.

Fazia cordialmente o officio da especie. E repetia sem palavras a

resposta de Maria de Nazareth: «Eu sou a serva do Senhor; faça-se em

mim a sua vontade».

Quincas Borba · 第 183 / 218 题