CAPITULO CLXVII

--Conversei com o homem; achei-lhe ideias delirantes. Comquanto

não seja alienista, acho que póde ficar bom... Mas quer saber uma

descoberta interessante?

--Crê que fique bom? disse D. Fernanda, sem attender á pergunta do Dr.

Falcão.

Era deputado o Dr. Falcão, deputado e medico, amigo da casa, varão

sabedor, sceptico e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor de

examinar o Rubião, pouco depois que este se transportou para a casa da

rua do Principe.

--Sim, creio que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Póde

ser que a doença não tenha antecedentes na familia. Mande ver um

especialista. Mas não quer saber a minha interessante descoberta?

--Qual é?

--Talvez tenha parte na molestia uma pessoa sua conhecida, respondeu

elle sorrindo.

--Quem?

--D. Sophia.

--Como assim?

--Elle fallou-me della com enthusiasmo, disse-me que era a mais

esplendida mulher do mundo, e que a nomeára duqueza, por não poder

nomeal-a imperatriz; mas que não brincassem com elle, que era capaz de

fazer como o tio, divorciar-se e casar com ella. Conclui que terá tido

paixão pela moça; mas pode ser alguma cousa mais. Falla della com tal

intimidade, Sophia para aqui, Sophia para alli... Desculpe-me, mas eu

creio que os dois se amaram...

--Oh! não!

--D. Fernanda, creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheço;

a senhora parece que não a conhece ha muito tempo, nem viveu na

intimidade della. Póde ser que se tivessem amado, e que alguma paixão

violenta... Supponhamos que ella o mandasse pôr fóra de casa... É

verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se póde juntar...

D. Fernanda não olhava para elle, vexada de lhe ouvir aquella

supposição; evitava discutil-a pelo melindre do assumpto. Achava a

suspeita sem fundamento, absurda, inverosimil; não chegaria a crer

naquelle amor espurio, ainda que o ouvisse ao proprio Rubião. Um

desvairado, em summa. Quando o não fosse, é ainda provavel que lhe não

desse fé. Sim, não lhe daria fé. Não podia crer que Sophia houvesse

amado aquelle homem, não por elle, mas por ella, tão correcta e pura.

Era impossivel. Quiz defendel-a; mas, apezar da intimidade do Dr.

Falcão, recuou segunda vez do assumpto, e repetiu a pergunta de ha

pouco:

--Parece-lhe então que elle pode ficar bom?

--Póde, mas não basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas, é

melhor um especialista.

Pouco depois, saindo á rua, Falcão sorria da resistencia de D. Fernanda

em acceitar a sua hypothese. «Com certeza, houve alguma cousa, dizia

elle comsigo; boa cara, e, si não é um petimetre, é apessoado, e tem

fogo nos olhos. Com certeza...» E repetia algumas phrases de Rubião,

evocava o gesto e a modulação terna da voz com que fallava de Sophia,

e cada vez mais se lhe ia aggravando a suspeita, «Com certeza...» Era

já impossivel que se não tivessem amado; a opposição de D. Fernanda

parecia-lhe ingenua,--se não era antes um recurso para desconversar e

não tocar na materia. Havia de ser isso...

Neste ponto, sem querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova

assaltara-lhe o espirito. Apoz alguns instantes rapidos, abanou a

cabeça voluntariamente, como a desmentir-se, como a achar-se absurdo,

e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que occupa deveras o

interior do homem, não faz caso da cabeça nem dos seus gestos. «Quem

sabe se D. Fernanda não suspirou tambem por elle? Essa dedicação

não seria um prolongamento de amor, etc.?» E assim foram nascendo

perguntas, que achavam no intimo do Dr. Falcão resposta affirmativa.

Resistiu ainda, era amigo da casa, tinha respeito a D. Fernanda,

conhecia-a honesta; mas,--ia pensando,--bem podia ser que um sentimento

occulto, recatado,--quem sabe até se provocado pela mesma paixão da

outra...? Ha dessas tentações. O contagio da lepra corrompe o mais puro

sangue; um triste bacillo destróe o mais robusto organismo.

Pouco a pouco, as velleidades de resistencia foram cedendo á noção da

possibilidade, da probabilidade e da certeza. Em verdade, tinha noticia

de algumas obras de caridade de D. Fernanda; mas aquelle caso era novo.

Essa dedicação especial a um homem que não era familiar da casa, nem

velho amigo, nem parente, adherente, collega do marido, qualquer cousa

que o fizesse participe da vida domestica, pelas relações, pelo sangue

ou pelo costume não era explicavel sem algum motivo secreto. Amor,

seguramente; curiosidade de mulher honesta, que póde descambar no vicio

e no remorso. Aquella teria recuado a tempo; ficou-lhe a sympathia

morbida... E d'ahi, quem sabe?

Quincas Borba · 第 181 / 218 题