Tudo se fez socegadamente. Palha alugou uma casinha na rua do Principe,
cerca do mar, onde metteu o nosso Rubião, alguns trastes e o cachorro
amigo. Rubião acceitou a mudança sem desgosto, e, desde que lhe tornou
o delirio, com enthusiasmo. Estava nos seus paços de S. Cloud.
Não succedeu assim aos amigos da casa, que receberam a noticia da
mudança como um decreto de exilio. Tudo na antiga habitação fazia
parte delles, o jardim, a grade, os canteiros, os degraus de pedra,
a enseada. Traziam tudo de cór. Era entrar, pendurar o chapeu, e ir
esperar na sala. Tinham perdido a noção da casa alheia e do obsequio
recebido. Depois, a visinhança. Cada um daquelles amigos do Rubião
estava affeito a ver as pessoas do logar, as caras da manhã e as da
tarde, alguns chegavam a comprimental-as, como aos seus proprios
visinhos. Paciencia! iriam agora para Babylonia, como os desterrados de
Sião. Onde quer que estivesse o Euphrates, achariam salgueiros em que
pendurassem as harpas saudosas,--ou mais propriamente, cabides em que
puzessem os chapéos. A differença entre elles e os prophetas é que, ao
cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam
com a mesma graça e força; cantariam os velhos hymnos, tão novos como
no primeiro dia, e Babel acabaria por ser a mesma Sião, perdida e
resgatada.
--O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha,
em Botafogo, na vespera da mudança. Hão de ter reparado que não anda
bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confusão, vae
tratar-se, por emquanto é preciso que descance. Arranjai-lhe uma casa
pequena, mas póde ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento
de saude.
Ouviram attonitos. Um delles, o Pio, voltando a si mais depressa que os
outros, respondeu que ha mais tempo se devia ter feito aquillo; mas,
para fazel-o, era preciso ter influencia decisiva no animo de Rubião.
--Muitas vezes lhe disse, por boas maneiras, que era indispensavel
consultar um medico, por me parecer que tinha alguma cousa no
estomago... Era um modo de desviar o sentido, comprehende? Mas elle
respondia sempre que não tinha nada, diggeria bem...--«Mas come menos,
dizia-lhe eu; ha dias em que não come quasi nada; está mais magro,
um pouco amarello...» Comprehende que não podia dizer-lhe a verdade.
Cheguei a fallar a um medico, meu amigo; mas o nosso bom Rubião não o
quiz receber.
Os outros quatro iam confirmando de cabeça toda aquella invenção; era o
mais que se lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento
do golpe. Acabaram perguntando o numero da nova casa, para irem saber
delle. Pobre amigo! Quando se arrancaram dalli, e se despediram uns
dos outros, deu-se um phenomeno com que não contavam; é que elles
mesmos mal podiam separar-se. Não que os ligasse amizade nem estima;
o proprio interesse os fazia antipathicos. Mas o costume de se verem
todos os dias, ao almoço e ao jantar,--á mesma mesa, como que os tinha
fundido uns nos outros; a necessidade os fez supportaveis, o tempo os
tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos de cada um que
iam padecer com a ausencia das caras de uso, do gesto, das soiças,
dos bigodes, da calva, dos sestros particulares, do modo de comer,
de fallar e de estar dos companheiros. Era mais que separação, era
desarticulação.