Quando desceu da lua, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos
queixos. Correu ao espelho e verificou que a differença entre a cara
barbada e a cara lisa era grande mas que, assim lisa, não lhe afiava,
mal. Os comensaes chegaram á mesma conclusão.
--Está perfeitamente bem! Ha muito que devia ter feito isso. Não é que
as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; mas, assim como está
agora, tem o que tinha, e mais um tom moderno...
--Moderno, repetiu o amphytrião.
Fóra, egual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto
lhe ia melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto
julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem no amigo, ponderou
que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma,
cuja firmeza e constancia devia reproduzir.
--Não é por lhe fallar de mim, concluiu; mas, nunca me hade ver a
cara de outro modo. É uma necessidade moral da minha pessoa. Minha
vida, sacrificada aos principios,--porque eu nunca tentei conciliar
principios, mas homens,--minha vida, digo, é uma imagem fiel da minha
cara, e vice-versa.
Rubião ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia ser
assim por força. Sentia-se então imperador dos francezes, incognito,
de passeio; descendo á rua, voltou ao que era. Dante, que viu tantas
cousas extraordinarias, affirma ter assistido no inferno ao castigo
de um espirito florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de
tal modo, e tão confundidos ficaram, que afinal já se não podia
distinguir bem se era um ente unico, se dous. Rubião era ainda dous.
Não se misturavam nelle a propria pessoa com o imperador dos francezes.
Revesavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião,
não passava do homem do costume. Quando subia a imperador, era só
imperador. Equilibravam-se, um sem outro, ambos integraes.