--Está dito, vamos amanhã, repetiu Rubião, que espreitava o rosto
acceso de Sophia.
Mas o corsel viera fatigado da carreira, e deixou-se estar somnolento
na cavallariça. Sophia era já outra; passara a vertigem da empreza,
o ardor sonhado, o gosto de subir com elle a estrada da Tijuca.
Dizendo-lhe Rubião que fallaria ao marido para que a deixasse ir ao
passeio, redarguiu sem alma:
--Está tonto! Fica para o domingo que vem!
E fixou os olhos no trabalho de linha que fazia,--frioleira é o
nome,--emquanto Rubião voltava os seus para um trechosinho de jardim
mofino, ao pé da saleta de trabalho onde estavam. Sophia, sentada no
angulo da janella, ia meneando os dedos. Rubião viu em duas rosas
vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. Não
se póde dizer, ao certo, que tempo estiveram assim calados, alheios
e remotos um do outro. Foi uma criada que os accordou, trazendo-lhes
café. Bebido o café, Rubião concertou as barbas, tirou o relogio e
despediu-se. Sophia, que espreitava a sabida, ficou satisfeita, mas
encobriu o gosto com o espanto.
--Já!
--Preciso de fallar a um sujeito antes das quatro horas, explicou
Rubião. Estamos entendidos; passeio de amanhã gorado. Vou mandar
desavisar os cavallos. Mas será certo no domingo que vem?
--Certo, certo, não posso affirmar; mas resolvendo-se em tempo
o Christiano, creio que sim. Sabe que meu marido é o homem dos
impedimentos.
Sophia acompanhou-o até á porta, estendeu-lhe a mão indifferente,
respondeu sorrindo alguma cousa chocha, tornou á salinha em que
estivera,--ao mesmo angulo,--da mesma janella. Não continuou logo o
trabalho, poz uma perna sobre outra, fazendo descer, por habito, a saia
do vestido, e lançou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas tinham
dado ao nosso amigo uma visão imperial. Sophia não viu mais que duas
flores mudas. Fitou-as, não obstante, algum tempo; em seguida, pegou
da frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando as
mãos no regaço; e voltou á obra, outra vez, para tornar a deixal-a. De
repente, levantou-se e atirou as linhas e a _navette_ á cestinha de
junco, onde guardava os seus pretextos de trabalho. A cesta era ainda
uma lembrança de Rubião!
--Que homem aborrecido!
Dalli foi encostar-se á janella, que dava para o jardim mofino,
onde iam murchando as duas rosas vulgares. Rosas, quando recentes,
importam-se pouco ou nada com as coleras dos outros; mas, se definham,
tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este costume
nasce da brevidade da vida. «Para as rosas, escreveu Fontenelle, o
jardineiro é eterno.» E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar
das suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu não fiz mais que florir
e aromar, servi a donas e a donzellas, fui lettra de amor, ornei a
botoeira dos homens, ou expiro no proprio arbusto, e todas as mãos e
todos os olhos me trataram e me viram com admiração e affecto. Tu não,
ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu affliges-te! a tua
eternidade não vale um só dos meus minutos.
Assim, quando Sophia chegou á janella que dava para o jardim, ambas
as rosas riram-se a petalas despregadas. Uma dellas disse que era bem
feito! bem feito! bem feito!
--Tens razão em te zangares, formosa creatura, acrescentou, mas hade
ser comtigo, não com elle. Elle que vale? Um triste homem sem encantos,
póde ser que bom amigo, e talvez generoso, mas repugnante, não? E tu,
requestada de outros, que demonio te leva a dar ouvidos a esse intruso
da vida? Humilha-te, ó suberba creatura, porque és tu mesma a causa do
teu mal. Tu juras esquecel-o, e não o esqueces. E é preciso esquecel-o?
Não te basta fital-o, escutal-o, para desprezal-o? Esse homem não diz
cousa nenhuma, ó singular creatura, e tu...
--Não é tanto assim, interrompeu a outra rosa, com a voz ironica
e descançada; elle diz alguma cousa, e dil-a desde muito, sem
desapprendel-a, nem trocal-a; é firme, esquece a dor, crê na esperança.
Toda a sua vida amorosa é como o passeio á Tijuca, de que vocês
fallavam ha pouco: «Fica para o domingo que vem!» Eia, piedade ao
menos; sê piedosa, ó bonissima Sophia! Se hasde amar a alguem, fóra do
matrimonio, ama-o a elle, que te ama e é discreto. Anda, arrepende-te
do gesto de ha pouco. Que mal te fez elle, e que culpa lhe cabe se és
bonita? E quando haja culpa, a cesta é que a não tem, só porque elle a
comprou, e menos ainda as linhas e a _navette_ que tu mesma mandaste
comprar pela criada. Tu és má, Sophia, és injusta...