Sophia não foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. Não vão crer que
era pezar nem dor; por occasião do casamento, houve-se com grande
discrição, cuidou do enxoval da noiva e despediu-se della com muitos
beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; e,
para não desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto. Pegou de
um romance recente; fora-lhe dado pelo Rubião. Outras cousas alli
lhe lembravam o mesmo homem, teteias de toda a sorte, sem contar
joias guardadas. Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na
noite do casamento da prima, até essa veiu alli para o inventario das
recordações do nosso amigo.
--A senhora é já a rainha de todas, disse-lhe elle em voz baixa; espere
que ainda a farei imperatriz.
Sophia não pode entender esta phrase enigmatica. Quiz suppor que era
uma alliciação de grandeza para tornal-a sua amante; mas a vaidade
que essa ideia trazia fel-a excluir desde logo. Rubião, posto não
fosse agora o mesmo homem encolhido e timido de outros tempos, não se
mostrava tão cheio de si que lhe pudesse attribuir tão alta presumpção.
Mas que era então a phrase? Talvez um modo figurado de dizer que a
amaria ainda mais. Sophia acreditava possivel tudo. Não lhe faltavam
galanteios; chegou a ouvir aquella declaração de Carlos Maria,
provavelmente ouvira outras, a que deu somente a attenção da vaidade.
E todas passaram; Rubião é que persistia. Tinha pausas, filhas de
suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.
«_Il mérite d'être aimé_», leu Sophia na pagina aberta do romance,
quando ia continuar a leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e
perdeu-se em si mesma. A escrava que entrou d'ahi a pouco, trazendo-lhe
um caldo, suppoz que a senhora dormia e retirou-se pé ante pé.