Rubião foi mantendo o proposito de não tornar a ver Sophia; pelo menos,
não ia ao Flamengo. Viu-a um dia passar de carro, com uma das damas da
commissão das Alagoas; ella inclinou-se risonha, dizendo-lhe adeus com
a mão. Elle retribuiu o comprimento, tirando o chapéu, com tal ou qual
alvoroço, mas não ficou parado como lhe aconteceria d'antes; apenas
lançou um olhar ao carro que ia andando. Tambem elle foi andando,--e
pensando no lance da carta, não comprehendendo aquelle gesto de mão,
sem odio nem vexame,--como se nada houvesse entre elles. Podia ser
que o serviço da commissão e a companheira que levava explicassem a
benevolencia graciosa de Sophia; mas Rubião não cogitou desta hypothese.
--Estará assim tão falta de brio? perguntava elle. Pois não se lembra
da carta que achei, mandada por ella ao tal gamenho da rua dos
Invalidos? É muito; é de mais. Parece um desafio, um modo de dizer que
não faz caso, que escreverá todas as cartas que quizer. Que as escreva,
mas gaste algum dinheiro em registral-as no correio; é barato...
Achou algum pico em si mesmo e riu-se. Isto, e um homem que passou
rasgando-lhe uma cortezia, tiraram-lhe o amargor das saudades, e elle
esqueceu o assumpto, para cuidar de outro, que o levava ao Banco do
Brazil.
Ao entrar no Banco esbarrou com o socio, que sabia.
--Creio que vi agora D. Sophia, disse-lhe Rubião.
--Onde?
--Na rua dos Ourives; ia de carro, com outra senhora, que não conheço.
Como tem você passado?
--Viu-a, e não se lembrou de nada, observou Palha, sem responder á
pergunta. Não se lembrou que ella faz annos, quarta-feira, depois de
amanhã. Não lhe peço que vá jantar, não ouso tanto, seria convidal-o
a aborrecer-se; mas uma chicara de chá bebe-se depressa. Faz-me esse
favor?
Rubião não respondeu logo.
--Vou até jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte commigo.
Tinha-me esquecido, confesso; mas ando com tanta cousa na cabeça...
Espere por mim daqui a meia hora, no armazem.
Antes de meia hora estava lá, pedindo-lhe dous contos de reis. Palha
ja não resistia ao desmoronamento do capital; e, se uma ou outra
vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora entregou-lhe o dinheiro
com indifferença. Rubião não tornou a casa sem comprar um magnifico
diamante, que na quarta-feira, enviou a Sophia, acompanhado de um
bilhete de visita, e duas palavras de felicitação.
Sophia estava só, no quarto de vestir, calçando os sapatos, quando
a criada lhe entregou o pacote. Era o terceiro presente do dia; a
criada esperou que ella o abrisse para ver tambem o que era. Sophia
ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica joia,--uma
bella pedra, no centro de um collar. Esperava alguma cousa bonita;
mas, depois dos ultimos successos, mal podia crer que elle fosse tão
generoso. Batia-lhe o coração.
--O portador está ahi?
--Já foi. Que cousa rica, minha ama!
Sophia fechou a caixa, e acabou de calçar-se. Deteve-se algum tempo,
sentada, sosinha, recordando cousas idas, e levantou-se pensando:
--Aquelle homem adora-me.
Tratou de vestir-se; mas, ao passar por deante do espelho, deixou-se
estar alguns instantes. Comprazia-se na contemplação de si mesma, das
suas ricas formas, dos braços nus de cima a baixo, dos proprios olhos
contempladores. Fazia vinte e nove annos, achava que era a mesma dos
vinte e cinco, e não se enganava. Cingido e apertado o collete, deante
do espelho, accommodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o collo
magnifico. Lembrou-se então de ver como lhe ficava o diamante; tirou
o collar e pol-o ao pescoço. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a
direita e vice-versa, approximou-se, affastou-se, augmentou a luz do
camarim; perfeito. Fechou a joia e guardou-a.
--Aquelle homem adora-me, repetiu.
--Provavelmente, elle lá estará, pensou Rubião indo jantar ao Flamengo;
duvido que tenha dado melhor presente que eu.
Carlos Maria lá estava, effectivamente, conversando, entre uma das
commissarias das Alagoas, e Maria Benedicta. Poucos eram os convivas;
houve proposito em escolher e limitar. Não estava alli o major
Sequeira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubião conheceu
naquelle outro jantar de Santa Thereza. Da commissão das Alagoas
viam-se algumas damas; via-se mais o director do banco,--o da visita ao
ministro,--com a senhora e as filhas,--outro personagem bancario,--um
commerciante inglez, um deputado, um desembargador, um conselheiro,
alguns capitalistas, e pouco mais.
Posto que evidentemente gloriosa, Sophia esqueceu por um instante
os outros, quando viu Rubião entrar na sala e caminhar para ella.
Ou mudança, ou descostume, achou-lhe outro ar, passo firme, cabeça
levantada, o avêsso, em summa, do antigo gesto encolhido e diminuto.
Sophia apertou-lhe a mão com força e sussurrou um agradecimento. Á
mesa fel-o sentar ao pé de si, tendo do outro lado a presidente da
commissão. Rubião olhava superiormente para tudo. A qualidade dos
convivas não lhe produziu impressão, nem o ar ceremonioso, nem o luxo
da mesa, nem o da farda dos creados, barbeados de fresco, abotoados
até á gravata branca, e trazendo nos botões estas duas letras C.P.
Nada disso o deslumbrou. O mesmo cuidado particular de Sophia, embora
lhe fosse agradavel, não o tonteava, como outrora. E da parte della
era mais apurada a attenção, e os olhos excepcionalmente meigos e
serviçaes. Rubião procurou Carlos Maria; lá estava entre as mesmas
moças da sala,--Maria Benedicta e a commissaria das Alagoas. Verificou
que só se occupava com ellas, não olhava para Sophia, nem esta para
elle.
--Talvez disfarcem, pensou.
Pareceu-lhe, ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar,--mas o
movimento geral da reunião podia illudil-o, e Rubião não fez maior
cabedal da observação. Sophia dera-se pressa em tomar-lhe o braço. De
caminho, disse-lhe ella:
--Tenho esperado pelo senhor desde aquelle dia, e nunca mais veiu aqui.
Era meu direito exigil-o, para explicar-me. Logo fallaremos.
Rubião foi dahi a pouco para o gabinete dos fumantes, onde se fallava
de politica e voltarete. Ouviu calado, com os olhos erradios. Quando
os outros sahiram, Rubião deixou-se estar só, meio reclinado em um
sophá de couro, sem pensar. A imaginação é que fazia o seu officio,
um tanto pachorrenta, agora,--talvez porque elle tivesse comido
muito. Lá fóra iam entrando os convidados da noite; enchia-se a casa,
crescia o borborinho da conversação, sem que o nosso amigo descesse
dos seus bellos sonhos. O proprio som do piano, que fez calar todos os
rumores, não o attrahiu á terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no
gabinete, fel-o erguer-se do golpe, accordado.
--Ahi está, disse Sophia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento;
nem quer ouvir boa musica. Pensei que tivesse ido embora. Vim ter com o
senhor.
E sem mais demora, porque não podia perder um minuto, referiu-lhe o
que sabemos da carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que,
antes de a abrir, pedira-lhe que elle mesmo a abrisse e lesse. Que
melhor prova de innocencia? A palavra sahia-lhe rapida, seria, digna e
commovida. Occasião houve em que os olhos se lhe tornaram humidos; ella
enxugou-os, e ficaram vermelhos. Rubião pegou-lhe na mão, e viu ainda
uma lagryma,--uma pequena lagryma,--escorregar até o canto da bocca.
Jurou então que sim, acreditava em tudo. Que idéa aquella de chorar?
Sophia enxugou ainda os olhos, e estendeu-lhe a mão agradecida.
--Até já, disse ella.
O piano continuava; Rubião notou-lhe esta circumstancia. Emquanto
ouviam tocar, não viriam ter com elles.
--Mas eu é que não posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sophia.
Demais, tenho ordens que dar. Até já.
--Olhe, escute, insistiu Rubião.
Sophia parou.
--Escute; deixe-me dizer-lhe, e não sei se pela ultima vez...
--Pela ultima vez?
--Quem sabe? Pode ser que ultima. Importa-me pouco que esse homem viva
ou não, mas posso achal-o aqui alguma vez, e não me sinto disposto a
brigar.
--Hade encontral-o todos os dias. Christiano ainda lhe não disse o que
ha? Vae casar com Maria Benedicta.
Rubião deu um passo para traz.
--Casam-se, continuou ella. O facto é de admirar, porque surgiu quando
menos contavamos com isto;--ou eram muito fingidos,--ou foi cousa que
lhes deu de repente. Casam-se. Maria Benedicta contou-me uma historia,
que me foi confirmada por outra pessoa; mas, afinal, a historia é
sempre a mesma. Gostaram um do outro, e adeus. Casam-se brevemente.
Quando elle fallou a Christiano, Christiano respondeu que dependia de
mim... Como se fosse mãe d'ella! Consentí logo, e desejo que sejam
felizes. Elle parece bom rapaz; ella é excellente creatura; hão de ser
felizes, por força. E bom negocio, sabe? Elle está de posse de todos
os bens do pae e da mãe. Maria Benedicta não tem nada, em dinheiro;
mas tem a educação que lhe dei. Hade lembrar-se que, quando veiu para
minha companhia, era um bicho do matto; não sabia quasi nada; fui eu
que a eduquei. Minha tia merecia tudo, e ella tambem. Pois, é verdade,
casam-se muito breve. Não os viu hoje sempre juntos? Não ha ainda
participação official; mas os intimos da familia podem saber. Casam-se,
é verdade...
Para quem tinha tanta pressa, eis ahi um discurso demasiado comprido.
Sophia deu por isso um pouco tarde; repetiu a Rubião que até logo, que
fosse para a sala. O piano acabara; ouvia-se um borborinho discreto de
applauso e conversação.