Um dia, como houvesse sahido mais cedo de casa, e não soubesse onde
passar a primeira hora, caminhou para o armazem. Desde uma semana que
não ia á praia do Flamengo, por haver Sophia entrado em um dos seus
periodos de sequidão. Achou o Palha de luto; morrera a tia da mulher,
D. Maria Augusta, na fazenda; a noticia chegara na ante-vespera, á
tarde.
--A mãe daquella mocinha?
--Justo.
Palha fallou da defuncta com muitos encarecimentos; depois contou a dôr
de Maria Benedicta; estava que mettia pena. Perguntou-lhe porque é que
não ia ao Flamengo, logo á noite, para ajudal-os a distrail-a? Rubião
prometteu ir.
--Vá, é favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. Não imagina
que primor alli está. Boa educação, muito severa; e quanto a prendas
de sociedade, se não as teve em criança, ressarsiu o tempo perdido
com rapidez extraordinaria. Sophia é a mestra. E dona de casa? Isso,
meu amigo, não sei se em tal edade, se achará pessoa tão completa.
Já agora fica comnosco. Tem uma irmã, Maria José, casada com um juiz
de direito, no Ceará; tem tambem o padrinho, em S. João d'El-rei. A
defuncta fallava delle com elogio; não creio que elle a mande buscar,
mas ainda que mande, não a dou. Já agora é nossa. Não hade ser pelo que
o padrinho lhe quizer deixar em testamento que nos desfaremos della.
Aqui ficará, concluiu tirando com o dedo um pouco de poeira da gola do
Rubião.
Rubião agradeceu. Depois, como estavam no escriptorio, ao fundo, olhou
por entre as grades, e viu entrar uns fardos no armazem. Perguntou que
traziam.
--São uns morins inglezes.
--Morins inglezes, repetiu Rubião, com indifferença.
--A proposito, sabe que a casa Moraes & Cunha, paga a todos os
credores, integralmente?
Rubião não sabia nada, nem se a casa existia, nem se elles eram
credores della; ouviu a noticia, respondeu que estimava muito, e
dispoz-se a ir embora. Mas o socio reteve-o ainda alguns instantes.
Estava alegre agora; parecia que não lhe morrera ninguem. Voltou a
fallar de Maria Benedicta. Tinha intenção de casal-a bem; nem ella era
moça de dar lerias a pelintras, nem se deixava ir por phantasias tolas;
era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa seria.
--Sim, senhor, ia dizendo Rubião.
--Olhe, murmurou de repente o socio; não se admire do que lhe vou
dizer. Creio que você é que casa com ella.
--Eu? acudiu Rubião, espantado. Não, senhor. E em seguida, para
attenuar o effeito da recusa: Não nego que seja moça digna e perfeita;
mas... por ora... não penso em casar...
--Ninguem lhe diz que seja amanhã ou depois; casamento não é cousa que
se improvise. O que eu digo é que tenho cá um palpite. São cousas;
palpites. Sophia nunca lhe fallou neste meu palpite?
--Nunca.
--É exquisito, disse-me que lhe fallára uma vez, ou duas, não me lembro
bem.
--Pode ser, sou muito distrahido. Que queriam casar-me com a moça?
--Não, que eu tinha um palpite. Mas, não fallemos mais n'isto. Demos
tempo ao tempo.
--Adeus.
--Adeus; vá cedo.