CAPITULO LXVIII

Maria Benedicta consentiu finalmente em apprender francez e piano.

Durante quatro dias a prima teimou com ella, a todas as horas, de

tal arte e maneira, que a mãe da moça resolveu appressar a volta á

fazenda, para evitar que ella acabasse aceitando. A filha resistiu

muito; respondia que eram cousas superfluas, que moça de roça não

precisa de prendas da cidade. Uma noite, porém, estando alli Carlos

Maria, pediu-lhe este que tocasse alguma cousa; Maria Benedicta fez-se

vermelha. Sophia acudiu com uma mentira:

--Não lhe peça isso; ainda não tocou depois que veiu. Diz que agora só

toca para os roceiros.

--Pois faça de conta que somos roceiros, insistiu o moço.

Felizmente, fallou logo de outra cousa, do baile da baroneza do Piauhy

(casualmente, a mesma que o nosso amigo Rubião encontrou no escriptorio

do Camacho), um baile esplendido, oh! esplendido! A baroneza presava-o

muito. No dia seguinte, Maria Benedicta declarou á prima que estava

prompta a apprender piano e francez, rabeca e até russo, se quizesse.

A difficuldade era vencer a mãe. Esta, quando soube da resolução da

filha, poz as mãos na cabeça. Que francez? que piano? Bradou que não,

ou então que deixasse de ser sua filha; podia ficar, tocar, cantar,

fallar cabinda ou a lingua do diabo que os levasse a todos. Palha é

que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por mais superfluas que lhe

parecessem aquellas prendas, eram o minimo dos adornos de uma educação

de sala...

--Mas eu criei minha filha na roça e para a roça, interrompeu a tia.

--Para a roça? Quem sabe lá para que cria os filhos? Meu pae

destinara-me a padre; é por isso que arranho algum latim. A senhora não

hade viver sempre; os seus negocios andam atrapalhados. Pode acontecer

que Maria Benedicta fique ao desamparo... Ao desamparo, não digo;

emquanto vivermos somos todos uma só pessoa. Mas não é melhor prevenir?

Podia ser até que, se lhe faltassemos todos, ella vivesse á larga,

só com ensinar francez e piano... Basta que os saiba para estar em

condições melhores. É bonita, como a senhora foi no seu tempo; e possue

raras qualidades moraes. Pode achar marido rico... Sabe a senhora se já

tenho alguem em vista, pessoa séria?

--Sim? Então ella vae apprender francez, piano e namoro?

--Que namoro? Fallo-lhe de pensamentos intimos, de um plano que me

parece adequado á felicidade della e de sua mãe. Pois eu havia... Ora,

tia Augusta!

Palha mostrou-se tão mortificado, que a tia deixou o tom aspero pelo

tom secco. Resistiu ainda; mas a noite deu-lhe bons conselhos O estado

dos seus negocios, e a possibilidade de um genro abastado fizeram

mais que outras razões. Os melhores genros da roça alliavam-se a

outras fazendas, a familias de representação e riqueza segura. Dous

dias depois acharam um _modus vivendi_: Maria Benedicta ficaria com

a prima; iriam de quando em quando á roça, e a tia tambem viria á

capital, para vel-os. Palha chegou a dizer que, logo que o estado da

praça o permittisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negocios e

transportal-a para aqui. Mas a isto a boa senhora abanou a cabeça.

Não se pense que tudo isso foi tão facil como ahi fica escripto. Na

pratica, vieram os obices, amofinações, saudades, rebelliões de Maria

Benedicta. Dezoito dias depois da volta da mãe á fazenda, quiz ir

visital-a, e a prima acompanhou-a; estiveram lá uma semana. A mãe, dous

mezes depois, veiu passar uns dias aqui. Sophia acostumava habilmente a

prima ás distracções da cidade; theatros, visitas, passeios, reuniões

em casa, vestidos novos, chapéos lindos, joias. Maria Benedicta era

mulher, posto que mulher exquisita; gostou de taes cousas, mas tinha

para si que, logo que quizesse, podia arrebentar todos esses liames,

e andar para a roça. A roça vinha ter com ella, ás vezes, em sonho ou

simples devaneio. Depois dos primeiros saráos, quando voltava para

casa, não eram as sensações da noite que lhe enchiam a alma, eram as

saudades de Iguassú. Cresciam-lhe mais a certas horas do dia, quando

a quietação da casa e da rua era completa. Então batia as azas para

a varanda da velha casa, onde bebia café, ao pé da mãe; pensava na

escravaria, nos moveis antigos, nas bonitas chinellas que lhe mandara o

padrinho, um fazendeiro rico de S. João d'El-rey,--e que lá ficaram em

casa. Sophia não consentiu que ella as trouxesse.

Os mestres de francez e piano eram homens sabedores do officio.

Sophia teve modo de dizer-lhes em particular que a prima vexava-se

de apprender tão tarde, e pediu-lhes que não fallassem nunca de tal

discipula. Prometteram que sim; o de piano apenas referiu o pedido

a alguns collegas d'arte, que lhe acharam graça, e contaram outras

anedoctas da clientela. O certo é que Maria Benedicta apprendia com

singular facilidade, estudava com afinco, quasi todas as horas, a tal

ponto que a mesma prima julgava acertado interrompel-a.

--Descança, filha de Deus!

--Deixa recobrar o tempo perdido, respondia ella rindo.

Então Sophia inventava passeios, á toa, para fazel-a descançar. Ora um

bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedicta não perdia tempo:

lia as taboletas francezas, e perguntava pelos substantivos novos, que

a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram, tão estrictamente

adequado era o seu vocabulario ás cousas do vestido, da sala e do

galanteio.

Mas não era só nessas disciplinas que Maria Benedicta fazia progressos

rapidos. A pessoa ajustára-se ao meio, mais depressa do que fariam

crer o gosto natural e a vida da roça. Já competia com a outra, embora

houvesse nesta um desgarre, e não sei que expressão particular que,

para assim dizer, dava côr a todas as linhas e gestos da figura. Não

obstante essa differença, é certo que a outra era vista e notada ao pé

della, de tal geito que Sophia, que começára por louval-a em toda a

parte, não a deslouvava agora, mas ouvia calada as admirações. Fallava

bem;--mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus

«calundús». Contradansava sem vida, que é a perfeição desse genero de

recreio; gostava muito de ver polkar e valsar. Sophia, imaginando que

era por medo que a prima não valsava nem polkava, quiz dar-lhe algumas

lições em casa, sosinhas, com o marido ao piano; mas a prima recusava

sempre.

--Isso é ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sophia.

Maria Benedicta sorriu de um modo tão particular, que a outra não

insistiu. Não foi riso de vexame, nem de despeito, nem de desdem.

Desdem, porque? Comtudo, é certo que o riso parecia vir de cima.

Não menos o é que Sophia polkava e valsava com ardor, e ninguem se

pendurava melhor do hombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro

dansar, só valsava com Sophia,--dous ou tres giros, dizia elle;--Maria

Benedicta contou uma noite quinze minutos.

Quincas Borba · 第 77 / 218 题