CAPITULO LX

Pobre Minas! Rubião voltou para casa, sosinho, a passo lento, pensando

no modo de lá não ir agora. E as palavras dos dous andavam-lhe no

cerebro, como peixinhos de ouro em globo de vidro, abaixo, acima,

rutilantes: «_aqui é que se deve esmagar a cabeça da cobra_;»--«_Sophia

é companheira para estas cousas._» Pobre Minas!

No dia seguinte recebeu um jornal que nunca vira antes, a _Atalaia._

O artigo editorial desancava o ministerio; a conclusão, porém

estendia-se a todos os partidos e á nação inteira:--_Mergulhemos no

Jordão constitucional._ Rubião achou-o excellente; tratou de ver onde

se imprimia a folha para assignal-a. Era na rua da Ajuda; lá foi, logo

que saiu de casa; lá soube que o redactor era o Dr. Camacho. Correu ao

escriptorio delle.

Mas, em caminho na mesma rua:

--Deolindo! Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher á porta

de uma colchoaria.

Rubião ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que

descia e uma creança de tres ou quatro annos que atravessava a rua.

Os cavallos vinham quasi em cima della, por mais que o cocheiro os

sofreasse. Rubião atirou-se aos cavallos e arrancou o menino ao perigo.

A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião, não podia fallar; estava

pallida, tremula, e chorava. Algumas pessoas puzeram-se a altercar

com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que

fosse andando. O cocheiro obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no

interior da colchoaria, veiu fóra, já o carro dobrava a esquina de S.

José.

--Ia quasi morrendo, disse a mãe. Se não fosse este senhor, não sei o

que seria do meu pobre filho.

Era uma novidade no quarteirão. Visinhos entravam a vêr o que succedêra

ao pequeno; na rua, creanças e moleques, espiavam pasmados. A creança

tinha apenas um arranhão no hombro esquerdo, produzido pela queda.

--Não foi nada, disse Rubião; em todo caso, não deixem o menino sair á

rua; é muito pequenino.

--Obrigado, acudiu o pae; mas onde está o seu chapéo?

Rubião advertiu então que perdêra o chapéo. Um rapazinho esfarrapado,

que o apanhára, estava á porta da colchoaria, aguardando a occasião de

restituil-o. Rubião deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o

rapazinho não cuidára, ao ir apanhar o chapéo. Não o apanhou senão para

ter uma parte na gloria e nos serviços. Entretanto, aceitou os cobres

com prazer; foi talvez a primeira ideia que lhe deram da venalidade das

acções.

--Mas, espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?

Com effeito, a mão do nosso amigo tinha sangue; havia um ferimento na

palma, cousa pequena, e que elle não podia saber se era obra do dente

do cavallo, se de algum ferrão das correias. A verdade é que só agora

começou a sentil-o. A mãe do pequeno correu a buscar uma bacia e uma

toalha, apezar de dizer o Rubião que não era nada, que não valia a

pena. Veiu a agua; emquanto elle lavava a mão, o colchoeiro correu á

pharmacia proxima, e trouxe um pouco de arnica. Rubião curou-se, atou

o lenço na mão; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéo; e, quando

elle sahiu, um e outro agradeceram-lhe muito o beneficio da salvação do

filho. A outra gente, que estava á porta e na calçada, fez-lhe alas.

Quincas Borba · 第 69 / 218 题