A lua era magnifica. No morro, entre o céo e a planicie, a alma menos
audaciosa era capaz de ir contra um exercito inimigo, e destroçal-o.
Vede o que não seria com este exercito amigo. Estavam no jardim. Sophia
enfiara o braço no delle, para irem ver a lua. Convidára D. Tonica, mas
a pobre dama respondeu que tinha um pé dormente, que já ia, e não foi.
Os dous ficaram calados algum tempo. Pelas janellas abertas viam-se
as outras pessoas conversando, e até os homens, que tinham acabado o
voltarete. O jardim era pequeno; mas a voz humana tem todas as notas, e
os dous podiam dizer poemas sem ser ouvidos.
Rubião lembrou-se de uma comparação velha, mui velha, apanhada em não
sei que decima de 1850, ou qualquer outra pagina em prosa de todos
os tempos. Essa ideia foi chamar aos olhos de Sophia as estrellas da
terra, e ás estrellas os olhos do céu. Tudo isso baixinho e tremulo.
Sophia ficou pasmada. De subito endireitou o corpo, que até alli viera
pesando no braço do Rubião. Estava tão acostumada á timidez do homem...
Estrellas? olhos? Quiz dizer que não caçoasse com ella, mas não achou
como dar fórma á resposta, sem rejeitar uma ideia que tambem era sua,
ou então sem animal-o a ir adeante. Dahi um longo silencio.
--Com uma differença, continuou Rubião. As estrellas são ainda menos
lindas que os seus olhos, e afinal nem sei mesmo o que ellas sejam;
Deus, que as poz tão alto, é porque não poderão ser vistas de perto,
sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, não; estão aqui, ao
pé de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o céu...
Loquaz, destemido, Rubião parecia totalmente outro. Não parou alli;
fallou ainda muito, mas não deixou o mesmo circulo de ideias. Tinha
poucas; e a situação, apezar da repentina mudança do homem, tendia
antes a cerceal-as, que a inspirar-lhe novas. Sophia é que não sabia
que fizesse. Trouxera ao collo um pombinho, manso e quieto, e sae-lhe
um gavião,--um gavião adunco e faminto.
Era preciso responder, fazel-o parar, dizer que ia por onde ella não
queria ir, e tudo isso, sem que elle se zangasse, sem que se fosse
embora... Sophia procurava alguma cousa; não achava, porque esbarrava
na questão, para ella insoluvel, se era melhor mostrar que entendia,
ou que não entendia. Aqui lembraram-lhe os proprios gestos della,
as palavrinhas doces, as attenções particulares; concluia que, em
tal situação, não podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas
confessar que entendia, e não despedil-o de casa, eis ahi o ponto
melindroso.