CAPITULO XXXVII

Entende-se bem que D. Tonica observasse a contemplação dos dous. Desde

que Rubião alli chegou, não cuidou ella mais que de attrahil-o. Os seus

pobres olhos de trinta e nove annos, olhos sem parceiros na terra,

indo já a resvalar do cançaço na desesperança, acharam em si algumas

fagulhas. Volvel-os uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo

officio d'elles: Não lhe custou nada armal-os contra o capitalista.

O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma cousa lhe

dizia que esse mineiro rico era destinado pelo ceu a resolver o

problema do matrimonio. Rico era ainda mais do que ella pedia; não

pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem

a consideração pecuniaria; nos ultimos tempos ia baixando, baixando,

baixando; a ultima foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se

o ceu não lhe destinava justamente um homem rico? D. Tonica tinha fé em

sua madrinha, Nossa Senhora da Conceição, e investiu a fortaleza com

muita arte e valor.

--Todas as outras são casadas, pensou ella.

Não tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sophia caminhavam

uns para os outros; notou, porém, que os de Sophia eram menos

frequentes e menos demorados, phenomeno que lhe pareceu explicavel,

pelas cautellas naturaes da situação. Podia ser que se amassem...

Esta ideia affligiu-a; mas o desejo e a esperança mostraram-lhe que

um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar.

A questão era captal-o; a idéa de casar e ter familia podia ser que

acabasse de matar qualquer outra inclinação da parte delle, se alguma

houvesse.

Eil-a que redobra esforços. Todas as suas graças foram chamadas a

postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos

de labios, olhos obliquos, marchas, contra-marchas para mostrar bem a

elegancia do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era

o velho formulario em acção; nada lhe rendera até alli, mas a loteria é

assim mesmo: lá vem um bilhete que resgata os perdidos.

Agora, porém, á noite, por occasião do canto ao piano, é que D. Tonica

deu com elles embebidos um no outro. Não teve mais duvida; não eram

olhares apparentemente fortuitos, breves, como até alli, era uma

contemplação que eliminava o resto da sala. D. Tonica sentiu o grasnar

do velho corvo da desesperança. _Quoth the Raven_: NEVERMORE.

Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubião viesse

sentar-se ao pé della, por alguns minutos, e tratou de dizer cousas

bonitas, phrases que lhe ficaram de romances, outras que a propria

melancholia da situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e respondia,

mas inquieto, quando Sophia deixava a sala, e não menos quando

tornava a ella. Uma das vezes a distracção foi excessiva. D. Tonica

confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente

Barbacena. Que taes eram os ares?

--Os ares, repetiu machinalmente o outro.

Olhava para Sophia, que estava então em pé, de costas para elle,

fallando a duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez

a figura, o busto bem talhado, estreito em baixo, largo em cima,

emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de folhas sae

de dentro de um vaso. A cabeça podia então dizer-se que era como uma

magnolia unica, direita, espetada no centro do ramo. Era isto que

Rubião mirava, quando D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena,

e elle repetiu a palavra della, sem lhe dar sequer a mesma fórma

interrogativa.

Quincas Borba · 第 46 / 218 题