_Fazem-se grandes preparativos, para a recepção, e alojamento de
Napoleão em Madrid, e Lisboa; continuão as maquinações contra Fernando;
este Rei he enganado, e conduzido a Bayona; e como descaradamente se
pertende extorquir delle a renuncia da corôa a favor de Napoleão;
conferencias notaveis sobre este objecto._
[Sidenote: 1808
Març.]
DISPOSTO Fernando VII., não ainda para sahir ao encontro de Napoleão,
mas para o receber em Madrid, mandou-lhe preparar hum magnifico
aposento no seu proprio palacio, e fez trabalhar incessantemente
em bailes, illuminações, mezas esplendidas, e em tudo o que era
concernente a huma entrada pomposa, e grande; Murat não cessava ao
mesmo tempo de publicar todos os dias a chegada de correios, que lhe
annunciavão, humas vezes, que Napoleão partíra de París, outras que
chegára a Bayona, outras em fim a sua proxima entrada no territorio
da Hespanha; mas Napoleão não apparecia, nem se dignava responder ás
cartas de Fernando.
Chegou entretanto hum aposentador Francez, para preparar o alojamento
do seu Imperador, chegárão carros fechados com inscripções, que
denotavão _móveis de Napoleão_; de hum delles tirou o aposentador
hum chapéo, e humas bótas imperiaes, que pendurou no dormitorio dos
Reis d’Hespanha. Que farça! Murat fez explicações circumstanciadas
sobre os banhos de S. M. o I. e R., e sobre a delicadeza que este
teria, em não consentir, que Fernando lhe fornecesse huma meza de 20
talheres para o seu serviço, e outra de 100 para os seus criados. Que
gente![16]
[Sidenote: 1808
Abril.]
[Sidenote: 1808
Abril.]
Junot fazia soar, com estrondo, pelas ruas de Lisboa os mesmos boatos,
que Murat, e os seus sequazes assoalhavão em Madrid. Mandou preparar
magnificamente o palacio de Quéluz, para receber o Imperador; porque
este se propunha tambem a dar esta honra ao nosso paiz. Ainda está
duvidoso, se isto era mais huma ficção, ou se na verdade a viagem
foi projectada: parece, que Junot a acreditou, e he certo, que a fez
acreditar a muitos. Chegou a estar prompta a cama imperial, o palacio
todo mudou de figura no interior, e na fachada do frontespicio,
mobilou-se, e adornou-se ricamente. Forão-se buscar ao de Mafra, e a
outras partes varios quadros, para decorar as salas, representando os
principaes successos da historia Portugueza, e ao lado delles se vião
figuradas em pinturas modernas as batalhas de Marengo, Austerlitz,
Jena, e Friedland, a passagem da ponte de Lodi, e as outras acções mais
famosas dos oppressores da Europa. As operações de Madrid, e de Lisboa
correspondião-se, como peças da mesma maquina, que trabalhavão para hum
fim commum.
Persuadido Fernando da proximidade de Napoleão, enviou seu irmão o
Infante D. Carlos, para o receber no caminho, contando, segundo as
affirmativas de Murat, que o encontraria ao segundo, ou terceiro dia
de jornada. Apenas este passo foi dado, Murat avança a Fernando,
persuadindo-lhe, que fosse elle mesmo em pessoa esperar o Imperador;
porque esta acção teria os resultados mais felices. O Embaixador, e
todo o partido Francez trabalhárão de acordo com o General, e puzerão
Fernando vacillante, entre a necessidade de ter esta condescendencia
com o seu alliado, e o desejo de não abandonar o seu povo de Madrid, em
circumstancias tão espinhosas.
[Sidenote: 1808
Abril.]
Teve Ministros fiéis, que o aconselhárão, que não sahisse da corte,
senão quando tivesse a certeza de que Napoleão estava muito perto; e
sustentou esta resolução por alguns dias; mas veio seduzillo o General
Savary com promessas as mais aleivosas. Apresentou-se, como Enviado de
Napoleão; e sendo-lhe immediatamente concedida huma audiencia, nella
manifestou ao Rei Fernando, que vinha cumprimentallo da parte de seu
amo, e saber unicamente de S. M. se os seus sentimentos a respeito da
França erão conformes aos d’ElRei seu pai, em cujo caso o Imperador
prescindia de tudo o que tinha acontecido, não se intrometteria em
cousa alguma do interior do reino, e reconheceria desde logo a S. M.
como Rei d’Hespanha, e Indias.
A missão era na verdade de huma natureza muito agradavel, e agradavel
foi tambem a resposta, terminando a audiencia com novas seguranças da
parte de Savary, de que Napoleão devia ter sahido de Paris, e estar já
muito perto de Bayona. Em fim foi forçoso acreditar as suas palavras, e
o Rei ficou vencido.
[Sidenote: 1808
Abril.]
Quem diria, que hum dos seus mais fiéis servidores, o seu mestre, o
sincero Ezcoizquiz, huma das victimas da sua amizade, durante o reinado
de Godoy, foi tão cégo, como os outros, que de boa fé o persuadírão
a condescender com o usurpador! Terrivel cegueira! Fernando partio a
10, com animo de chegar sómente até Burgos, deixando estabelecida na
capital huma junta do governo, para servir durante a sua ausencia, que
se compunha dos Secretarios d’Estado, presididos por seu tio o Infante
D. Antonio. He inexplicavel a dor, e o sentimento, com que o povo o vio
partir: triste presagio das horrorosas calamidades, que lhe estavão
imminentes. Fez todas as diligencias, para embaraçar o seu Rei de se
precipitar no abysmo; e sómente a voz do mesmo Rei o pôde conter no seu
desafogo; mas eu exclamarei com hum escritor Hespanhol: Ah! Fernando, o
povo te obedecia, mas não se enganava!
[Sidenote: 1808
Abril.]
[Sidenote: 1808
Abril.]
Savary o quiz acompanhar, bem determinado a não largar a sua
illustre preza; e como em Burgos, onde chegárão a 12, não houvesse
ainda noticias de Napoleão, se empenhou fortemente em que Fernando
proseguisse, ao menos até Victoria. Houve então debates sobre o
partido, que devia tomar-se; mas o artificio, e a perfidia triunfárão
da sinceridade, e da honra. Fernando foi metter-se em Victoria, onde os
pérfidos já o julgavão seguro, contando com a certeza de o conduzirem a
França por força, se não pudessem por manha, como depois se conheceo,
pelos movimentos suspeitosos, que fizerão as tropas Francezas. Savary
se adiantou então para Bayona, sem duvida para tratar com seu amo o
modo de descarregar o ultimo golpe; e o Infante D. Carlos, tendo em
Toloza, onde se achava demorado, a noticia de que Napoleão chegára a
Bordeaux, se pôz tambem a caminho para Bayona, onde Napoleão chegou
com effeito a 14; e a 16 se dignou finalmente responder ás cartas de
Fernando, mas de hum modo tal, que este Principe deveria abrir os
olhos. Na verdade os momentos erão já de grande aperto; mas ainda
lhe restavão recursos no amor, e na valentia dos seus vassallos, na
fidelidade dos Ministros, e servidores, que o acompanhavão.
[Sidenote: 1808
Abril.]
Nesta notavel carta, que Cevallos copiou na sua _Exposição dos
factos_, Napoleão tratou a Fernando por irmão; mas sem o reconhecer
como Rei, e com o tratamento de Alteza. Expressões vagas, e equivocas
a respeito de Godoi, e dos ultimos acontecimentos da Hespanha, ameaças
misturadas destramente com promessas, severidade com brandura, he o
que se vê em todo o seu contexto. Tratando da abdicação de Carlos IV.,
exprime-se por este modo mysterioso: _ella_ (a abdicação) _teve
effeito no momento, em que os meus exercitos occupavão a Hespanha, e
poderia parecer aos olhos da Europa, que eu não tinha enviado todas
essas tropas, senão com o unico objecto de derribar do throno o meu
alliado, o meu amigo. Como Soberano visinho devo inteirar-me do
acontecido, antes de reconhecer esta abdicação. Eu o digo a V. A. R.,
aos Hespanhoes, ao universo inteiro, se a abdicação d’ElRei Carlos he
espontanea, e não tem sido violentada pela insurreição, e motim de
Aranjuez, não tenho difficuldade em admittil-la, e reconhecer a V.
A. R. como Rei d’Hespanha. Desejo pois conferenciar com V. A. R._
(queria atrahillo ao laço) _sobre este particular_. Passa depois
a fazer-lhe reprehensões austeras, quaes faria hum pai severo a hum
filho, que se tem desviado dos seus dictames; e muito succintamente
lhe ajunta: _O matrimonio de huma Princeza Franceza com V. A. R. eu
o julgo conforme aos interesses dos meus póvos, sobre tudo com huma
circumstancia, que me uniria com vinculos novos a huma casa, de que
não tenho, senão motivos de estima, e de louvor, desde que subi ao
throno._
[Sidenote: 1808
Abril.]
Para tudo ter os caractéres de farça, mas farça tragica, quando Savary
voltou a Victoria com esta carta, trouxe tambem a noticia, de que a
Imperatriz Josefina se encaminhava ao mesmo tempo para Bayona, deixando
entrever, que ella poderia conduzir a Princeza destinada para dar a mão
a Fernando. A isto ajuntou Savary tantas protestações do interesse, que
o seu Imperador tomava por Fernando VII., e pela Hespanha, que chegou
a dizer: _Eu offereço a minha cabeça, se hum quarto d’hora, depois
de S. M. ter chegado a Bayona, o Imperador o não reconhecer, como Rei
d’Hespanha, e Indias. Para sustentar o seu empenho, provavelmente
começará, dando-lhe o tratamento de Alteza; porém cinco minutos depois
lhe dará Magestade, e aos tres dias estará tudo regulado, e S. M.
poderá restituir-se a Hespanha immediatamente._ He assim que a
victima foi conduzida a Bayona.
[Sidenote: 1808
Abril.]
Notou Fernando, assim que pôz os pés no territorio Francez, que
ninguem apparecia a recebello. Chegando a S. João da Luz, se
lhe apresentou com effeito a cumprimentallo o Maire com a sua
municipalidade. A poucos passos encontrou a deputação dos tres
grandes d’Hespanha, que tinha mandado a Napoleão; e elles lhe fizerão
explicações, que o puzerão vacillante; mas já não era tempo de
retroceder. Foi proseguindo a viagem para a cidade, que era muito
proxima; e vierão recebello, e convidallo a entrar, o Principe de
Neufchatel, e o Grão-Marechal do palacio Duroc, com huma partida da
guarda de honra, que os Bayonezes tinhão levantado para o serviço do
seu Imperador. Depois de conduzido a hum alojamento pouco proporcionado
á sua grandeza, o avisárão de que Napoleão o vinha visitar: chegou
este, rodeado de Generaes, e desceo o Rei até á porta da rua, e alli
se abraçárão com todas as demonstrações da mais cordial amizade;
conversárão hum pouco, e na despedida se renovárão os abraços.
[Sidenote: 1808
Abril.]
Pouco tempo depois veio Duroc convidar o Rei, para jantar com
Napoleão; e vierão os coches deste, para o conduzirem ao palacio
de Marrac. Napoleão o veio receber á estribeira, e ainda houverão
mais abraços; mas acabado o jantar, e restituido Fernando á casa da
sua residencia, aquelle mesmo Savary, que tão aleivosamente o tinha
arrastado desde Madrid, teve o descaramento de se lhe apresentar, para
communicar-lhe a resolução, que irrevogavelmente havia tomado seu amo,
de que a dynastia de Bourbon não reinasse mais na Hespanha, e que a sua
lhe succedesse; para cujo fim queria, que o Rei renunciasse por si, e
por toda a sua familia da corôa d’Hespanha, e das Indias, a favor delle
Napoleão. Desafio os mais eruditos na historia, para que apontem em
toda ella hum quadro de tão arroz perfidia!
[Sidenote: 1808
Abril.]
A este ataque pessoal seguio-se hum formulario de negociações, não
menos revoltador. Cevallos foi chamado no dia seguinte por Napoleão
ao seu palacio, onde o esperava Champagny, para discutir com elle as
proposições apresentadas verbalmente por Savary: tudo rolava sobre os
mesmos principios, renúncia de huma parte, usurpação da outra. Então
appareceo o protesto de Carlos IV. contra a sua abdicação, fruto
evidente das suggestões de Murat, posto que com antidata; mas que tinha
Napoleão com o protesto, ou com a abdicação de Carlos?
[Sidenote: 1808
Abril.]
As particularidades desta memoravel conferencia, que nos forão
reveladas por Cevallos, são dignas de se lerem no seu original. Direi
sómente, que na maior escandecencia da disputa, em que a justiça
se debatia com firmeza contra a perfidia, Napoleão, que estava
escutando os negociadores, (he Imperador de comedia?) os mandou ir
á sua presença, para ultrajar o respeitavel Cevallos com ameaças, e
expressões as mais escandalosas. Concluio o Imperador dos Francezes com
as seguintes palavras, que em outro tempo serião lidas com espanto, e
neste desgraçado seculo da perrendida regeneração da Europa, não tem
produzido o menor abalo nesses fantasmas coroados, que ainda sacrificão
ao idolo, porque lhes concede huma existencia momentanea sobre thronos,
tão vacillantes, como então se achava o de Fernando VII.: _J’ai ma
politique à moi; vous devez adopter des idées plus libérales: être
moins sensible sur le point d’honneur; et ne sacrifier la prospérité
de l’Espagne à l’intérêt de la famille de Bourbon._ Eu tenho huma
politica, que me he particular: vós deveis adoptar idéas mais liberaes,
ser menos delicado em pontos de honra, e não sacrificar a prosperidade
da Hespanha aos interesses da familia de Bourbon. Isto não he de
comedia!
[Sidenote: 1808
Abril.]
Cevallos não era o homem, que se procurava para negociador, e por
isso foi immediatamente excluido; e se pedio outro a Fernando, que lhe
substituio a D. Pedro Labrador, com os plenos poderes, e instrucções
competentes, ordenando-lhe, que exigisse semelhantes titulos de
Champagny, para procederem as negociações sobre bases solidas. Esta
requisição foi repudiada, com o pretexto de que os plenos poderes,
e instrucções erão meras formulas, absolutamente desnecessarias á
essencia da negociação. Eu convenho, que ellas erão inuteis nesta
negociação, que semelhante nome não merecia, pois não era mais que
a expressão da vontade do usurpador, apoiada pela força; mas nas
negociações regulares constituem o ponto cardeal, por onde se começa,
e sem o qual tudo o mais he vão. Com tudo as conferencias continuárão,
sem repugnancia; porque ainda se não conhecião os sentimentos de
Labrador; e por preliminar Champagny teve o desembaraço de lhe dizer,
que tinha na sua mão fazer a prosperidade da Hespanha, e tambem a sua
propria.
[Sidenote: 1808
Abril.]
As proposições tinhão variado em alguns accidentes, das que forão
communicadas por Savary; mas na substancia erão as mesmas. O ponto
principal era sempre a renúncia de Fernando, e de toda a sua familia,
e a supplantação da nova dynastia de Napoleão; mas promettia-se em
compensação a Fernando, e á sua descendencia, a corôa de Etruria
com a lei Salica, se quizesse annuir a este tratado; firmado o qual
se lhe asseguraria, convindo-lhe, o seu casamento com a sobrinha de
Napoleão. Em termos bem claros se accrescentava, que se Fernando não
acceitasse este tratado, ficaria sem compensação, e o farião executar
por condescendencia, ou por força.
Labrador, fiel ás instrucções, que recebêra, sustentou, como digno
successor de Cevallos, os direitos de Fernando, a resolução, em que
este se achava de não annuir a proposições tão iniquas, e a sua
repugnancia em acceitar a corôa d’Etruria, porque pertencia a outrem, e
elle Fernando estava satisfeito com a que a Providencia lhe havia dado;
e que se por esta negativa Napoleão se julgasse authorizado a usar da
força, appellava para a Divina Justiça, dispenseira dos thronos, que
protegeria a sua causa, e dos seus reinos.
[Sidenote: 1808
Abril.]
Desenganados o amo, e o ministro de que nada concluião pelos meios
artificiosos da diplomacia, desfizerão-se das negociações, com o
pretexto de que Labrador não tinha o emprego correspondente ao de
Champagny, e se ordenou a Murat, que fizesse partir os Reis pais para
Bayona, a fim de serem estes os que soltassem as difficuldades.
[Sidenote: 1808
Abril.]
Não foi custoso a Murat o cumprimento desta ordem; porque exercitava
em Madrid hum imperio absoluto; e apenas Fernando VII. dera as costas,
tinha frequentado públicamente o Escurial, a conferenciar com os Reis
pais, que alli tinhão ido residir, com o pretexto da Semana Santa, e
se havião entregado, sem reserva, nas suas mãos. Elles porém exigírão,
que os precedesse o valido, o que tambem se executou. Foi hum dos
tragos mais amargos para o povo d’Hespanha o vello entregar ao exercito
Francez, ficando a salvo de tantos crimes para com o Rei, e a nação
inteira. Publicou-se este successo em huma gazeta extraordinaria de
Madrid a 22, quando o prezo já estava a algumas leguas desta capital,
com a circumstancia de que o Rei tinha offerecido a Napoleão, que
dispuzesse da sua sorte, com a condição de elle não poder mais entrar
na Hespanha; e que Napopoleão, acceitando a offerta, o mandára receber
por Murat. Foi mais huma impostura, que se acreditou geralmente,
debaixo da fé de huma participação official; mas Cevallos fez patente
a verdade, publicando no appendix á _Exposição dos factos_ as
peças originaes, e as circumstancias mais particulares deste arduo
negocio. Napoleão, e Murat invertêrão essencialmente a offerta do Rei;
e ameaçando este ultimo usar da força, a Junta do governo annuio, por
fraqueza, á sua requisição, a pezar da opposição heroica de hum dos
seus vogaes, e das reclamações do Marquez de Castellar, encarregado de
guardar o prezo.
Os Reis pais seguírão immediatamente o mesmo caminho, e todos forão
metter-se em Bayona, onde os deixarei por algum tempo, para voltar aos
negocios de Portugal.