CAPITULO XXXVII.

_As tropas Francezas se apodérão das praças principaes da Hespanha, e

Murat com o grosso do exercito se aproxima a Madrid; a corte d’Hespanha

se dispõe a retirar-se para o Mexico; revolução de Aranjuez, de que

resultão a queda do valido, e a abdicação de Carlos IV.; primeiros

actos do governo de Fernando VII. Murat em Madrid; sua audacia,

intrigas, e maquinações._

[Sidenote: 1808

Març.]

DIZIA hum escritor célebre, para pintar mais ao vivo as atrocidades,

de que a Inglaterra em outro tempo foi theatro, que pertencia ao algoz

o escrever a sua historia; e que direi eu agora dos successos da

Hespanha, e das perfidias de Bayona, em que vou entrar? Só huma furia

he que poderia pintallos com as suas cores naturaes.

[Sidenote: 1808

Març.]

O amigo de Carlos IV., o seu intimo, e fiel alliado, tendo mettido

na Hespanha, não só as tropas, que se annunciavão destinadas para

cooperarem em caso de necessidade com o exercito de Junot, mas todas

as de que podia dispôr, mandou aos seus Generaes, que por vontade,

ou por força se assenhoreassem das fortalezas de Pamplona, S.

Sebastião, Figueiras, e Barcelona, como as unicas, que podião obstar

á invasão, e elles assim o praticárão. As tropas Francezas, em lugar

de resistencia, encontravão por toda a parte ordens as mais positivas

do ministerio Hespanhol, para serem recebidas, como alliadas, e

tratadas do melhor modo possivel: era a propria victima, quem armava

o braço do seu assassino. Senhores das praças, os Generaes passárão

a fazer requisições as mais extraordinarias, e a guarnecellas, e

aprovisionallas, como quem se preparava para hum cerco. O Conde de

Espeleta, Governador, e Capitão General de Catalunha, teve a este

respeito discussões muito sérias com o General Francez Duhesme; mas

huma ordem do Principe da Paz acabava tudo.

Entretanto Murat, cunhado de Napoleão, seu Lugar-tenente, e

commmandante em chéfe dos seus exercitos na Hespanha, aproximava-se á

capital com o grosso das suas tropas; pondo-se sempre diante dos olhos

de todos, que o seu unico destino era contra o que chamavão inimigo

commum, figurando-se como objectos immediatos, já a conquista de

Gibraltar, já a guarnição das costas, já em fim expedições maritimas, e

quanto lembrava capaz de illudir a nação. A nação não se illudia; ella

estava em convulsões, e dava gritos, mas a corte não acordava.

[Sidenote: 1808

Març.]

Conduzido o negocio a este estado, Napoleão tomou de repente hum tom

de superioridade, e escreveo a Carlos IV. huma carta imperiosa, em que

o reprehendia de lhe não ter renovado a petição de huma Princeza da

sua familia para seu filho o Principe das Asturias: Carlos respondeo

com brandura, que ratificava o mesmo, que já tinha dito, e estava

prompto, para que se verificasse o casamento. Tal era a cegueira, em

que todos andavão, que o mesmo Principe se achava ainda embebido nas

idéas deste casamento, pelas persuasões, talvez sinceras, do Embaixador

Francez Beauharnois, parente da pertendida noiva; e olhava o exercito

Francez, como o seu vingador, contra as injúrias do privado. Napoleão,

conhecendo perfeitamente as disposições do espirito de toda a nação

Hespanhola a favor de Fernando, e contra Godoy, tinha tido com effeito

a arte de persuadir, que favorecia o primeiro, e estava indisposto

contra o segundo.

[Sidenote: 1808

Març.]

No meio desta apathia geral da corte d’Hespanha, apparece em Madrid D.

Eugenio Izquierdo, encarregado de huma commissão verbal, secreta para

os Reis pais. Napoleão o tinha conservado em París no maior abatimento;

agora o tirou delle, para lhe servir de agente ás suas novas

maquinações. Soube inspirar-lhe hum grande terror, para que elle tambem

o inspirasse aos Reis, e ao privado: não lhe confiou proposições por

escrito, nem elle as devia levar, e tinha ordem, para se não demorar

mais de tres dias.

[Sidenote: 1808

Març.]

Chegado Izquierdo a Aranjuez, o Principe da Paz o apresentou

immediatamente aos Reis pais; e forão tão secretas, e mysteriosas as

conferencias, que nada transpirou ao público; mas vio-se bem pelas

consequencias, que o véo tinha cahido. Começou-se logo a descobrir

a resolução tomada pelos Reis, e pelo seu valido, de abandonarem a

Hespanha, e se retirarem para o Mexico; e derão-se as providencias para

huma prompta partida: he o que pertendia Napoleão, para os surprender

no caminho, ou, quando não fosse praticavel este passo, tirar dahi

pretexto, para lhe usurpar o reino, que era exactamente o que acabava

de praticar em Portugal.

Esta resolução inesperada tinha em si mesma grandes motivos para

electrizar, e assustar a nação; mas bastava o considerar-se como obra

do Principe da Paz, para excitar o odio, e a indignação do público.

Os espiritos se inquietárão, e deixárão-se perceber symptomas os mais

evidentes de fermentação, e descontentamento; mas ninguem ousava

romper; porque a indignação, e o descontentamento erão contra o valido,

e contra a evasão da corte, mas não contra os Soberanos. Estes o

conhecêrão; e para tranquillizarem o povo, fizerão desmentir as vozes,

que corrião, assegurando-lhe, que o não abandonarião: com tudo os

preparativos continuárão.

[Sidenote: 1808

Març.]

[Sidenote: 1808

Març.]

Soube-se a 16 de março, que se mandavão transferir de Madrid

para Aranjuez as guardas Reaes de _corpus_, os batalhões das

guardas Reaes Hespanholas, e vallonas com os esquadrões ligeiros de

_carabineros_ Reaes, e outros corpos, pertencentes á guarnição; e

isto fez crescer a agitação popular. Para a socegar, se expedio nesse

mesmo dia hum decreto em fórma de proclamação, no qual se participava,

que S. M. C. olhava como hum novo testemunho dos sentimentos do coração

de seus fiéis vassallos a sua nobre agitação, naquellas circumstancias:

que os amava, como hum pai terno, e se apressava a consolallos na

sua actual angustia, que os opprimia; que respirassem socegados,

e soubessem, que o exercito do seu caro alliado, o Imperador dos

Francezes, atravessava o seu reino com idéas de paz, e de amizade,

sendo o seu objecto transferir-se aos pontos, que se vião ameaçados

de algum desembarque do inimigo. Que a reunião dos corpos da sua

guarda não tinha o objecto de defender a sua pessoa, nem acompanhalla

em huma viagem, que a malicia lhes tinha feito suppôr, como precisa.

Que rodeado da acrisolada lealdade dos seus amados vassallos, da qual

recebia tão irrefragaveis provas, nada tinha que temer; e quando a

necessidade urgente o exigisse, não podia duvidar das forças, que os

seus animos generosos lhe offerecerião. Que não, que essa urgencia

a não verião os seus póvos. Que socegassem os espiritos, que se

portassem, como até então, para com as tropas do alliado do seu bom

Rei, e que verião em breves dias restabelecida a paz dos seus corações,

e a elle gozando da que o ceo lhe concedia no seio da sua familia, e do

amor dos seus vassallos.

[Sidenote: 1808

Març.]

Pelas 7 horas e meia da manhã do mesmo dia 16 se apresentou Dom Carlos

Velasco, principal Secretario na Secretaria do Estado maior general, ao

Presidente do conselho Real de Castella, e o informou de que os chéfes

daquella repartição tinhão recebido hum decreto do Grão-Almirante, e

Generalissimo, (o Principe da Paz) em que se lhes mandava, que dessem

as ordens necessarias, para a remoção das referidas tropas de Madrid

para Aranjuez; accrescentando, que elle Presidente fizesse publicar

hum edicto, que assegurasse ao povo ser esta medida hum mero acto de

precaução, para prevenir quaesquer perigos em huma cidade aberta; visto

que a alliança entre S. M. C., e o Imperador dos Francezes existia

inalteravel. Accrescentou Velasco, que para abbreviar o acto, os seus

superiores o tinhão mandado com esta commissão verbal, em quanto se

preparava huma participação por escrito.

[Sidenote: 1808

Març.]

O Presidente, que não conhecia Velasco, exigio delle, que escrevesse,

e assinasse esta parte; e foi com ella ao conselho, que reflectindo

maduramente sobre as consequencias da partida da Familia Real, a

que provavelmente se encaminhavão estas disposições, e nos recentes

acontecimentos de Portugal, conhecendo as maximas Francezas, e tremendo

pela segurança do Principe das Asturias, que se considerava em lances

perigosos, procurou impedir, ou retardar a marcha das tropas, na

esperança de que entretanto, ou haveria mudança nos conselhos da corte,

e seus planos precipitados, e formados para o momento, ou ao menos

se facilitaria a fugida do Principe, para a qual se dizia, que já se

tinhão tomado medidas secretas. Nestas vistas o conselho entreteve os

chéfes do Estado maior general até as 4 da tarde, e a esta hora, sendo

necessario tomar hum partido, fez communicar-lhes, que havia resolvido

não se publicar o edicto, até que S. M. lesse hum relatorio, que se

havia de apresentar nas suas Reaes mãos, e determinasse á vista delle o

que fosse da sua Real intenção.

O relatorio foi apresentado ao Rei, e nelle lhe expunha o conselho

tudo o que a fidelidade, e o zelo dos seus membros lhes havia dictado;

mas inutilmente. As tropas partírão nessa mesma noite para Aranjuez,

antes de se tomar decisão alguma sobre o relatorio, e sem que se

publicasse o edicto, e os preparativos para a viagem continuárão,

encaixotando-se fato, dispondo-se mudas, &c.

[Sidenote: 1808

Març.]

[Sidenote: 1808

Març.]

Como o Principe das Asturias se oppunha á partida, foi rodeado de

espias mui vigilantes; mas elle as póde enganar por hum momento na

manhã de 17, e disse a hum guarda de _corpus_:--_esta noite

he a viagem, e eu não quero ir_.--Estas palavras ateão o fogo;

os moradores de Aranjuez se inquietão, e amontoão; mas sem faltarem

ao respeito para com os seus Soberanos, só pertendem evitar a sua

evasão.[14] Aquella noite não se vê, senão gente pelas ruas, e pelos

caminhos, sem armas, e com muitas lagrimas; espreitão todos os

movimentos do palacio, e da casa do valido, e sentindo nesta algum

rumor se aproximão mais; os guardas indiscretos fazem fogo sobre o

povo, e a mina rebenta de improviso. A casa he atacada, e posto que as

guardas conseguem repellir o povo no primeiro assalto, as guardas de

_corpus_ se unem a este, tendo deposto, e prezo o seu commandante

D. Diogo de Godoy, irmão do valido; e então nada lhe resiste. São

arrombadas as portas, e não fica recanto algum, por registrar; mas não

se acha o Principe da Paz, que era o alvo, a que se dirigia todo este

povo enfurecido.[15]

[Sidenote: 1808

Març.]

A Familia Real passou toda a noite, sem se deitar; e mostrando-se de

huma varanda do palacio, recebeo os mais affectuosos applausos públicos

do seu povo. As lagrimas corrêrão com abundancia, e a tranquillidade

ficou restabelecida, apenas se acreditou, que Godoy não podia já roubar

a este povo o seu Soberano.

[Sidenote: 1808

Març.]

O dia, e a noite de 18 forão de perfeita tranquillidade: a 19 houve

huma nova explosão, mais violenta, que a primeira. O valido tinha-se

escondido debaixo de huma esteira, com hum par de pistolas, e algumas

alfaias preciosas: a fome o descubrio, e apenas appareceo, o povo

se amotinou de novo; e sem dúvida o teria despedaçado, se Fernando,

enviado por seu Pai para o soccorrer, lhe não salvasse a vida. As

guardas de _corpus_ forão incumbidas de o conduzirem ao quartel,

e com effeito a elle o levárão vivo; mas não pudérão evitar, que, ás

mãos do povo, deixasse de ser ferido, e maltratado com pancadas, e

bofetadas, que chegárão a desfigurar-lhe algum tanto o rosto, de que

foi cuidadosamente curado. Prometteo-se ao povo, que elle seria julgado

segundo as leis, e o povo he tão docil, que se apresenta de novo aos

Reis pais, para lhes tributar o seu respeito, e se tranquilliza de

tal maneira, que Aranjuez não parece já o theatro, em que acabava de

representar-se aquella scena ruidosa.

Pela tarde dispuzerão Carlos IV., e Maria Luiza fazer transportar o

valido para Granada: já o coche estava prompto, e o povo, novamente

irritado, se apresenta diante do quartel, e faz o coche em pedaços;

mas o Rei contenta-se com lembrar-lhe o cumprimento da sua palavra.

Entretanto o povo de Madrid renovava com maior calor nesta capital

as scenas de Aranjuez. As casas, e móveis de D. Manoel Godoy, de

seus irmãos, e de varios ministros, que erão, ou se suppunhão do seu

partido, forão pasto das chamas: durou o tumulto 36 horas, sem outro

acontecimento notavel, á excepção de alguma embriaguez.

[Sidenote: 1808

Març.]

[Sidenote: 1808

Març.]

Foi no mesmo dia 19, que appareceo o imprevisto decreto, em que

Carlos IV. declarou, que não podendo supportar por mais tempo o

pezo do governo, e tendo precisão de gozar do socego de huma vida

particular em clima mais temperado, para o restabelecimento da sua

saude, tinha resolvido, depois de huma madurissima reflexão, abdicar

a sua corôa a favor do seu herdeiro, e prezadissimo filho, o Principe

das Asturias; ordenando consequentemente, que o mesmo fosse dalli em

diante reconhecido, e obedecido como Rei, e natural senhor de todos os

seus reinos, e soberanias. Este decreto, por imprevisto, não deixava de

ser espontaneo; e não era vã a expressão _depois de huma madurissima

reflexão_. He verdade, que a 18 tinha Carlos feito publicar huma

proclamação, em que annunciava, que concedia ao Principe da Paz a

demissão dos seus empregos, (esta expressão he a que amotinou mais o

povo de Madrid) e tomava a resolução de assumir elle mesmo o commando

do exercito, e da esquadra; mas esta declaração he a que visivelmente

se conhece forçada, e filha das circumstancias daquelle dia. Carlos

não podia desconhecer-se, até o ponto de querer seriamente tomar

sobre si, depois de velho, e doente, hum pezo, que sempre fora tão

desproporcionado ás suas forças.

Os Reis pais não deixárão de recommendar o valido a Fernando VII.;

mas era tal a indisposição do povo Hespanhol contra elle, que o novo

Rei, para restabelecer a tranquillidade, foi precisado a dar, e fazer

públicas as suas ordens positivas, para se sequestrarem os bens

daquelle valido, promettendo ao mesmo tempo a competente reparação aos

seus vassallos das injúrias, que tinhão soffrido por causa delle. Foi

este hum dos primeiros actos do governo de Fernando.

[Sidenote: 1808

Març.]

Não he provavel, que Napoleão esperasse esta solução aos negocios da

Hespanha; porém Murat, o mesmo que hoje occupa o throno usurpado de

Napoles, e então se appellidava Grão-duque de Berg, e de Cleves, vinha

assás munido de instrucções para todo o successo. Á primeira noticia

destes movimentos, elle avança com o seu exercito para a capital, onde

fez a sua entrada a 23, fallando sempre em paz, e alliança, e dizendo,

que o seu destino era para Cadix. Tinha-se-lhe apromptado o palacio do

Retiro; mas elle o não acceita, e vai aquartelar-se na casa de Godoy,

onde aproveita a baixella, e outras preciosidades, que ainda achou, e

até alguns quadros, que tinhão escapado ao furor popular, e estavão

pendurados pelas paredes.

O corpo d’exercito do General Dupont tinha tido ordem de estacionar

em Segovia, mas bem depressa foi mandado sobre Toledo, onde o povo se

achava sobre maneira inquieto, ameaçando contínuamente renovar os dias

de Aranjuez, e de Madrid.

[Sidenote: 1808

Març.]

[Sidenote: 1808

Març.]

Antes de entrar na capital, já Murat tinha enviado a Aranjuez o seu

emissario B. de Mouthion, para manejar a intriga com os Reis pais

contra o innocente Fernando. Para tudo ser extraordinario, dirigio-se

pela Rainha d’Etruria, aquella mesma, que acabava de ser despojada de

huma corôa, que regia em nome de seu filho, e que, segundo se mostra,

continuava ainda a ser illudida com as esperanças do novo reino, que

se lhe promettêra. As ordens erão apertadas: o emissario a procura

pelas 8 horas da manhã, quando ella estava ainda na cama; estavão

porém dispostas as cousas de tal maneira, que o recado se lhe deo

immediatamente, ella se levantou, e fez entrar o emissario, de quem

recebeo a carta, e a foi ler com os Reis pais. He bem notavel, que

estes factos tão importantes tenhão escapado a todos os escritores

Hespanhoes, de que as obras tem chegado ao meu conhecimento: com tudo

elles são constantes da propria carta de Mouthion a Murat, datada do

mesmo dia 23, que se inserio no _moniteur_ de 3 de maio, sem

dúvida para se fazerem circular as falsidades, que ella contém contra o

novo Rei; falsidades igualmente apoiadas em outra carta, tambem inserta

na mesma folha daquelle periodico, que se diz escrita pelo proprio

Carlos IV. a Napoleão, em que já se inculca violentada a abdicação

deste miseravel Rei, a qual todo o mundo vio, e connheceo, que era

espontanea, e reflectida, e que toda a nação recebeo com enthusiasmo,

pela sua affeição decidida ao novo Monarca, no qual fundava todas as

suas esperanças.

[Sidenote: 1808

Març.]

Fernando, que tinha estado aquelles dias em Aranjuez com os Reis seus

pais em perfeita harmonia, lisongeando-os com a promessa de conservar

a vida ao valido, cuja sorte era sómente o que os inquietava, e de

nenhuma fórma a demissão de hum pezo, que Carlos não podia, nem queria

mais sustentar, resolveo-se tambem a fazer a sua entrada pública em

Madrid. Mesmo de Aranjuez tinha elle escrito huma carta a Napoleão,

dando-lhe parte, em termos os mais expressivos, e amigaveis, da sua

exaltação ao throno; e despedido huma deputação de tres grandes

d’Hespanha, para o cumprimentarem em seu nome, e outro grande, para

fazer o mesmo obsequio a Murat.

A 24 se realizou a entrada do Rei em Madrid; e esta ceremonia se fez,

sem mais ostentação, que a do concurso innumeravel do povo desta

capital, e terras circumvisinhas, cujos vivas, e applausos manifestavão

a sua extrema fidelidade, o seu amor, o seu enthusiasmo. Hum pai

carinhoso, depois de huma dilatada ausencia, não he recebido com mais

ternura pelos seus amados filhos; e todos o reputavão, como pai, como

o regenerador, o anjo tutelar da monarquia, que só a podia salvar do

precipicio.

[Sidenote: 1808

Març.]

Este espectaculo desconcertava o plano de Murat; mas elle não desanima

de o levar ao fim; e em quanto por huma parte se portava com tanta

audacia, que não quiz reconhecer a Fernando, como Rei, com o pretexto

de que o não podia fazer, sem ordem de Napoleão, por outra fazia

todos os esforços, para o separar de Madrid, espalhando a noticia

da vinda proxima do Imperador a esta capital, e do muito, que lhe

seria agradavel, que Fernando o fosse receber ao caminho. Fernando

era tão sincero, ou tão enganado, que continuava a fazer prestar-lhe

todo o genero de obsequios, e todos os soccorros possiveis ao seu

exercito. Elle cuidou ainda consolidar a segurança, e a prosperidade da

monarquia, escrevendo huma nova carta a Napoleão, em que lhe fazia os

protestos da mais verdadeira amizade, e firme alliança, e lhe renovava

a petição da Princeza da sua familia em casamento. Por muitas vezes se

conhecérão disposições no povo Hespanhol, para cahir sobre o exercito

Francez, mas Fernando o detinha, declarando-lhe, que estava satisfeito

do seu intimo alliado, e amigo; que as suas tropas marchavão contra o

inimigo commum; que era preciso auxiliallas com huma generosidade, que

seria considerada, como hum serviço distincto á sua Real pessoa.

[Sidenote: 1808

Març.]

Murat não reconhecia Fernando VII.; mas apoderava-se da sua casa de

campo no Retiro, profanava os seus penetraes, e destruia os jardins:

ouvia-se em Madrid o ruido das arvores, que se cortavão; e erão golpes

profundos nos corações de todos os bons Hespanhoes. Ainda fazia mais.

Occupava os pontos mais importantes, detinha os viveres, apoderava-se

nos caminhos das munições destinadas para a tropa Hespanhola, e fazia

todas as noites rodear Madrid pelas suas grandes guardas, aguçando

á vontade, dentro dos proprios muros desta capital, os cutélos, que

brevemente devião inundar as suas ruas do mais bello sangue Hespanhol.

Mas não anticipemos os factos.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 22 / 35 题