_O governo intruso procura ainda conseguir partidistas em Portugal,
e consegue poucos; estranho modo, com que Junot se fez cumprimentar
pelos membros do legitimo governo supprimido, e pelas differentes
classes do Estado; novas promessas; movimentos dos Inglezes; esperanças
de rompimento da parte da esquadra Russiana; providencias de Junot
para impedir a communicação com a Ingleza; mais traficancias, e
extorsões._
[Sidenote: 1808
Fev.]
EM quanto por estes actos de rapina, e de sangue os Francezes
provocavão mais, e mais o odio, e o horror da nação, elles procuravão
ainda alliciar ao seu partido alguns miseraveis, que seduzidos com vãs
promessas, cuidavão achar fortuna nas ruinas da patria. Fazião destes
os seus apostolos, e alguns achárão; mas o seu pequeno numero faz
honra á nação Portugueza. He hum facto singular, que os vencedores da
Europa, cujos papeis públicos tanto abundão em relações, verdadeiras,
ou affectadas, das illuminações, festas, e outras semelhantes
demonstrações de prazer, com que forão recebidos nas capitaes, e nas
grandes cidades, onde tem entrado, não achárão senão tres Portuguezes,
que celebrassem com luminarias o estabelecimento do seu governo. Estes
mesmos ficárão sempre marcados com o cunho do odio público; e depois da
restauração os Governadores do reino, para fazerem cessar o escandalo,
os desterrárão, dous para dez leguas longe de Lisboa, e o terceiro, por
ter dado outras provas de affeição ao governo intruso, para fóra de
Portugal, e seus dominios, por decreto de 31 de outubro de 1808. Não
tiverão outras salvas, outros festejos, senão os que derão a si mesmos.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Mas era-lhes necessario haver materia, que servisse de pretexto
aos seus contos mentirosos, para encherem os periodicos, enganarem
as nações estrangeiras, a França, e talvez o proprio Napoleão. Para
satisfazer a estes fins, e á sua vaidade, Junot obrigou todas as
ordens do Estado, os tribunaes, e os proprios membros do desfeito
governo a que o fossem cumprimentar em acto solemne, pelo motivo da
sua instalação no novo emprego de Governador do reino. Digo, que os
obrigou, porque fazer-lhes noticiar a sua vontade, e assinar-lhes dia,
e hora, era violentallos. Dizem, que he costume muito geral entre os
negros, d’Africa transportados ás colonias dos Europêos, prostrarem-se
ante os seus barbaros senhores, quando acabão de despedaçar-lhes o
corpo, e rasgar-lhes as veias com o azurrague, para lhes agradecerem
este cruel tratamento: he huma imagem sensivel do que exigião dos
Portuguezes os seus barbaros tyrannos.
[Sidenote: 1808
Fev.]
He notavel a falla, que fez Junot aos Governadores do reino na acção
daquelle público cortejo. Como alguns delles tinhão entrado para o
synedrio do seu novo conselho, e outros ficárão excluidos, mostrou-lhes
o sentimento, que tinha de que não pudessem todos ter sido empregados;
mas deo-lhes a consolação de que o poderião ser na deputação, que devia
fazer se ao Imperador, e voltando-se para o Marquez d’Abrantes, lhe
disse: _e V. Excellencia pelas suas qualidades, e como Presidente,
que era do conselho da regencia, he natural, que tambem o seja da
deputação_.[7] Que despacho para este, e que esperanças para os
outros!
[Sidenote: 1808
Fev.]
Seguírão-se novos festins, dados por Junot a Portuguezes, e Francezes,
e que os primeiros já mais recebião, sem aquelle ar sombrio, que
havião tomado por divisa: fallo do grande número, e não dos poucos,
que se unírão aos Francezes. O theatro de S. Carlos, de que Junot,
ou gostava, ou fingia gostar, e que sómente se sustentava pela sua
protecção, retinia com applausos ao novo Governador, e seus sequazes;
mas erão dados por huns aos outros, e poucos Portuguezes os escutavão.
Tudo estava triste, e consternado; mas querião, que tudo parecesse
contente, e que, sem nos deixarmos affectar pelos sentimentos reaes da
oppressão, e das calamidades presentes, nos entregassemos a transportes
de alegria, pelas quimericas, e impossiveis felicidades, que nos
promettião. Cinco, ou seis mezes era o prazo, que assinalavão para
a abertura dos nossos portos, depois da qual tudo seria abundancia,
e riquezas; mas entretanto morria-se de fome, e não se via, como os
Francezes pudessem conseguir o milagre, que promettião, ainda que
quizessem.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Fallava-se em abrir huma estrada de Lisboa até Badajoz, e hum canal
de Setubal até a Moita, em se completar o palacio da Ajuda, e em
outras obras públicas, onde se empregassem os artistas, e jornaleiros,
que pedião esmolas; mas tudo erão palavras, que o vento levava,
permanecendo sempre a desgraça pública.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Os Inglezes não deixavão de concorrer por varios modos para os
festejos dos Francezes, por occasião do novo governo, que era
hum objecto muito importante, para os não interessar: elles erão
exactamente informados do que se passava em terra, não só por via dos
barcos de pesca, e pelos Portuguezes, que continúamente emigravão;
mas tambem pelos seus emissarios, que sempre pudérão enviar a Lisboa,
quando lhes era preciso. Até fazião públicamente seus desembarques
em alguns pontos da costa mais afastados das fortalezas, comião em
terra, levavão refrescos, e se ausentavão em boa paz. O Almirante
Cotton tinha vindo tomar o commando do bloquéo, e mandava algumas
embarcações parlamentarias dentro da barra, debaixo de varios
pretextos: de noite vinhão outras apresentar-se em frente das torres,
em distancia conveniente, roubando o sono aos valerosos Marenguistas, e
Austerlicianos, que as guarnecião, e obrigando-os a huma despeza inutil
em polvora, e balas perdidas; em fim procuravão por todos os modos
possiveis desafiar, e insultar a sua esteril cólera. Junot irritado,
e desesperado quiz romper absolutamente toda a communicação com a
esquadra Ingleza, não se poupando a providencia alguma concernente
a este fim; e foi huma dellas o negar-se mesmo a admittir mais
parlamentarios.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Para dar maior publicidade a esta sua resolução, a reduzio depois a
hum decreto publicado por editaes, em que ordenou, que se fizesse fogo
sobre qualquer embarcação Ingleza, que se apresentasse ao alcance das
baterias, e fortes, em toda a extensão da costa de Portugal; e comminou
penas as mais severas contra o que fosse convencido de infracção
desta lei, o que fosse apanhado navegando para a esquadra, o patrão
do barco, ou qualquer outra pessoa, que o conduzisse, aconselhasse,
&c. O que mostra mais a sabedoria, e humanidade do legislador, he hum
artigo, em que determinou, que toda a pessoa convencida de _haver
querido facilitar_ a passagem de alguem para bordo da esquadra
Ingleza, seria conduzido perante huma commissão militar, para ser
julgado como _complice com o inimigo_, e como culpado do crime
de _induzidor_, e de _espião_, e como tal _punido de
morte_.[8] Convencido de actos internos, de mero desejo! Punido de
morte o simples contato, e caracterizado de crime de espionagem, e de
traição hum facto, que de sua natureza não he crime! A liberdade, que
compete ao homem, de abandonar a sua patria, quando esta lhe nega os
meios de subsistir, he hum direito incontestavel, ainda em hum governo
legitimo, e muito mais em huma dominação intrusa, que se não tem
reconhecido.
[Sidenote: 1808
Fev.]
No dia immediato á declaração do governo Francez, quando Junot já não
admittia parlamentarios, o Almirante Inglez mandou hum a Setubal,
onde ainda governava Solano, com varios prisioneiros Hespanhoes. Elle
conduzia ao mesmo tempo cartas circulares aos consules da Russia,
Estados unidos, e Suecia, que continhão intimações sobre o bloquêo de
Lisboa, e Porto; huma instrucção para o commissario encarregado dos
prisioneiros Inglezes em Lisboa; e hum masso de cartas para o Almirante
Siniavin; entre as quaes erão duas do Almirante Cotton, que indicavão
achar-se este munido de despachos secretos para o mesmo Siniavin.
Solano remetteo tudo a Junot, que não fez escrupulo de abrir as cartas
de Siniavin, cujo segredo lhe fez augmentar a vigilancia, para vir no
conhecimento de qualquer communicação, que tivessem entre si os dous
Almirantes.
[Sidenote: 1808
Fev.]
O público comprehendeo huma parte destes successos, ainda que não
tinha dados, para penetrar as suas particularidades. Concebêrão-se
algumas esperanças de rompimento da parte da esquadra Russiana contra
os Francezes, e até chegou a divulgar-se por mais de huma vez, que
ambas as esquadras se communicavão por sinaes, e por emissarios.
O certo he, que o comportamento da officialidade Russiana, sempre
comedido, e reservado para com os Francezes, e as manobras da esquadra
Ingleza, confirmavão o povo de Lisboa nestas idéas, que por lisongeiras
se acreditavão mais, esperando-se a cada momento ver estas torres
movediças romperem a barra, e libertarem o Téjo. Hum tempo delicioso
tinha succedido aos dias tempestuosos daquelle inverno, e permittia á
esquadra o bordejar junto á terra, e fundear na enseada de Cascaes;
chegando a tanto a ousadia dos marinheiros Inglezes, que em huma
noite vierão buscar dentro do porto, muito acima das torres, huma
barca canhoneira, que servia de registro a todas as embarcações, que
entravão, ou sahião.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Tudo porém ficou em desejos; porque Siniavin seguia as ordens de seu
amo, que continuava na sua inalteravel fraternidade com Napoleão,
depois que ambos bebêrão pela mesma taça em Tilsit; e os Inglezes
reservárão o seu golpe decisivo para occasião mais opportuna, deixando
Junot em liberdade, para ir passar as suas bellas tardes á quinta do
ramalhão, e continuar a fazer a sua fortuna, que era o fim principal, a
que dirigia os seus cuidados.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Já em outro lugar tenho referido alguns dos meios, que Junot pôz em
pratica, para conseguir este fim, (cap. XIX) mas he huma materia, que
facilmente se não esgota. Logo na sua entrada tinha feito conhecer, o
quanto lhe seria agradavel, que o corpo do commercio o comprimentasse,
e soubesse merecer a sua protecção. A hum bom entendedor meio aceno he
bastante: forão comprimentallo os negociantes, e á frente destes a Real
Junta do commercio; e não consta que em outro algum dos cortejos, que
recebeo em Portugal, mostrasse tanta satisfação, e tanta dignidade: o
que se deveo sem dúvida a huma bagatella, que a mesma Real Junta lhe
offereceo em nome do commercio, acompanhada de huma oração em Francez,
que se recitou alli mesmo, em quanto elle, com o seu chapéo de plumas
debaixo do braço, prodigava agrados, promettia protecções, e lançava a
mão sobre a bagatella, que consistia na sua cifra em brilhantes, que
custárão á Junta 40:236$120 rs.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Junot o promettêra, era recessario cumprillo. Sabe-se a assinalada
protecção, que concedeo ao commercio: tambem quiz, ou affectou querer
proteger a Junta, fazendo apprehender o cabebal, que ella administrava,
proveniente das fazendas de tomadias; mas acudio-se-lhe com mais
48:000$000 rs., e não se fallou mais na materia. Aqui temos, que só
por esta repartição fez Junot a sua colheita de duzentos vinte mil e
tantos cruzados em duas addições. He facto innegavel, e ellas existem
lançadas nos livros da Junta, assinaladamente no respectivo da caixa do
cofre geral a folh. 5, e folh. 155; mas he necessario advertir, que no
lançamento desta ultima houve disfarce, para salvar o nome do General,
imputando-se os 48:000$000 rs. á quota parte da contribuição militar,
pertencente ás fazendas de tomadias, em que forão multadas: multa,
que não houve, senão para o General. Vive o portador desta quantia, e
existem papeis, que demonstrão a sua applicação.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Tambem deixo dito alguma cousa sobre as extorsões, a que servião de
pretexto as licenças para a sahida de navios; mas aqui he o lugar
proprio, para se desenvolver este objecto. Na fórma das ordens
subsistentes dos dous governos Francez, e Inglez, não havia bandeira
alguma neutra, que pudesse entrar, ou sahir dos portos de Portugal; mas
Junot inventou duas, a dos Estados unidos d’America, e a de Kniphausen,
deste pequeno, e quasi deserto porto, que forão descubrir na fóz do
Elbo, para ser agora o vehiculo de importantes negocios. Abrio o
exemplo de licenciar alguns navios, para sahirem com estas bandeiras; e
como se visse, que a esquadra Ingleza lhes não fez obstaculo, porque as
vistas do ministerio Britanico tendião a favorecer por todos os meios a
evasão de tudo o que pudesse tirar-se de Portugal, apresentárão-se por
centenares a pedir licenças. Estas vendião-se por tão alto preço, que
a despeza muitas vezes igualava o valor dos vasos: assim mesmo todos
querião sahir; porque se julgavão condemnados a apodrecer dentro dos
portos, e porque os grandes fretes, que pagavão os passageiros, que
querião emigrar, supprião a tudo.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Ajustavão-se públicamente, e sem rebuço os preços das licenças,
como se fosse huma taxa legal, á proporção do valor, ou da lotação
dos navios; e já mais se concedeo licença, que o preço não
ficasse depositado nas mãos do consul das cidades Anseaticas: he
deste, que depois passava aos differentes individuos, que levavão
parte nesta grande colheita; pois se sabe, que não era tudo para
Junot. Concedião-se sempre com alguma reserva, e gradualmente por
antiguidades, ou segundo a ordem do mais, ou menos, que produzião para
a caixa; e não foi difficil de conhecer, que a razão desta reserva:
era, para que a sahida simultanea de hum grande número de navios não
fizesse tanto estrepito, que ferisse os ouvidos de Napoleão.
[Sidenote: 1808
Fev.]
A estas indulgencias deveo sem dúvida Junot huma boa parte da
sua fortuna; e devêrão innumeraveis Portuguezes o seu resgate,
transportando-se a paizes livres. Em fim Napoleão o soube; e tambem
lhe constou o que praticava aquelle General com a companhia dos vinhos
do alto Douro, e alguns particulares, permittindo-lhes o transportarem
vinho em navios neutros. Estava regulada a taxa por pipa, e a companhia
sabia merecer-lhe esta graça; porque era hum corpo muito generoso, e
rico. Consta da balança do commercio, que a exportação excedeo no tempo
do governo intruso a 30$ pipas, por cada huma das quaes levava Junot
6400 rs., aqui temos pois mais hum ramo de colheita, que lhe andou por
quasi 500$000 cruzados, além das gratificações extraordinarias.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Muito custou a Junot o desembaraçar-se das asperas reprehensões de
seu amo sobre estes pontos melindrosos. Champagny em huma carta, que
escreveo a Herman, tambem lhe estranhava altamente, que sahissem dos
portos de Portugal tantas pipas de vinho em navios com bandeira de
Kniphausen, para irem satisfazer o appetite dos Inglezes, ao mesmo
tempo que o Imperador não consentia, que sahisse de Bordeaux hum só
barril. Cessou a exportação, e cessárão as sahidas de navios; mas
todos ficárão bem: erão amigos velhos, que sabião perdoar-se as suas
reciprocas fraquezas, porque todos trabalhavão na mesma vinha.