_Continúa-se a materia da contribuição, roubo da prata, e ouro das
igrejas, e outras vexações commettidas pelos Francezes._
[Sidenote: 1808
Fev.]
QUE amplo canal, que bella estrada, para conduzir á França toda
a substancia dos Portuguezes! Que excellentes meios de animar a
agricultura, e a industria, de fazer prosperar as finanças, tirando da
circulação o numerario, e substituindo-lhe bellas palavras, planos,
e promessas admiraveis! Que protecção á religião, e seus ministros,
alliviando estes das suas rendas, para que despidos de todas as
temporalidades, e bens caducos, se pudessem melhor entregar á vida
contemplativa, ás orações, e aos jejuns; e despojando os templos do
ouro, da prata, e de outras iguaes ninharias, com que tinhão sido
successivamente sobrecarregados pelo longo espaço de 7 seculos! Ao
que parece, tambem isto entrava na ordem das superstições, de que o
filosofo Junot fallava no seu famoso edital, que deshonravão a religião
de nossos pais, e de que prometteo livralla. Só os Francezes podião
trazer-nos hum tão sabio plano de administração! A sua politica he
admiravel, porque nivelando os ricos, e os pobres; os grandes, e os
pequenos, isto he, reduzindo todos á classe dos miseraveis, unica de
que se compõe os Estados, que tem recebido as suas reformas, conserva
mais daquella igualdade primitiva, que faz o encanto dos seus novos
Lycurgos.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Portugal póde ter 750$, e quando muito 800$ fogos; e sendo de huma
verdade reconhecida, o quanto he desigual a distribuição das riquezas
neste pequeno reino, e diminuto o número dos proprietarios, em
comparação dos não proprietarios, he sem dúvida, que, por hum calculo
bem favoravel, dos tres quartos desta povoação nada, ou quasi nada
podia tirar-se; e aqui temos reduzido a cousa de 200$ o número dos
fogos contribuentes. He d’entre elles sómente que devião sahir os 100
milhões de francos, depois de roubados por tantas outras maneiras, e de
terem sido paralysadas as fontes da sua riqueza, e prosperidade pela
influencia maligna de hum principio destruidor.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Todo o homem, que tinha algumas ideas do estado da nação, vio logo,
que toda a massa do numerario circulante em Portugal, ainda que
pudesse ajuntar-se, não poderia preencher aquella somma: os mesmos
invasores o conhecêrão bem, e recorrêrão por isso nos meios, que lhes
são usuaes, para facilitarem esta exacção. Os prazos, que assignárão
para os tres pagamentos, parecendo huma providencia de mero favor
aos Portuguezes, era toda em beneficio dos usurpadores. Como podião
elles fazer apparecer de hum jacto os 100 milhões, se tanto não andava
no giro? Indo por partes, e dada a primeira sangria, hum movimento
surdo, mas indispensavel do commercio interior, faria arrancar novas
quantias dos cofres, onde existião afferrolhadas, as quaes, e mesmo o
producto do que o exercito, e a administração Franceza erão obrigados
a ir restituindo circulação, facilitarião a segunda, e a terceira.
Além disso acceitavão nos pagamentos certas qualidades de fazendas, de
que precisavão, e compravão grandes quantidades de algodões, e outros
generos coloniaes, que podião exportar para França, cujos preços, ainda
que excessivos, entravão na massa circulante, sempre sujeita ás suas
requisições, que posta por este modo em movimento, vinha a ser para
elles huma fonte perenne de aquisições.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Os particulares, que interessavão nestas especulações, tinhão ainda
muitas maneiras de fazerem o seu negocio. Tinhão o cuidado de mandar
vir de França a sua moeda fraca, e ou na Hespanha a cambiavão pelos
invejados pezos duros, ou em Portugal pela nossa bella moeda; e aqui
tiravão já hum grande lucro: compravão depois o nosso papel moeda, para
fazerem os seus pagamentos ametade em papel, e ametade em metal, na
fórma da lei. O papel em todo o tempo, que elles existírão em Portugal,
andou entre 28, e 30 por 100 de perda, e tanto lucravão elles nesta
negociação: na sua entrada chegou a 35, e houve dias, em que ninguem o
comprava. O proprio governo intruso desceo á pequena fraude de regular
por hum decreto (de 17 de março) preços menores a algumas das moedas
Francezas para os pagamentos da contribuição, do que aquelles, com que
tinha permittido a sua introducção, e giro.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Foi a contribuição quem abrio os olhos áquelles cégos, que por
dementes, ou por obstinados, não tinhão entrado ainda no espirito
dos invasores. Elles o devião ter conhecido, lendo nas campanhas da
Italia, da Suissa, e da Alemanha o que os Francezes devião praticar na
peninsula.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Em quanto as relações continentaes o permittião, houverão escritores
judiciosos, que nos transmittirão calculos aproximativos, e com aquelle
gráo de exactidão, que permitte a natureza da cousa, dos enormes
roubos, que os Francezes commettião na desgraçada Europa: faltão os
dados, para continuar a conta, depois que os póvos do continente
começárão a ser fintados, sem pezo, nem medida, e perdêrão a liberdade
de escrever, e de fallar. Mallet du Pan, hum dos mais vigorosos atletas
de quantos tem combatido a revolução Franceza com a pena, e talvez
o que soube usar melhor desta arma, mostrava nos principios do anno
de 1799 por hum calculo prudente, que excedião a dous mil milhões
as sommas roubadas, e consumidas por esta hydra.[4] Se este calculo
cança a imaginação, que seria, se lhe ajuntassem os immensos roubos
de Napoleão? _O espirito da républica Franceza_, dizia este
escritor, _he o de hum chéfe de Beduinos: he sómente a hypocrisia, e
o charlatanismo quem o distingue dos do Egypto, e da Syria. Junta ta de
pública segurança, Directorio, Conselhos, Generaes, administradores,
commissarios derão-se as mãos, para converterem o direito de conquista
em direito de confiscação universal: não escapou á sua rapacidade
propriedade alguma, ou pública, ou particular, de qualquer genero que
fosse._ He conhecer perfeitamente os nossos homens, e escrever a
historia exacta do que vierão praticar em Portugal, depois de o terem
praticado nos outros paizes, que tem podido invadir.
[Sidenote: 1808
Fev.]
A peninsula, collocada na extremidade mais occidental da Europa,
he onde vierão completar huma notavel profecia de Mallet.[5] _A
républica Franceza pôz interdicto á républica da Europa; vai devorado-a
folha por folha, como á alcachofra: faz desta parte do mundo huma
fazenda, de que se expulsa o dono, e o caseiro, para lhe roubar os
celleiros, as casas, os curraes, e as alfaias, para depois vender o
chão inculto ao primeiro ladrão, que quiser ajustallo. Para roubar as
nações, he que as põe em revolução; para subsistir he que as rouba._
Consummárão os agentes de Napoleão o que não tinhão podido concluir
os da républica: o espirito he o mesmo, e são identicas as operações.
Felizmente o monstro foi obrigado a vomitar inteira huma folha da
alcachofra; defendamo-la, para que lhe não torne a cahir nas garras. E
vós, proprietarios, que tendes recobrado as vossas fazendas, guardai
os vossos celleiros, as vossas casas, os curraes, e as alfaias: o moço
robusto pegue em armas, o inválido sacrifique huma parte dos seus
cabedaes, para conservar o resto: trabalhem todos, á proporção das suas
forças, na causa, que a todos toca.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Os barbaros modernos aprendêrão dos antigos o modo de opprimir, e
roubar os póvos; mas certamente excedêrão nesta arte aos seus mestres.
Permitti, leitores, que eu vos diga, que até inventárão meios, para
fintarem os homens pelas suas bexigas: todos aquelles, que tinhão a
indiscrição de as alliviarem junto ás guardas Francezas, soffrião logo
hum arresto nos seus chapéos, que lhes não erão restituídos, em quanto
não pagavão ás sentinellas huma moeda de prata, de qualquer valor que
ella fosse. Ouço dizer, que praticão o mesmo em toda a parte, e a tanta
baixeza tem descido a Europa, que ainda se não tocou hum rebate geral
contra esta infame raça, que a assola, e avilta!
[Sidenote: 1808
Fev.]
Não forão ignorados por Napoleão os sentimentos, que produzio em
Portugal a contribuição extraordinaria de guerra: elle reprehendeo a
Junot o ter apressado a publicação do decreto; mas Junot lhe retorquio
em sua defeza, que sendo arguido de apressalla, pensava, que a tinha
demorado muito; porque Napoleão aprazara o 1.^o de fevereiro, para se
haverem por confiscados os bens dos que chamavão emigrados, e elle
tomára sobre si o prolongar este prazo até 15. Vemos por esta resposta,
que Junot alterou neste artigo o decreto de seu amo; mas ainda com a
alteração he zombar muito dos homens comminar huma semelhante pena,
pela não comparencia, a pessoas, que se sabia terem embarcado para o
Brasil, por hum decreto publicado sómente 7, ou 8 dias antes daquelle,
em que devia verificar-se a comminação.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Mas entre tanto as riquezas de Portugal corrião para as mãos avidas
dos oppressores: o ouro, e a prata das igrejas foi a colheita, que se
achou mais prompta, e os templos da capital forão os primeiros, que se
virão despidos das suas preciosidades. Continuou-se a mesma operação
com os das provincias. Com tudo o patriotismo de alguns magistrados dos
que estavão incumbidos della, e de muitos parocos, que se arriscárão a
não darem relações exactas do ouro, e prata das suas igrejas, fizerão
com que escapasse huma consideravel porção á voracidade dos exactores.
A seguinte relação, que me foi confiada como extrahida dos registros do
governo intruso, por pessoa, que servio debaixo das ordens de Herman,
mostra a quantidade destes generos, que foi collectada, e a que entrou
effectivamente na casa da moeda.
_Ouro collectado a 96$000 rs. o marco._
Nas provincias 46^m 4^{onç.} 6^{oit.} 50^{gr.}
Em Lisboa, e termo 4 1 7 65
---------------------------------
50 6 6 45
=================================
_Prata collectada a 5$600 rs. o marco._
Nas provincias 263:226 5 6 »
Em Lisb., e termo 69:146 6 » »
---------------------------------
332:373 3 6 »
=================================
_Entregues._
Ouro das provincias 45 7 2 22
De Lisboa, e termo 4 1 7 65
---------------------------------
50 1 2 15
=================================
Prata das provinc. 208:339 4 » »
De Lisb., e termo 69:146 6 » »
---------------------------------
277:486 2 » »
[Sidenote: 1808
Fev.]
Pelo que pertence aos outros ramos da contribuição extraordinaria,
encontrárão os exactores grandes difficuldades, que retardárão a
cobrança, e não he facil de calcular o que effectivamente recebêrão,
nem saber exactamente o que applicavão para ella; porque alguns artigos
do decreto se reputavão certamente de contribuições ordinarias. Póde
dar-se por certo, que o primeiro 3.^o se cobrou por inteiro; porque
ainda que alguns collectados nada pagárão, tambem outros satisfizerão o
2.^o e alguns o terceiro.