Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza
d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito,
legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus
desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha
acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu
a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do
hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns
desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o
fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que
sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia
ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada,
confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de
Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com
claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo
atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da
peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo,
não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.
Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia
licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder
lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de
sua prima.
Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um
palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal
de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás
vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da
viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em
disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas,
tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.
Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha,
e communicou-as a Alvaro.
--Pois a mãe que esperava!?--disse este--Leonor teve treguas de dous
annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.
--E qual achas tu que é o nosso dever?
--Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não
podér nada com ella, ampare-a como até aqui.
--E se eu lhe retirasse os meios--replicou Maria da Gloria--crês tu que
o segundo calculista a não deixaria em paz?
--Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente
como ella.
--Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?
--Julgo, mãe.
Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar
concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.
--O teu mau anjo não te deixa, Leonor?
--Porque falla assim, minha tia?
--Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as
tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de
felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha?
Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como
pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa
miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das
lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre
coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos
ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!
Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua
tia, soltando estas palavras:
--Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora
fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia
que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera
antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a
vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.
--Explica-te, Leonor...--atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.
--Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista
para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração,
teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o
parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso
de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o
mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me
via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns
punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a
sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus
parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me
era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás
mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do
espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me
culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a
mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um
nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco
illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma
educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente,
humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus
proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades
que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem
merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade
santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido,
eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para
beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous
annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que
meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade,
e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar
a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este
acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam
«cynismo»; é aquillo que eu já disse--o despreso de mim propria.
Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um
homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das
suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós.
É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a
sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por
duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas
da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á
mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as
privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e
sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato
de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na
minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola,
beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem
pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que
os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a
meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus.
Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha
criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha,
que os credores de certo não querem; irei lá viver.
Calou-se Leonor.
Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e
disse:
--Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma
injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de
Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o
remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo»,
foge para mim que eu te abrirei os braços.
Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de
abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.
Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por
elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a
necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso
do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava
casar-se.
Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam
sobre o mesmo motivo, disse:
--Esse homem julgará rica a prima Leonor?
--Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos
seus parentes.
--Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o
beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um
nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...
--Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?
--Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no
collegio, nos meus ultimos tempos.
Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo,
professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim
ao encargo, que recebera:
--Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de
amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as
pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na
poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida
que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é
romantica, terceiro porque é romantica.»
--E porque é rica--atalhei eu.
--Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por
tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...
--Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma
sem-razão. D. Leonor é pobre.
--Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!
Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que
os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos
inconvenientes das suas parentas necessitadas.
--Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr--redarguiu
elle--e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas
que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a
isto?
--Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que
meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c.
Mas--conclui eu--as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu,
prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres
vezes romantica.
--Diz muito bem--acudiu elle:--o casamento ha-de fazer-se, quando eu for
tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e
amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.
--Quer dizer...
--Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se
ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita
philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me
agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui
estou ás ordens.
--Aqui tem o senhor Alvaro--continuou o professor de inglez--o que
passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade
com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.
Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do
mestre de inglez, disse:
--Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas
encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.
Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa
e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados.
Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:
--Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O
cavalheiro de certo não falta.
--Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!?
--E por que não diz «ao seu proprio coração...»?--retorquiu ella
com despeitado sorriso.
--O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se
atreve a entrar nos juizos do espirito...
Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou
anciosa o dia seguinte.
--Vou responder--disse ella--cathegoricamente ás suas cartas. O
pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça
respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas
cartas, não é assim?
--Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!
--Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause
estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.
--Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa
excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da
amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem
distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes
preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu
acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á
minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a
trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com
grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em
confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das
considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?
--Elucide-me...--atalhou Leonor--A sua linguagem é escura!
--Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu
sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem
da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.
--Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava
com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da
felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre
trabalho da intelligencia.
--Tambem é certo--redarguiu algum tanto confuso o jornalista--era,
porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação
áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa
excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade
real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho.
Todavia...
--Queira dizer-me--interrompeu a viuva--a quem pediu informações dos
meus recursos?
--Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as;
não as averiguei; deram-m'as.
--Quem?
--Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?
--Conheço.
--Como conhece, minha senhora?
--Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?
--Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não
tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se
contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.
Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o
litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira
sahir.
Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:
--Sua excellencia manda sahir.
Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se
tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.
Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de
Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era
esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.
Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato
avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.
--A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!--disse a criada--Que tem,
senhora D. Leonor?! a menina tem febre!
--Trazes-me a esmola?--disse Leonor com desabrimento--Leva-a a tua ama,
e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa
encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é
honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre
desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo
do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que
o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu
ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude
não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são
virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.
Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por
julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso
de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o
coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege
de praça, e deu ordens ao boleeiro.
Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que
não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu
serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia
gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.
--Esperemos...--disse elle a sua mãe.