Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria
da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias
de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que
a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria.
E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os
aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas
nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam
espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos
imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido
assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A
sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados
de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores
reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de
capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama,
repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da
criada com um sorriso, e estas palavras:
--Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que
não mata a honra de ninguem.
Ficou Leonor com seu pae.
Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do
defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a
purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto
se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se
viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a
lançava de si:--a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa
na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto
a seiva que as alindava.
Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia
não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa,
menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos
theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os
conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas
ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para
acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar
que hoje.
Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella
mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher,
que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde
que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra
do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos,
Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave
tristeza da musica.
Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser
convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:
--A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não
encontrarmos.
--E, todavia, meu filho--replicou a mãe--estás sempre perguntando-me
se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!...
--Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de
dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser
feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas,
signal é de que não representa algum affecto de coração a minha
prima.
--E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem
que a expozesse a novas miserias?
--Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar
contra a estrella fatal d'aquella infeliz.
--E crês tu na fatalidade, filho?...
--Creio, minha mãe.
--E a virtude que fica sendo?
--A fatalidade do bem.
--Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á
deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!
--Eu--disse Alvaro com profunda amargura--não sei o que é melhor, nem
mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o
melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é
a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que
bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?
--Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?...
--Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de
amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus
me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...
Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava
fallar a Alvaro.
--A mim!?...--disse elle, admirado--e foi á sala onde o esperava a
senhora.
Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos
amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.
--Não a conheço, minha senhora--disse Alvaro.
--De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae--respondeu
ella em italiano--sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de
Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao
peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das
virtudes de sua nobre mãe.
A italiana enxugava as lagrimas.
--Queira continuar--disse Alvaro.
--Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous
filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz,
era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em
quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos
delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos
meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que
eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao
charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um
demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi
fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como
instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho
pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu
não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle
reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa,
roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não
ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que
elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para
as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao
dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um
homem, que me conhecera em tempos felizes... _felizes!_... que falsa
apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e
alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante
responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa
d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o
pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na
alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores,
valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze
dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta
por toda a vida.
A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:
--Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o
salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de
mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento
dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem
o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.
Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:
--O nome de seu filho?
--É Julio de Macedo.
--Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos
meus esforços.
A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza
d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da
escada.
Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher,
tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e
disse-lhe risonha:
--Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te
em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...
Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a
sua mãe.
--Em que pensas, filho!?--tornou ella rindo em gargalhada--Estás ainda
arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!... Diz o
que sentes, Alvaro!
--Logo, minha mãe, logo...--respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.
--E por que não ha-de ser já?!--redarguiu Maria da Gloria com
gravidade--Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa
arvore produziu fructos tão maus!?
Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns
monossyllabos.
--São aberrações--proseguiu ella--Não lhe ouviste dizer á pobre
mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que
dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua
vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação
minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo
vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a
fortuna te dá.
Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o
perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo.
O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia.
Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço.
Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e
appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas
de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu
filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre;
a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo
como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a
italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.
O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava
palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma
virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da
antiga locataria do palacio de Belem:
--Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde
contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a
senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu
conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço
doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e
levem as lições da desgraça para a conservarem.
D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com
exclamações e lagrimas.
--As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos--disse
Alvaro--Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe
vejo no rosto.
D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho,
partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo
dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de
Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito
da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração
d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me
respondeu:
--A fortuna de duas familias independentes.